




O Caso dos Dez Negrinhos
Agatha Christie


Traduo de Leonel Vallandro
Ttulo do original: Ten Little Niggers
1939, by Agatha Christie




CAPITULO I

I

No canto de um vago de fumar de primeira classe, o Juiz Wargrave, recentemente aposentado,
percorria com um olhar interessado as notcias polticas do Times.
Depois de largar o jornal, olhou pela janela. O trem atravessava o condado de Somerset. Consultou o 
relgio: mais duas horas ainda.
Ps-se a recapitular mentalmente tudo que aparecera nos jornais sobre a Ilha do Negro. Primeiro, a 
sua compra por um milionrio americano apaixonado pelo yachting, e a descrio da luxuosa e moderna 
vivenda que construra nessa pequena ilha ao largo da costa de Devon. Mas, por infelicidade, a nova e 
terceira esposa do milionrio norte-americano sofria de enjo do mar, e tanto a casa como a prpria ilha 
foram subseqentemente postas  venda. Vrios anncios sensacionais apareceram na imprensa. Veio, 
ento, a notcia positiva de que a venda fora efetuada a um Sr. Owen  e comearam os boatos dos 
cronistas sociais. A Ilha do Negro fora de fato comprada por Miss Gabrielle Turl, a estrela de Hollywood, 
que desejava passar alguns meses naquele retiro, livre de toda publicidade! Busy Bee insinuara 
delicadamente que a casa se destinava a ser uma residncia da Realeza!?? Mr. Merryweather ouvira 
cochichar que ela fora comprada para uma lua-de-mel... O jovem Lorde L. rendera-se, afinal, s setas de 
Cupido! Jonas sabia de cincia certa que o adquirente fora o Almirantado, com vistas em realizar ali certas 
experincias extremamente sigilosas!
Positivamente, a Ilha do Negro "era notcia".
O Juiz Wargrave tirou uma carta do bolso. A letra era quase ilegvel, mas aqui e ali se destacavam 
algumas palavras com inesperada clareza: "Querido Lawrence... tantos anos sem que eu nada soubesse 
de voc... deve vir  Ilha do Negro... o lugar mais encantador do mundo... os velhos tempos... comunho 
com a Natureza... lagartear ao sol... s 12:40, da estao de Paddington... nos encontraremos em 
Oakbridge..." E a remetente assinava, com um floreio de pena, "sua amiga de sempre, Constance 
Culmington".
O Juiz Wargrave procurou relembrar com exatido quando tinha visto Lady Constance Culmington pela 
ltima vez. Seria h uns sete... no, oito anos. Estava, ento, de partida para a Itlia, onde ia lagartear ao 
sol e viver em comunho com a Natureza e os contadini. Mais tarde, soubera que ela havia embarcado para 
a Sria, onde ia aquecer-se a um sol ainda mais forte e viver em comunho com a Natureza e os bedunos.
Constance Culmington, refletiu o juiz, era precisamente o tipo de mulher capaz de comprar uma ilha 
para rodear-se de uma atmosfera de mistrio! Sacudindo a cabea numa plcida aprovao  sua prpria 
lgica, o Juiz Wargrave deixou-a descair e ferrou no sono...

II

Num vago de terceira classe, onde viajava em companhia de mais cinco passageiros, Vera 
Claythorne recostou a cabea no espaldar do assento e cerrou os olhos. Que calor fazia naquele trem! 
Seria esplndido ir para o mar! Na verdade, fora uma grande sorte conseguir semelhante emprego! Quando 
se procura trabalho no perodo de frias, isso quase sempre significa tomar conta de um enxame de 
crianas... Os empregos de secretria durante as frias so muito mais difceis de obter. Nem sequer a 
agncia havia dado grandes esperanas.
E ento chegara aquela carta:
"Recebi da Agncia de Empregadas Especializadas a indicao de seu nome, juntamente com as 
respectivas referncias, das quais deduzo que a senhorita  pessoalmente conhecida dessa entidade. 
Terei prazer em pagar-lhe o salrio que pede e espero que comece a trabalhar em 8 de agosto. O trem a 
tomar  o das 12:40, em Paddington. Ser recebida na estao de Oakbridge. Incluo cinco notas de uma 
libra para as despesas.
"Sinceramente, Una Nancy Owen."

E no alto vinha o endereo impresso: Ilha do Negro, Sticklehaven, Devon...
Ilha do Negro! Ultimamente no se falava de outra coisa nos jornais. Toda sorte de insinuaes e de 
boatos interessantes, se bem que provavelmente mentirosos na maioria. Mas era verdade que a casa fora 
construda por um milionrio, e dizia-se que representava a ltima palavra em matria de luxo.
Fatigada por um atarefadssimo trimestre escolar, Vera pensava consigo: "Ser mestra de esportes 
num estabelecimento de terceira ordem  uma coisa miservel... Se ao menos pudesse conseguir lugar 
nalguma escola decente!"
E em seguida, sentindo um frio no corao, pensou: "Mas a verdade  que tive sorte em consegui-lo. 
Afinal, ningum gosta de dar emprego a quem andou s voltas com a justia, mesmo que o Coroner me 
tenha isentado de toda culpa!"
Lembrou-se de que ele a tinha at cumprimentado pela sua coragem e presena de esprito. Para um 
inqurito judicial, no poderia ter-se sado melhor. E a Sra. Hamilton fora para ela a bondade em pessoa. 
Somente Hugo... mas no queria pensar e no pensaria em Hugo!
De sbito, a despeito do calor que fazia no vago, estremeceu arrepiada e desejou que no estivesse 
viajando para o mar. Uma cena configurou-se nitidamente no seu esprito. A cabea de Cyril erguendo-se e 
tornando a mergulhar nas ondas em direo ao rochedo... para cima e para baixo, para cima e para baixo... 
E ela prpria a nadar atrs dele com braadas suaves e experimentadas... abrindo caminho na gua, mas 
sabendo perfeitamente que no chegaria a tempo...
O mar... o seu azul profundo e tpido... as manhs passadas na areia... Hugo... Hugo, que dissera 
am-la...
No devia pensar em Hugo...
Abriu os olhos e franziu a testa olhando para o homem sentado  sua frente. Um homem alto. de rosto 
trigueiro, olhos claros e muito unidos, boca arrogante, quase cruel.
"Aposto que ele esteve em lugares interessantes do mundo e que j viu coisas muito interessantes...", 
pensou Vera consigo.

III

Philip Lombard, avaliando num rpido relance dos seus olhos vivos a moa que tinha na frente, 
pensava:
"Bem atraente... Um pouco aprofessorada, talvez."
Senhora de seus atos, imaginava ele, dessas que sabem dirigir-se tanto na guerra como no amor. 
Bem gostaria de tentar alguma coisa com ela...
Franziu o sobrolho. No, fora com todas essas coisas. Ia a negcios. Devia concentrar-se na sua 
ocupao.
Qual seria precisamente essa ocupao'' cismava Lombard. Aquele judeuzinho tinha sido misterioso 
como o diabo.
  pegar ou largar, Cap. Lombard. E ele respondera pensativamente
 Cem guinus, nem?
Pronunciara estas palavras com displicncia, como se cem guinus nada significassem para ele Cem 
guinus, quando estava na ltima lona! Desconfiava, porm, que o judeuzinho no se deixara enganar. Isso 
 o que h de pior quando se trata com judeus... Impossvel engan-los em questes de dinheiro: eles 
sempre sabem.'
No mesmo tom desprendido, Lombard acrescentara:
 No me pode dar maiores informaes?
O Sr. Isaac Morris sacudira, muito positivo, a cabecinha calva.
 No, Cap. Lombard, isto  tudo que tenho para lhe dizer. O meu cliente conhece a sua reputao 
como homem prestante em situaes perigosas. Estou autorizado a pagar-lhe cem guinus, em troca dos 
quais dever ir a Sticklehaven. no Devon. A estao mais prxima  Oakbridge. L estaro  sua espera 
para lev-lo de automvel a Sticklehaven, onde uma lancha o transportar  Ilha do Negro. Ali o senhor se 
colocar  disposio do meu cliente.
 Por quanto tempo?  indagara abruptamente Lombard.
 Uma semana, no mximo.   v Cofiando o pequeno bigode, o Cap. Lombard observou:
 O senhor sabe que eu no posso aceitar nada... ilegal? Dardejara um olhar penetrante ao outro 
enquanto falava.
Nos espessos lbios semticos do Sr. Morris esboou-se um ligeiro sorriso ao responder gravemente:
 Se algo de ilegal lhe for proposto, o senhor naturalmente ter plena liberdade de recusar.
Diabos levem aquele tipinho oleoso! Pois ele no sorrira? Era como se soubesse que no passado de 
Lombard a legalidade nem sempre fora uma clusula sine qua non...
Os lbios do prprio Lombard entreabriram-se num sorriso ao relembrar a cena.
O fato  que, uma ou duas vezes, fora um pouco afoito demais. Mas sempre conseguia safar-se! Na 
realidade, os seus escrpulos no iam muito longe...
No, os seus escrpulos no iam muito longe. Previa que ia divertir-se bastante na Ilha do Negro...

IV

Num carro para no-fumantes Emily Brent ia rigidamente sentada, como era seu costume. Solteirona 
de sessenta e cinco anos, no aprovava as atitudes relaxadas. Seu pai, um coronel da velha escola, fora 
muito exigente nesse ponto.
A gerao atual era de uma negligncia indecorosa... em suas posturas e em tudo mais...
Envolta numa aura de retido e de princpios irredutveis, Miss Brent viajava no apinhado vago de 
terceira classe e triunfava sobre o desconforto e o calor. Todos, hoje em dia, eram to cheios de dengues! 
Queriam injees para arrancar um dente... tomavam drogas se no podiam dormir... queriam cadeiras 
fofas e almofadas, e as moas vestiam-se de qualquer jeito e, no vero, estiravam-se seminuas nas praias.
Os lbios de Miss Brent cerraram-se com fora. Gostaria de dar uma lio a certa gente.
Lembrou-se do veraneio anterior. Este ano, porm, seria bem diferente. A Ilha do Negro...
Tornou a ler mentalmente a carta que j havia lido tantas vezes:
"Prezada Miss Brent:
"Espero que se recorde de mim. Estivemos juntas na penso de Belhaven, h alguns anos, em 
agosto, e parecamos ter muita coisa em comum.
"Estou iniciando, numa ilha da costa de Devon, uma casa de hspedes de minha propriedade. Creio 
que h realmente campo para uma casa que fornea alimentao simples e sadia a gente boa e 
morigerada,  moda antiga. Nada de nudez nem de gramofones at alta noite. Dar-me- muito prazer se 
consentir em passar seu veraneio na Ilha do Negro  inteiramente grtis  como hspede minha. Serve-
lhe nos princpios de agosto, talvez dia 8?
"Muito devotamente,
U.N.O...."

Como era mesmo o nome? Dava algum trabalho decifrar a assinatura. "Muita gente assina o nome de 
modo bem ilegvel", refletiu Emily Brent com impacincia.
Procurou lembrar-se de suas companheiras de veraneio em Belhaven. Estivera l em dois veres. 
Havia aquela encantadora senhora de meia-idade, Miss... Miss... ora, como se chamava ela? Era filha de 
um cnego anglicano. E tambm l estivera uma Sra. Olten... Ormen... No, era certamente Oliver! Sim, 
Oliver.
A Ilha do Negro. Tinham surgido histrias nos jornais sobre a Ilha do Negro... Falava-se numa artista 
de cinema... ou seria um milionrio norte-americano?
 certo que muitas vezes esses lugares ficam deveras baratos. Ilhas no servem para toda gente. 
Acham a idia muito romntica, mas quando ali vo morar e percebem as desvantagens, do-se por muito 
satisfeitas em desfazer-se delas.
"Seja como for, terei um veraneio gratuito", refletiu Emily Brent.
Com a sua renda to reduzida e tantos dividendos atrasados, isso era, em verdade, uma coisa a ser 
tomada em considerao. Se ao menos pudesse lembrar um pouco mais sobre a Sra. (ou seria Srta.) 
Oliver!

V

O Gen. Macarthur olhou pela janela do vago. Estavam chegando em Exeter, onde teria de fazer 
baldeao. Arre com esses trens lerdos de ramal! Afinal, em linha reta essa tal Ilha do Negro ficava logo ali 
adiante...
No fazia uma idia bem clara de quem fosse o tal Owen. Um amigo de Spoof Leggard e de Johnnie 
Dyer, segundo parecia. "... Tambm viro um ou dois de seus velhos camaradas... gostaria de conversar 
sobre os bons tempos de outrora."
A verdade  que uma charla sobre os velhos tempos lhe daria grande prazer. Ultimamente andava 
desconfiado de que os amigos o evitavam. Tudo por causa daquele infernal boato! Era duro, por Deus... 
Uma coisa que acontecera quase trinta anos atrs! Armitage devia ter tagarelado. Maldito sujeitinho! Que 
saberia ele, enfim? Bem, no valia a pena remoer essas desconfianas! s vezes a gente imagina coisas... 
imagina que um camarada nos olha de maneira esquisita.
Essa Ilha do Negro, por exemplo, gostaria de v-la. Muito mexerico a respeito dela. Talvez houvesse 
algo de verdade no boato de que fora adquirida pelo Almirantado, ou pelo Ministrio da Guerra, ou pela 
Fora Area...
Quem construra a casa fora o jovem Elmer Robson, o milionrio americano. Dizia-se que gastara 
milhares de libras. Todo o luxo do mundo...
Exeter! Uma hora de espera! E ele no queria esperar. Queria tocar para diante.
VI

O Dr. Armstrong atravessava a Plancie de Salsbury no seu carro. Sentia-se bastante cansado. O 
sucesso tem seus inconvenientes. Tempo houvera em que ele ficava sentado no seu consultrio de Harley 
Street, corretamente trajado, cercado dos mais modernos aparelhos e do mais luxuoso mobilirio, 
esperando atravs dos dias vazios pela vitria ou pelo fracasso da sua aventura financeira...
Pois bem, tinha vencido! Tivera sorte. Sorte e competncia, est visto. Era um homem que entendia da 
sua profisso... mas isso no bastava para vencer. Era preciso tambm ter sorte. E ele a tivera! Um 
diagnstico bem feito, duas ou trs clientes agradecidas  mulheres com dinheiro e posio  e a fama 
comeara. "Voc deve consultar Armstrong... Bem moo ainda, mas simplesmente brilhante!... Pamela 
andou nas mos de tudo que era mdico durante anos, mas ele acertou na primeira consulta!" E a bola 
tinha comeado a rolar... ,
Finalmente famoso, o Dr. Armstrong tinha seus dias cheios. Quase no lhe sobravam lazeres. E 
assim, nessa manh de agosto, sentia-se satisfeito em sair de Londres para ir passar alguns dias numa 
ilha ao largo da costa de Devon. No que se tratasse propriamente de um veraneio. A carta que recebera 
era escrita em termos um tanto vagos, mas nada havia de vago no cheque incluso. Que magnificncia! 
Esses Owen deviam nadar em dinheiro. Parecia haver uma pequena dificuldade: o marido, aflito com a 
sade da esposa, desejava um exame mdico sem que esta se alarmasse. Ela no queria saber de 
doutores. Os seus nervos
Nervos! O mdico arqueou as sobrancelhas. Essas mulheres com os seus nervos! Bem, afinal era isso 
que fazia andar o negcio. Metade das mulheres que o procuravam no sofriam de coisa alguma, mas no 
lhe ficariam agradecidas se lhes dissesse! E, em geral, sempre se podia encontrar alguma coisa.
 Uma ligeira disfuno do (uma palavra grega bem comprida). Nada de srio, mas precisa ser 
controlado. Um tratamento simples.
Em grande parte, a medicina era simples curandeirismo. Mas ele tinha jeito; sabia inspirar f e 
esperana.
Que sorte ter podido recuperar-se a tempo depois daquela histria h dez... no, quinze anos! Estava 
se deixando arrastar, mas o choque o fizera cair em si. Abandonara completamente a bebida. Mas, 
caramba, por pouco no dera com os burros n'gua...
Com uma buzinada ensurdecedora, um enorme Dalmain Super-Sports passou por ele a 130 km por 
hora. O Dr. Armstrong quase foi parar na valeta. Um desses jovens cretinos com a mania de correr. Como 
os detestava! Escapara por pouco. Maldito imbecil!

VII

Tony Marston, chispando na direo de Mere, dizia com os seus botes:
 Incrvel a quantidade de carros que se arrastam pelas estradas! Sempre h alguma coisa a se 
atravessar no caminho da gente. E teimam em andar no meio da pista! J nem se pode dirigir na 
Inglaterra... No  como na Frana; l, sim,  que vale a pena!
Parava para tomar alguma coisa ou tocava para diante? Tinha tempo de sobra! Apenas umas cento e 
poucas milhas ainda que andar. Tomaria gim com ginger beer. Um calor de rachar!
A tal casa na ilha devia ser bastante divertida... se o bom tempo durasse. Quem seriam esses Owen? 
Novos-ricos, com certeza. Badger tinha um faro para essa espcie de gente! Est claro que precisava fazer 
isso, pobre diabo, pois era um pronto...
Contanto que servissem boas bebidas... Nunca se pode prever, tratando-se dessa gente que ganhou o 
seu dinheiro e no nasceu com ele. Pena que no fosse verdade aquela histria de Gabrielle Turl ter 
comprado a Ilha do Negro. Gostaria de entrar na roda da estrela de cinema.
Enfim, supunha que houvesse l algumas garotas...
Ao sair do hotel, espreguiou-se, bocejou, olhou para o cu azul e saltou no Dalmain. Seu metro e 
oitenta de altura, seu corpo de atleta, seu cabelo crespo, rosto bronzeado e olhos de um azul intenso 
valeram-lhe um olhar admirativo de vrias moas que se encontravam nas imediaes.
Embreou e partiu roncando pela rua estreita. Alguns velhos e meninos de recados saltaram para a 
segurana da calada.
Estes ltimos acompanharam o Dalmain com um olhar de admirao.
Anthony Marston prosseguiu na sua marcha triunfal.

VIII

O Sr. Blore viajava no trem ordinrio de Plymouth. Havia apenas uma outra pessoa no seu vago, um 
idoso cavalheiro de profisso martima, com olhos sonolentos. Havia adormecido naquele instante.
O Sr. Blore tomava apontamentos num caderninho.
 A esto todos  murmurou de si para si.  Emily Brent, Vera Claythorne, Dr. Armstrong, Anthony 
Marston, o velho Juiz Wargrave, Philip Lombard, Gen. Macarthur, e um casal de criados, os Rogers.
Fechou o caderno de notas e tornou a guard-lo no bolso. Lanou um olhar ao canto onde o outro 
dormitava.
 Tomou um copo demais  diagnosticou o Sr. Blore com preciso.
Tornou a repassar tudo na mente, com meticuloso cuidado.
 O trabalho deve ser fcil  ruminou ele.  No vejo nenhuma possibilidade de cometer erros. 
Espero que minha aparncia seja aceitvel.
Levantou-se e examinou-se ansiosamente no espelho. O rosto que ali viu refletido possua um bigode 
que lhe dava um certo ar militar. Um rosto inexpressivo, de olhos cinzentos bastante chegados um ao 
outro.
 Podia passar por um major  disse o Sr. Blore.  No, ia esquecendo. L estar aquele velho 
general. Ele me descobriria em seguida... A frica do Sul: essa  a linha a adotar! De toda essa gente, 
ningum tem nada que ver com a frica do Sul, e eu estou bem informado graas quele folheto de viagem 
que li no outro dia.
Felizmente, havia coloniais de todos os tipos e espcies. Como um sul-africano de recursos, o Sr. 
Blore achava que podia freqentar qualquer sociedade sem que ningum desconfiasse.
Ilha do Negro. Lembrava-se de t-la visitado em menino... Um rochedo malcheiroso, coberto de 
gaivotas, a cerca de uma milha da costa. Recebera esse nome por causa da semelhana com uma cabea 
de homem  um homem de lbios negrides.
Esquisita idia construir uma casa ali! Era horrvel com mau tempo! Mas os milionrios tm desses 
caprichos!
L no seu canto, o velho acordou e disse:
 Nunca se pode contar com o mar, nunca mesmo!
O Sr. Blore respondeu com voz macia:
  verdade. Nunca se pode.
O velho soluou duas vezes e disse em tom queixoso:
 A vem tormenta. O Sr. Blore interps:
 No, no, companheiro, est fazendo um lindo dia. O velho redargiu, furioso:
 A vem uma tormenta. Sinto-lhe o cheiro.
 Talvez tenha razo  assentiu o Sr. Blore pacificamente.
O trem parou numa estao e o velho ergueu-se a custo.
 aqui que eu desembarco.
Fez fora para abrir a janela. O Sr. Blore ajudou-o. Ao sair, o velho parou na porta e alou solenemente 
a mo, piscando os olhos sonolentos.
Vigiai e orai  disse.  Vigiai e orai. O Dia do Juzo est prximo.
Desabou pelos degraus do vago abaixo. Em posio supina na plataforma, ergueu os olhos para o Sr. 
Blore e proclamou com imensa dignidade:
 Estou falando para o senhor, moo. O Dia do Juzo est muito prximo.
Ficando a ss, o Sr. Blore disse consigo:
 Ele est mais prximo do Dia do Juzo do que eu! Mas nisso, consoante veio a suceder, enganava-
se...


CAPTULO II

I

No recinto externo da estao de Oakbridge formara-se um pequeno grupo de pessoas tomadas de 
momentnea hesitao. Atrs delas, os carregadores esperavam com as malas. Um deles chamou:
 Jim!
O chofer de um dos txis avanou para o grupo.
 Por acaso vo para a Ilha do Negro?  perguntou com a fala macia dos devonianos. Quatro vozes 
responderam na afirmativa, e imediatamente os integrantes do grupa lanaram olhares sub-reptcios uns 
aos outros.
O chofer tornou a falar, dirigindo-se ao Juiz Wargrave como o mais velho de todos:
 Temos dois txis aqui, senhor. Um deles deve esperar pela chegada do trem ordinrio de Exeter.  
uma questo de cinco minutos... Vem mais um cavalheiro por esse trem. Talvez um dos senhores no se 
importe de esperar? Ficariam mais bem acomodados assim.
Vera Claythorne, que no esquecia a sua posio de secretria, respondeu em seguida:
 Eu espero, se os senhores quiserem ir.
Sua voz e a expresso do seu rosto tinham esse qu de comando, prprio das pessoas que ocupam 
uma posio de autoridade. Era como se estivesse determinando em que sets de tnis deviam jogar as 
meninas.
 Muito obrigada  disse Miss Brent, dura como um pau. E, curvando a cabea, entrou num dos 
txis, cuja porta o
chofer conservava aberta. Depois dela embarcou o Juiz Wargrave.
 Fico esperando com Miss... prontificou-se o Cap. Lombard.
 Claythorne  disse Vera.
 Meu nome  Lombard, Philip Lombard.
Os carregadores empilhavam a bagagem no porta-malas do txi.
 Que belo tempo est fazendo!  disse no interior o Juiz Wargrave, com a devida cautela judiciria.
 Sim, com efeito  volveu Miss Brent.
Um velho cavalheiro muito distinto, pensava l consigo. Bem diferente do tipo de homem que a gente 
costuma encontrar nas penses de beira-mar. Evidentemente, a Sra. ou Srta. Oliver tinha boas relaes...
 Conhece bem esta regio?  perguntou o Juiz Wargrave.
 J estive na Cornualha e em Torquay, mas  a primeira vez que venho a esta parte do Devon.
 Eu tambm nunca estive por aqui  disse o juiz. O txi partiu.
O chofer do segundo veculo perguntou:
 No querem sentar-se para esperar?
 De modo algum  respondeu Vera, decidida. O Cap. Lombard sorriu e observou:
 Aquela parede banhada pelo sol tem um aspecto mais atraente. A no ser que prefira ir para dentro 
da estao?
 No mesmo!  uma delcia ver pelas costas esse sufocante trem.
 Sim, viajar de trem com este tempo  uma prova para os nervos.
A resposta de Vera foi convencional:
 Espero que dure... o tempo, quero dizer. Os nossos veres da Inglaterra so traioeiros.
Lombard perguntou, com uma ligeira falta de originalidade:
 Conhece bem esta regio?
 No, nunca estive aqui.  E Vera acrescentou, resolvida a esclarecer imediatamente a sua 
posio:  Nem sequer ainda encontrei o meu empregador.
 Seu empregador?
 Sim, sou secretria do Sr. Owen.
 Ah! compreendo.  As maneiras do capito mudaram imperceptivelmente. Tornaram-se um pouco 
mais seguras e mais desembaraado o seu tom.  No acha isso um tanto fora do comum?  perguntou.
Vera riu.
 Oh! no, no me parece. A secretria particular desse senhor adoeceu subitamente. Telegrafou a 
uma agncia pedindo uma substituta, e enviaram a mim.
 Ah! ento foi isso... Mas suponhamos que o emprego
no lhe agrade quando l chegar?
Vera tornou a rir.
 Bem, afinal  uma coisa temporria, um trabalho de frias. Tenho meu emprego permanente numa 
escola de meninas. A verdade  que estou encantada com a idia de conhecer a Ilha do Negro. Tem-se 
falado muito dela nos jornais. Ser mesmo to fascinante assim?
 No sei. Nunca a vi.
 Realmente? Os Owen devem ter muito amor a ela. Por favor, diga-me que espcie de gente  essa 
famlia.
"A situao  um tanto esquerda...", pensou Lombard. "Qual ser o mais certo: devo conhec-los, ou 
no?" E apressou-se a dizer:
 H uma vespa caminhando no seu brao. No... fique completamente imvel.  Saltou sobre o 
fictcio inseto com um gesto convincente.  Pronto, l se foi!
 Oh! muito obrigada. Vem-se muitas vespas neste vero.
 Sim, creio que seja por causa do calor. Sabe, por acaso, quem  que estamos esperando?
 No fao a menor idia.
Ouviu-se o apito agudo e prolongado de um trem que se aproximava e Lombard observou:
 Deve ser este o trem.
Um homem alto, de aspecto militar, apareceu  sada da estao. Tinha o cabelo grisalho cortado  
cadete e um bigode branco corretamente aparado.
Seu carregador, que vacilava um pouco sob o peso de uma slida mala de couro, indicou Vera e 
Lombard.
Vera adiantou-se com um ar competente e disse:
 Sou a secretria do Sr. Owen. Temos um carro aqui  espera.  E acrescentou:  Este  o Sr. 
Lombard.
Os desbotados olhos azuis, perspicazes a despeito da idade, avaliaram Lombard. Por um instante, o 
juzo que fez dele transpareceu no seu olhar... se ali houvesse algum capaz de l-lo.
"Um belo rapaz, mas h nele qualquer coisa de falso...
Subiram os trs no txi. Atravessaram as ruas sonolentas da cidadezinha e rodaram pela distncia de 
uma milha na estrada de Plymouth, mergulhando depois num labirinto de azinhagas verdes, estreitas e 
ngremes.
 Esta parte do Devon me  completamente desconhecida. Moro no leste do condado, sobre a 
fronteira de Dorset.
 Realmente,  um lugar encantador  disse Vera.  Estas colinas, esta terra vermelha, e tudo de 
um verde to luxuriante!
 Um pouco fechado  comentou Lombard.  Quanto a mim, prefiro o campo aberto, onde se possa 
ver o que se aproxima...
 Tem andado bastante por esse mundo, imagino?  perguntou-lhe o Gen. Macarthur.
Lombard deu de ombros.
 Tenho estado aqui e ali, senhor.
L consigo pensava: "Agora vai perguntar se tenho idade suficiente para ter estado na guerra.  a 
pergunta que sempre fazem esses velhos militares".
O Gen. Macarthur, porm, no mencionou a guerra.

II

Subiram uma encosta e desceram por um caminho em ziguezague at Sticklehaven, simples 
amontoado de casinholas com um ou dois barcos de pesca postos a seco na praia.
Iluminada pelo sol poente, avistaram pela primeira vez a Ilha do Negro, que sobressaa do mar, ao sul.
 Fica bem longe!  disse Vera, surpreendida.
Fizera dela uma idia diferente, prxima da costa e coroada por uma bela casa branca. Mas no se via 
casa alguma: apenas a silhueta abrupta do rochedo, que lembrava vagamente uma gigantesca cabea de 
negro. Seu aspecto era um tanto sinistro. Vera teve um leve estremecimento.
Diante de uma pequena estalagem, o "Sete-Estrelo", estavam sentadas trs pessoas: a figura idosa e 
encurvada do juiz, a forma ereta de Miss Brent, e um terceiro homem  um homenzarro expansivo que 
caminhou para eles e apresentou-se.
 Decidimos esperar pelos senhores, a fim de fazer uma s viagem. Permitam que me apresente. 
Meu nome  Davis. Natal, na frica do Sul,  minha terra natal, ah! ah!
Riu alegremente.
O Juiz Wargrave olhou para ele com viva malevolncia. Parecia lamentar que no pudesse mandar 
evacuar a sala do tribunal. Miss Brent, visivelmente, no sabia ao certo se gostava ou no dos coloniais.
 Algum aceita um traguinho antes de embarcarmos?  perguntou hospitaleiramente o Sr. Davis.
Como ningum se mostrasse tentado, ele virou-se e acenou com o dedo.
 Ento no convm demorar mais. Os amveis donos da casa devem estar  nossa espera.
Talvez tivesse notado o estranho constrangimento que se apossou dos outros componentes do grupo. 
Era como se a meno dos donos da casa tivesse um curioso efeito paralisante sobre os hspedes.
Respondendo ao aceno de Davis, um homem desgrudou-se do muro prximo a que estivera encostado 
e caminhou para eles. Seu andar gingado proclamava o homem do mar. Tinha um rosto curtido pelo sol e 
pelo vento, e uns olhos escuros de expresso ligeiramente evasiva.
 Esto prontos para partir, senhoras e senhores?  perguntou na sua macia voz do Devon.  O 
barco est esperando. Dois cavalheiros vm de automvel, mas o Sr. Owen deu ordem de no esper-los, 
pois no se sabe a que hora chegaro.
O grupo levantou-se e o barqueiro conduziu-os ao longo de um pequeno molhe a que estava encostada 
uma lancha a motor.
  um barco muito pequeno  disse Emily Brent. O dono da lancha replicou persuasivamente:
  um belo barco, este, dona. Pode-se ir nele a Plymouth enquanto o diabo esfrega um olho.
 Mas ns somos muitos  objetou o Juiz Wargrave.
 A lancha levaria o dobro, senhor.
Philip Lombard falou na sua voz agradvel e fluente:
No h perigo. Um tempo maravilhoso... o mar sem ondas.
Meio hesitante, Miss Brent permitiu que a ajudassem a entrar na embarcao. Os outros seguiram-na. 
Por ora, ainda no havia confraternizao entre o grupo. Era como se cada um dos que o formavam 
constitusse um enigma para os outros.
Estavam para largar quando o guia estacou com o croque na mo.
Um automvel vinha chegando pela ngreme estradinha que descia para a aldeia. Um automvel to 
possante, to superlativamente belo, que tinha todo o aspecto de uma apario.  direo vinha um moo 
com os cabelos ondulando ao vento. Banhado pelo resplendor purpurino do pr de sol, no parecia um 
homem, mas um jovem deus, um deus-heri sado de alguma saga escandinava.
Premiu a buzina, e um potente rugido ecoou nos rochedos da baa.
Foi um momento fantstico. Nesse instante, Anthony parecia ser mais do que um mortal. A 
recordao desse momento ficou impressa na memria de mais de um dos presentes.

III

Sentado junto ao motor, Fred Narracott pensava l consigo que no seu barco viajava um grupo bem 
singular. De maneira nenhuma aquelas pessoas combinavam com a idia de como deviam ser os hspedes 
do Sr. Owen. Havia esperado gente mais fina. Senhoras e cavalheiros vestidos com trajes nuticos, todos 
riqussimos e de ar muito importante.
Estes em nada se pareciam com os visitantes do Sr. Elmer Robson. Um leve sorriso assomou aos 
lbios de Fred quando se lembrou dos hspedes do milionrio. Aquilo sim era gente... e a quantidade de 
bebida que consumiam, bom Deus!
O tal Sr. Owen devia ser um cavalheiro de tipo muito diferente. Era engraado, pensou Fred, que ainda 
no tivesse posto os olhos em Owen... ou em sua senhora, tampouco. O homem ainda no viera nem uma 
s vez  aldeia. Tudo fora encomendado e pago por aquele Sr. Morris. As instrues eram sempre muito 
claras e o pagamento pronto, mas, assim mesmo, aquilo era esquisito. Os jornais descreviam
Owen como um homem algo misterioso. Narracott concordava com os jornais.
Talvez, afinal de contas, fosse realmente Miss Gabrielle Turl quem comprara a ilha. Mas teve de 
abandonar a hiptese ao examinar de novo os seus passageiros. Gente assim... no era possvel! Nenhum 
deles parecia ter qualquer coisa que ver com uma estrela de cinema.
Fred Narracott inventariou-os com iseno de nimo:
Uma velha solteirona cheia de azedume... conhecia-as demasiado bem. Na certa seria uma mulher de 
maus bofes. Um velho militar cheirando a caserna. Uma moa bem simptica, mas da classe comum, sem 
trao algum de glamour ou de Hollywood. O cavalheiro rude e jovial... esse no era um cavalheiro de 
verdade. Comerciante aposentado, isso  o que ele , pensou Fred. O outro cavalheiro, o magro com cara 
de faminto e olhos vivos, era esquisito, isso era. Talvez, afinal de contas, tivesse algo que ver com o 
cinema.
No: na lancha s havia um passageiro satisfatrio. O ltimo a chegar, o que viera de automvel (e que 
automvel! Um carro como aquele nunca fora visto em Sticklehaven. Devia custar centenas e centenas de 
libras, um carro assim)... o moo era perfeito. Nascera rico, isso no tinha dvida. Se todos fossem como 
ele... ento Fred os entenderia...
Coisa esquisita, pensando bem... Tudo aquilo era singular... muito singular...

IV

Tef-tef-tef... a lancha deu volta ao rochedo e finalmente apareceu a casa. O lado sul da ilha era bem 
diferente. Tinha um suave declive para o mar. Ali se achava a casa com a frente para o sul  baixa e 
quadrada, de aspecto moderno, com janelas arredondadas que deixavam entrar toda a luz.
Uma bela casa... uma casa que correspondia s expectativas!
Fred Narracott apagou o motor e a embarcao penetrou suavemente num pequeno canal natural que 
havia entre as rochas.
 Deve ser difcil encostar aqui com mau tempo.  observou Lombard.
E Fred Narracott, em voz alegre:
 No se pode desembarcar na Ilha do Negro quando o vento sopra de sudeste. s vezes a ilha fica 
sem comunicao com a terra por uma semana ou mais.
"O abastecimento deve ser difcil", observou Vera Claythorne. " o que uma ilha tem de pior. Todos os 
problemas domsticos so to incomodativos!"
A lancha roou na rocha. Fred Narracott saltou e, juntamente com Lombard, ajudou os outros a 
desembarcar. Narracott amarrou o barco a uma argola encravada no rochedo, depois ensinou o caminho 
pelos degraus talhados na pedra.
 Ah! que lugar encantador!  disse o Gen. Macarthur. Mas no ntimo sentia-se inquieto. Raio de 
lugar esquisito!
Depois de subir os degraus e alcanar um terrao l em cima, o grupo reanimou-se. Um correto 
mordomo esperava os visitantes  porta aberta da casa. Seu ar sereno e grave tranqilizou-os. E, depois, a 
prpria casa era muitssimo atraente, e magnfica a vista que se descortinava do terrao...
O mordomo avanou, curvando-se levemente. Era um homem alto e esguio, de cabelos grisalhos e 
muito respeitvel.
 Queiram ter a bondade de vir por aqui  disse ele. No vasto hall, as bebidas j estavam  
disposio. Filas
de garrafas. Anthony Marston alegrou-se um pouco. Estivera pensando que aquilo era muito estranho. 
Ningum da sua igualha. Que teria Badger na cabea ao mistur-lo com aquela gente? Contudo, no se 
podia criticar as bebidas. E havia gelo de sobra, tambm.
Que dizia aquele mordomo?
O Sr. Owen... uma infeliz demora... no podia estar com eles antes do dia seguinte. Instrues... tudo 
que desejassem... no gostariam de ir at os seus quartos?... o jantar seria s oito horas...

V

Vera seguira a esposa do mordomo at o andar superior. A mulher abriu uma porta ao fundo de um 
corredor e Vera entrou num delicioso quarto de dormir, com uma enorme janela que dava para o mar e uma 
outra voltada para leste. A moa deixou escapar uma exclamao de prazer.
 Espero que tenha aqui tudo o que deseje, senhorita  dizia a Sra. Rogers.
Vera olhou em redor de si. Suas malas tinham sido trazidas para cima e abertas. A um lado do quarto 
havia uma porta que dava para um quarto de banho revestido de azulejos azuis.
 Sim, acho que tenho tudo  apressou-se a responder.
 Quando precisar de alguma coisa  s tocar a campainha, senhorita.
A Sra. Rogers tinha uma voz montona, sem entonao. Vera olhou para ela com curiosidade. Que 
branco e exangue fantasma de mulher! A aparncia era muito respeitvel, com o cabelo repuxado para trs 
e o vestido preto. Estranhos olhos claros, que estavam sempre a bulir de um lado para outro!
"Parece ter medo da prpria sombra", pensou Vera.
Sim, era isso: uma criatura assustada.
Parecia uma mulher que vive presa de um medo mortal...
Um pequeno arrepio subiu pela espinha de Vera. De que diabo tinha medo aquela mulher?
 Sou a secretria do Sr. Owen  disse amavelmente.  Sem dvida j sabe.
 No, senhorita, no sei de nada  respondeu a Sra. Rogers.  Tenho apenas uma lista das 
senhoras e cavalheiros e dos quartos que devem ocupar.
 A Sra. Owen no lhe falou a meu respeito? A mulher do mordomo bateu as pestanas.
 Ainda no vi a Sra. Owen. Chegamos apenas h dois dias.
"Gente extraordinria, esses Owen", pensou Vera. Depois, em voz alta, perguntou:
 Quantos empregados so aqui?
 S eu e Rogers, senhorita.
Vera carregou o cenho. Oito pessoas na casa  dez com os donos  e s um casal para atender a 
todos! A Sra. Rogers disse:
 Sou boa cozinheira e Rogers cuida da casa. Eu no sabia, naturalmente, que iam vir tantas 
pessoas.
 Mas pode dar conta do servio?
 Oh! sim, posso muito bem. Se vierem muitos visitantes com freqncia, talvez a Sra. Owen possa 
arranjar mais algumas empregadas.
 Espero que sim  disse Vera.
A Sra. Rogers virou-se para sair. Seus ps moviam-se sem rudo sobre o assoalho. Escoou-se do 
quarto como uma sombra.
Vera caminhou para a janela e sentou-se no sof que ali havia. Sentia-se levemente perturbada. Tudo 
aquilo, de certo modo, era um pouco esquisito. A ausncia dos Owen, a plida e fantasmal empregada. E 
os hspedes! Sim, os hspedes tambm eram singulares. Que grupo mais desigual!
"Gostaria de ter visto os Owen...", pensou Vera. "Tinha vontade de saber um pouco como so eles."
Levantou-se e caminhou desassossegadamente pelo quarto. Um perfeito quarto de dormir, todo 
decorado em estilo moderno. Tapetes cor de marfim no lustroso piso de parque, paredes pintadas em tons 
suaves, um comprido espelho cercado de luzes. O consolo da lareira despido de quaisquer ornamentos a 
no ser um enorme bloco de mrmore branco com a forma de um urso, exemplar de arte moderna em que 
se inseria um relgio. Por cima dele, numa resplandecente moldura de cromo, havia um grande retngulo 
de pergaminho  um poema.
Vera postou-se diante da lareira e leu-o. Era a velha historieta infantil em versos, que lhe fez lembrar 
os seus tempos de criana:
Dez negrinhos vo jantar enquanto no chove; 
Um deles se engasgou e ento ficaram nove. 
Nove negrinhos sem dormir: no  biscoito! 
Um deles cai no sono, e ento ficaram oito. 
Oito negrinhos vo a Devon de charrete; 
Um no quis mais voltar, e ento ficaram sete. 
Sete negrinhos vo rachar lenha, mas eis 
Que um deles se corta, e ento ficaram seis. 
Seis negrinhos de uma colmia fazem brinco; 
A um pica uma abelha, e ento ficaram cinco. 
Cinco negrinhos no foro, a tomar os ares; 
Um ali foi julgado, e ento ficaram dois pares. 
Quatro negrinhos no mar; a um tragou de vez 
O arenque defumado, e ento ficaram trs. 
Trs negrinhos passeando no Zo. 
E depois? O urso abraou um, e ento ficaram dois. 
Dois negrinhos brincando ao sol, sem medo algum;
Um deles se queimou, e ento ficou s um. 
Um negrinho aqui est a ss, apenas um; 
Ele ento se enforcou, e no ficou nenhum.

Vera sorriu. Claro! Estavam na Ilha do Negro! Foi de novo sentar-se  janela, olhando o mar. Como era 
grande o mar! Daqui no se via terra em parte alguma  apenas a vastido do azul das ondas refulgindo
ao sol poente.
O mar... to pacfico hoje e as vezes to cruel... O mar que nos arrasta para as profundezas. 
Afogado... encontrado afogado... afogado no mar... afogado  afogado  afogado...
No, no queria lembrar-se... no queria pensar naquilo!
Tudo isso eram coisas do passado...

VI

O Dr. Armstrong chegou  Ilha do Negro no momento em que o sol mergulhava no oceano. Durante o 
trajeto havia palestrado com o barqueiro, um homem do lugar. Estava ansioso por saber alguma coisa sobre 
os proprietrios da Ilha do Negro, mas o tal Narracott parecia singularmente mal informado, ou talvez no 
estivesse disposto a falar.
Em face disso, o mdico ps-se a falar do tempo e da pesca.
A longa viagem de automvel deixara-o cansado. Doam-lhe os olhos. Quem viaja para oeste tem o sol 
pela frente.
Sim, estava muito cansado. O mar e a perfeita paz... disso  que precisava. Gostaria, com efeito, de 
gozar umas longas frias, mas no se podia permitir tal luxo. Financeiramente,  claro que podia: mas 
como abandonar a sua clnica? Hoje em dia -se depressa esquecido. No, agora que havia triunfado, devia 
continuar na dobadoura.
"Assim mesmo", pensava ele, "esta noite imaginarei que no vou voltar... que acabei com Londres, 
com a Harley Street e tudo mais."
Havia qualquer coisa de mgico numa ilha  a simples palavra despertava a fantasia. Perdia-se o 
contato com o mundo... uma ilha era um mundo  parte. Um mundo do qual nunca se regressar, talvez.
"Estou deixando a minha vida cotidiana para trs", pensou ele.
E, sorrindo para si mesmo, comeou a fazer planos, fantsticos planos de futuro. Ainda estava a sorrir 
quando subiu os degraus talhados na rocha.
No terrao, um cavalheiro idoso estava sentado numa cadeira. Ao v-lo, o Dr. Armstrong teve a 
impresso de que o seu rosto lhe era vagamente familiar. Onde vira aquela cara de r, aquele pescoo de 
tartaruga, aquela postura encurvada, e... sim, aqueles olhinhos plidos e argutos? Claro, o velho Wargrave! 
Prestara depoimento uma vez perante ele. Parecia sempre meio adormecido, mas era ladino como ningum 
quando se tratava de uma questo legal. Tinha um grande poder sobre os jurados  dizia-se que podia 
influir quando e como quisesse na deciso do jri. Por uma ou duas vezes tinha-o levado a condenar o ru 
contra todas as expectativas. Um Juiz-verdugo, era como o chamavam alguns...
Esquisito lugar para encontr-lo... aqui, fora do mundo!

VII

O Juiz Wargrave pensava com os seus botes: "Armstrong? Lembro-me dele no banco das 
testemunhas. Muito correto e cauteloso. Todos os mdicos so uns grandssimos tolos. Os de Harley 
Street so os piores."
E sua memria deteve-se com malevolncia num suave indivduo com quem se tinha avistado 
recentemente naquela mesma rua.
 As bebidas esto no hall  resmungou para o outro. E o Dr. Armstrong:
 Devo primeiro apresentar meus respeitos aos donos da casa.
O Juiz Wargrave tornou a cerrar os olhos, parecendo-se mais do que nunca com um rptil, e disse:
 Isso o senhor no poder fazer. O Dr. Armstrong sobressaltou-se.
 Por que no?
 No h donos da casa. Um curioso estado de coisas.
No entendo este lugar.
O Dr. Armstrong encarou-o durante um longo momento. Estava j a pensar que o velho cara no sono 
quando Wargrave disse repentinamente:
 Conhece Constance Culmington?
 H... no, receio que no.
 No tem importncia  continuou o juiz.  Uma mulher muito vaga... e com uma letra 
praticamente ilegvel. Estava justamente me perguntando se no errei de casa.
O Dr. Armstrong abanou a cabea e entrou.
O Juiz Wargrave refletia a respeito de Constance Culmington. Uma criatura, em quem a gente no se 
podia fiar, como todas as mulheres.
Passou ento a ocupar-se das mulheres que ali estavam, na casa: a solteirona de lbios comprimidos 
e a moa. No dava nada pela moa, uma sujeitinha sem emoes. No, eram trs mulheres, contando-se 
com a Rogers. Curiosa criatura, que parecia andar num susto mortal. Um casal respeitvel que conhecia o 
seu ofcio.
Como Rogers aparecesse no terrao nesse instante, o juiz perguntou-lhe:
 Sabe se Lady Constance Culmington est sendo esperada?
Rogers olhou admirado para ele.
 Que eu saiba, no senhor.
O juiz alou as sobrancelhas, mas limitou-se a emitir um grunhido. L consigo, pensou:
"Ilha do Negro, hem? Aqui h marosca."

VIII

Anthony Marston estava no banho. Deliciava-se com a gua fumegante. A longa viagem de automvel 
deixara-o com cimbras nos braos e nas pernas. Muito poucos pensamentos lhe passavam pela cabea. 
Anthony era um homem de sensaes  e de ao.
"'Agora que estou aqui, acho que devo meter para a frente', pensou; e em seguida afastou do esprito 
qualquer pensamento.
gua quente e fumegante... membros cansados... daqui a pouco, fazer a barba... um coquetel... 
jantar. E depois?...

IX

O Sr. Blore estava dando o lao na gravata. No era muito hbil nessas coisas.
Tinha boa aparncia? Supunha que sim.
Ningum fora muito cordial com ele... Engraado como se entreolhavam... como se soubessem...
Bem, tudo dependia dele.
No queria fazer nenhuma asneira.
Ergueu os olhos para os versos infantis acima do consolo da chamin.
Bela idia pr aquilo ali!
"Lembro-me desta ilha quando era garoto", pensou. "Nunca me passou pela cabea que viria a fazer 
semelhante trabalho numa casa aqui. Talvez seja muito bom que a gente no possa prever o futuro."
O Gen. Macarthur franzia o sobrolho de si para si.
Com os diabos, aquilo era esquisitssimo! No se parecia em absoluto com o que fora levado a 
esperar...
Por d c aquela palha, inventava uma desculpa para ir embora... Largar aquilo de mo...
Mas a lancha havia voltado para a terra firme.
Ele teria de ficar.
O tal Lombard, por exemplo, era um sujeito estranho. No era honesto. Juraria que o homem no era 
honesto.

XI

Ao som do gongo, Philip Lombard saiu do seu quarto e caminhou para a escada. Movia-se como uma 
pantera: suavemente, sem rudo. Demais, havia em toda a sua pessoa qualquer coisa de pantera. Um 
animal de presa, agradvel aos olhos.
Lombard sorria para consigo.
Uma semana, hem?
Ia gozar bem essa semana.

XII

No seu quarto, Emily Brent, vestida de seda preta, pronta para o jantar, lia a sua Bblia.
Movia os lbios, formando as palavras:

"Os idolatras mergulham no abismo que eles prprios cavaram; na armadilha que esconderam, o seu 
prprio p  apanhado. O Senhor  conhecido pelo julgamento que executa: o mau enreda-se na obra de 
suas prprias mos. O mau ser lanado no fogo do inferno."

Comprimindo com fora os lbios, Miss Brent fechou a Bblia.
Levantou-se, ps na gola do vestido um broche com pedras de quartzo amarelo e desceu para o jantar.

CAPITULO III

I

O jantar estava no fim.
A comida tinha sido boa e o vinho perfeito. Rogers servia bem  mesa.
Todos mostravam a melhor das disposies. Haviam comeado a conversar uns com os outros com 
mais liberdade e intimidade.
O Juiz Wargrave, amolecido pelo excelente vinho do Porto, dizia coisas espirituosas e causticantes. O 
Dr. Armstrong e Tony Marston escutavam-no. Miss Brent palestrava com o Gen. Macarthur; haviam 
descoberto alguns amigos comuns. Vera Claythorne fazia perguntas inteligentes ao Sr. Davis sobre a frica 
do Sul. O Sr. Davis falava do assunto com muita fluncia. Lombard escutava a conversa, e por uma ou duas 
vezes ergueu rapidamente os olhos, estreitando as plpebras. De quando em quando seus olhos corriam 
em volta da mesa, estudando os outros.
 Esquisitas estas coisas, no?  disse Marston de repente.
No centro da mesa redonda, sobre um suporte circular de vidro, viam-se algumas figurinhas de 
porcelana.
 Negros  disse Tony.  A Ilha do Negro. Creio que a idia  essa.
Vera inclinou o corpo para a frente.
 Vamos ver: quantos so? Dez?
 Sim... so dez. Vera exclamou:
 Que engraado! Devem ser os dez negrinhos dos versos infantis. No meu quarto, a historieta est 
numa moldura pendurada sobre a lareira.
 No meu quarto tambm  disse Lombard.
 E no meu.
 E no meu.
Todos juntaram suas vozes ao coro.
  uma idia divertida, no?  disse Vera.
 Uma notvel criancice  grunhiu o Juiz Wargrave, servindo-se de mais vinho do Porto.
Emily Brent e Vera Claythorne olharam uma para a outra e levantaram-se.
Na sala, as portas envidraadas estavam abertas para o terrao, deixando chegar at eles o murmrio 
do mar contra os rochedos.
 Um som agradvel  comentou Emily Brent. E Vera, secamente:
 Tenho-lhe dio!
Os olhos de Miss Brent fixaram-se nela com surpresa. Vera corou e acrescentou, mais ponderada:
 No creio que este lugar seja muito agradvel quando h tormenta.
Emily Brent concordou.
 No duvido que a casa fique fechada no inverno. Em primeiro lugar, no seria possvel arranjar 
criados que quisessem ficar aqui.
 De qualquer maneira, deve ser difcil arranjar criados  murmurou Vera.
E Miss Brent:
 A Sra. Oliver teve sorte em conseguir esses dois. A mulher  boa cozinheira.
" engraado como as pessoas idosas vivem sempre trocando os nomes", pensou Vera. E, em voz 
alta, disse:
 Sim, acho que a Sra. Owen teve na verdade muita sorte. Emily Brent tirara da sua bolsa um 
pequeno trabalho de
bordado. Ia enfiar a agulha quando estacou, perguntando vivamente:
 Owen? Foi Owen que disse?
 Sim.
 Nunca encontrei ningum chamado Owen na minha vida!  exclamou Emily Brent.
Vera arregalou os olhos.
 Mas... certamente deve...
No terminou a frase. A porta abriu-se e os homens entraram. Atrs deles surgiu Rogers, carregando a 
bandeja do caf.
O juiz sentou-se ao lado de Emily Brent. Armstrong acercou-se de Vera. Tony Marston caminhou 
devagar para a porta aberta do terrao. Blore ficou a estudar com ingnua surpresa uma estatueta de 
bronze  talvez perguntando consigo se aquelas bizarras angularidades eram realmente para ser uma 
figura feminina. O Gen. Macarthur ficou de costas para a lareira. Cofiava o bigodinho branco. Com a breca, 
fora um excelente jantar! Comeava a animar-se. Lombard folheava as pginas do Punch, que, com os 
outros jornais e revistas, se encontrava sobre uma mesa junto  parede.
Rogers fazia a volta da sala com a sua bandeja. O caf sabia bem. Muito preto e quente.
Todo o grupo havia jantado bem. Estavam satisfeitos consigo e com a vida. Os ponteiros do relgio 
indicavam nove e vinte. Formou-se um silncio  um silncio farto e confortvel.
Dentro desse silncio ressoou a Voz. Inesperada, inumana, penetrante...
"Senhoras e Senhores! Silncio, por favor!"
Todos se sobressaltaram. Olharam em torno... uns para os outros, para as paredes. Quem estava 
falando?
A Voz prosseguiu, alto e bom som:

Sois acusados dos seguintes crimes:
Edward George Armstrong, de ter causado, em 14 de maro de 1925, a morte de Louisa Mary Clees.
Emily Caroline Brent, de ter sido responsvel pela morte de Beatrice Taylor, ocorrida em 5 de 
novembro de 1931.
William Henry Blore, de ter provocado a morte de James Stephen Landor, em 10 de outubro de 1928.
Vera Elizabeth Claythorne, de ter morto, em 11 de agosto de 1935, a Cyril Ogilvie Hamilton.
Philip Lombard, de ter sido culpado, em fevereiro de 1932, pela morte de vinte e um homens, 
pertencentes a uma tribo da frica Oriental.
John Gordon Macarthur, de ter, a 14 de janeiro de 1917, enviado deliberadamente para a morte o 
amante de sua mulher, Arthur Richmond.
Anthony James Marston, de ter sido, no dia 14 de novembro ltimo, culpado pela morte de John e 
Lucy Combes.
Thomas Rogers e Ethel Rogers, de terem sido, a 6 de maio de 1929, os causadores da morte de 
Jennifer Brady.
Lawrence John Wargrave, de ter sido, a 10 de junho de 1930, responsvel pelo assassnio de Edward 
Seton.
"Acusados aqui presentes, tendes alguma coisa a alegar em vossa defesa?".

II

Calou-se a Voz.
Houve um momento de silncio petrificado e, em seguida, um estardalhao de louas quebradas. 
Rogers deixara cair a bandeja do caf.
No mesmo instante, vindo de fora da sala, ouviu-se um grito e o baque de um corpo.
Lombard foi o primeiro a mover-se. Saltou para a porta e abriu-a. Diante da soleira jazia um corpo 
dobrado sobre si mesmo, que era a Sra. Rogers.
 Marston!  chamou Lombard.
Anthony correu a ajud-lo. Juntos, ergueram a mulher e trouxeram-na para a sala.
O Dr. Armstrong aproximou-se, rpido. Ajudou a coloc-la no sof e inclinou-se sobre ela.
 No  nada  disse logo.  Um simples desmaio. Daqui a pouco voltar a si.
 Arranje um pouco de conhaque  pediu Lombard a Rogers.
Com o rosto branco e as mos a tremer, o mordomo respondeu:
 Sim, senhor  e saiu rapidamente da sala.
Exclamou Vera:
 Que fala foi essa? Quem era ele? Parecia... parecia...
 Que est se passando aqui?  irrompeu o Gen. Macarthur.  Que espcie de brincadeira  essa?
Sua mo tremia. Vergavam-lhe os ombros. De repente, parecia dez anos mais velho.
Blore enxugava o rosto com um leno.
S o Juiz Wargrave e Miss Brent conservavam uma aparncia de relativa calma. Emily Brent 
continuava tesa na sua cadeira, a cabea erguida. Em ambas as suas faces havia uma pequena mancha 
de vermelho vivo. O juiz mantinha a sua postura habitual, com a cabea afundada nos ombros, cocando 
suavemente uma orelha. S os seus olhos estavam ativos, revolvendo a pea em todos os sentidos, 
intrigados e sagazes.
Mais uma vez, foi Lombard o primeiro a agir. Entregue a mulher desfalecida aos cuidados de 
Armstrong, ficou livre para tomar a iniciativa.
 Essa voz?  disse ele.  Dava a impresso de que saa daqui mesmo.
 Quem foi? Quem foi?  gritou Vera.  No foi nenhum de ns.
Como os do juiz, os olhos de Lombard percorreram lentamente toda a sala. Pousaram-se um instante 
na porta aberta para o terrao, mas por fim Lombard sacudiu decididamente a cabea. De sbito os seus 
olhos iluminaram-se. Caminhou a passos rpidos para uma porta que ficava junto da lareira e comunicava 
com uma pea contgua.
Com um gesto vivo, apanhou o trinco e abriu a porta de chofre. Entrou, e imediatamente soltou uma 
exclamao satisfeita:
 Ah! Aqui est.
Os outros precipitaram-se para a pea ao lado. S Miss Brent ficou onde estava, muito rgida na sua 
cadeira.
Uma mesa tinha sido colocada junto da parede de separao com a sala. Sobre essa mesa havia um 
gramofone de modelo antigo, com uma enorme trombeta, cuja boca estava encostada  parede. Lombard 
afastou o aparelho e indicou dois ou trs pequenos buracos que tinham sido abertos discretamente na 
parede.
Deu corda ao gramofone, fez voltar a agulha ao comeo do disco, e imediatamente tornaram a ouvir: 
"Sois acusados dos seguintes crimes"
 Desligue isso!  gritou Vera.  Desligue isso!  horrvel!
Lombard obedeceu.
Com um suspiro de alvio, o Dr. Armstrong observou:
 Uma brincadeira indecorosa e desalmada, diria eu. A vozinha clara do Juiz Wargrave murmurou:
 Ento pensa que se trata de uma brincadeira? O doutor olhou admirado para ele.
 Que mais poderia ser?
O juiz passou um dedo de leve pelo lbio superior.
 De momento, no estou preparado para dar uma opinio.
Anthony Marston interps-se, dizendo:
 Mas escutem, parece que esto esquecendo uma coisa. Quem diabo botou esse disco a rodar?
 Sim, acho que devemos investigar isso  murmurou Wargrave.
Voltou  sala, seguido pelos outros. Rogers acabava de entrar com um copo de conhaque. Miss Brent 
estava curvada sobre a figura gemebunda da Sra. Rogers.
Rogers insinuou-se jeitosamente entre as duas mulheres.
 Permita-me, senhora, eu falarei com ela, Ethel... Ethel... Est tudo bem. Tudo bem, ouviu? 
Reanime-se.
A Sra. Rogers respirava convulsivamente. Seus olhos, arregalados e cheios de medo, percorriam e 
tornavam a percorrer o crculo de rostos que se formara em torno dela. A voz de Rogers era premente.
 Domine-se, Ethel.
O Dr. Armstrong falou-lhe em tom macio:
 J est ficando boa, Sra. Rogers. Foi o choque, apenas.
 Eu desmaiei, senhor?  perguntou ela.
 Sim.
 Foi a voz... essa voz medonha... como um julgamento...
O rosto da mulher esverdinhou-se novamente, suas plpebras caram.
 Onde est este conhaque?  perguntou rpido o Dr. Armstrong.
Rogers colocara-o em cima de uma mesinha. Algum passou-o ao mdico e este inclinou-se sobre a 
mulher que arfava.
 Beba isto, Sra. Rogers.
Ela bebeu, engasgando-se um pouco. A aguardente reanimou-a. Voltou-lhe a cor s faces.
 Estou bem agora  disse.  Foi apenas... o susto.
  muito natural  apressou-se a dizer Rogers.  Eu
tambm me assustei. At deixei cair a bandeja. Mentiras perversas,  o que eram! Eu gostaria de 
saber...
Rogers foi interrompido: uma simples tosse, uma tossezinha seca, que, no entanto, f-lo estacar 
bruscamente no meio da frase. O mordomo olhou para o Juiz Wargrave e este voltou a tossir. Depois disse:
 Quem ps esse disco no gramofone? Foi voc, Rogers?
 Eu no sabia o que era  exclamou o criado.  Juro por Deus que no sabia o que era, senhor. 
Se soubesse, nunca teria feito isso.
O juiz replicou, seco:
 Isso  provavelmente verdade, mas convm explicar, Rogers.
O mordomo enxugou o rosto com um leno e disse, aflito:
 Eu estava apenas obedecendo ordens, senhor. '
 Ordens de quem?
 Do Sr. Owen.
 Vamos esclarecer isto  disse o Juiz Wargrave.  Quais eram exatamente as ordens do Sr. 
Owen?
 Eram para eu colocar um disco no gramofone. O disco estava na gaveta, e minha mulher devia fazer 
funcionar o gramofone quando eu entrasse na sala com a bandeja do caf.
 Muito interessante isto  murmurou o juiz.
  a pura verdade, senhor  exclamou Rogers.  Juro por Deus que  a verdade. Eu no sabia o 
que era... no fazia a menor idia. Tinha um nome no disco... Pensei que fosse alguma msica.
Wargrave virou-se para Lombard.
 O disco tem um ttulo?
Lombard fez sinal que sim. Sorriu de repente, mostrando os dentes brancos e aguados.
 Perfeitamente, senhor. O disco chama-se O Canto do Cisne...

III

O General Macarthur irrompeu de sbito:
Isto  intolervel... intolervel! Lanar acusaes dessa espcie! Alguma coisa deve ser feita. Esse tal 
de Owen, seja l quem for...
Emily Brent interrompeu-o dizendo com fora:
 Justamente: quem  ele?
O juiz interps-se. Falou com autoridade que lhe dava uma existncia passada nos tribunais:
  isso exatamente o que devemos investigar, e com muito cuidado. Sugiro que, antes de mais 
nada, voc leve sua mulher para a cama, Rogers. Depois volte aqui.
 Muito bem, senhor.
 Eu o ajudarei, Rogers  disse o Dr. Armstrong. Apoiada nos dois homens, a Sra. Rogers saiu 
tropegamente da sala. Depois que eles desapareceram, Tony Marston disse:
 Quanto ao senhor, no sei, mas a mim no me desagradaria tomar um drinque.
 De acordo  disse Lombard.
 Vou ver onde fica o bar  tornou Marston. Saiu da sala e voltou instantes depois.
 Encontrei tudo numa bandeja, pronto para ser servido. O rapaz depositou cuidadosamente a sua 
carga. Os dois minutos seguintes foram passados em distribuir as bebidas. O Gen. Macarthur serviu-se de 
uma respeitvel dose de usque, e o mesmo fez o juiz. Todos sentiam necessidade de um estimulante. S 
Emily Brent pediu e obteve um copo d'gua. O Dr. Armstrong voltou  sala.
 Est bem  anunciou.  Dei-lhe um sedativo para tomar. Que  isto, drinques? Aceito um.
Alguns dos homens tornaram a encher os seus copos. Momentos depois reapareceu Rogers.
O Juiz Wargrave assumiu a presidncia. A sala transformou-se num tribunal improvisado.
 Vejamos, pois, Rogers  disse o magistrado.  Temos de examinar isto a fundo. Quem  esse 
Sr. Owen?
Rogers olhou-o com espanto.
  o dono da casa, senhor.
 Disso sei eu. O que desejo ouvir  o que voc sabe a respeito desse homem.
Rogers abanou a cabea.
 No posso responder-lhe, senhor. Nunca o vi pessoalmente.
Houve um ligeiro murmrio na sala.
 Nunca o viu?  interveio o Gen. Macarthur.  Que quer dizer corri isso?
 No faz ainda uma semana que estamos aqui, senhor,
minha mulher e eu. Fomos contratados por carta, atravs de uma agncia de empregos. A Regina 
Agency, de Plymouth.
Blore aprovou com a cabea.
 Firma muito antiga  informou.
 Tem essa carta consigo?  prosseguiu o juiz.
 A carta que nos d o emprego? No, senhor, no a guardei.
 Continue a sua histria. Dizia, pois, que foi contratado
por carta.
 Sim, senhor. Devamos chegar aqui num dia determinado. Assim fizemos. Tudo estava em ordem 
aqui. A despensa repleta e tudo muito bem arranjado. S foi preciso limpar o p e o mais que segue.
 E depois?
 Depois, nada, senhor. Recebemos ordens  tambm por carta  de preparar os quartos para uma 
recepo de hspedes. E ontem, pelo correio da tarde, recebi outra carta do Sr. Owen. Dizia que ele e a 
Sra. Owen eram forados a adiar a vinda e nos mandava fazer o melhor que pudssemos. Continha tambm 
as instrues sobre o jantar, o caf e o gramofone.
 Com certeza ainda tem essa carta?  disse vivamente o juiz.
 Tenho, senhor. Est aqui. Tirou-a do bolso e entregou-a ao juiz.
 Hum!  fez este.  Tem o timbre do Ritz Hotel e foi escrita  mquina.
Rpido, Blore foi colocar-se ao seu lado.
 Se o senhor me d licena, vou dar uma olhada. Arrancou-a das mos do outro e correu os olhos 
por ela.
 Mquina Coronation  murmurou.  Completamente nova... sem defeitos. Papel Ensign, o mais 
usado de todos. Daqui no sair nada. Pode ser que tenha impresses digitais, mas duvido.
Wargrave olhou para ele com um repentino movimento de ateno.
Anthony Marston postara-se ao lado de Blore e lia por cima do ombro deste.
 Os nomes de batismo so pouco comuns, no?  observou.  Ulick Norman Owen. Como  
sonoro!
Com um leve estremeo, disse o velho juiz:
 Estou-lhe agradecido, Sr. Marston. Chamou-me a ateno para um ponto curioso e sugestivo.
Olhou para os outros em redor de si e, avanando o pescoo como uma tartaruga, enraivecido, disse:
 Creio que chegou o momento de repartirmos uns com os outros tudo que sabemos. Seria bom que 
cada um de ns comunicasse as informaes que possa ter com referncia ao dono desta casa.  Fez 
uma pausa e depois acrescentou:  Somos todos seus hspedes. Penso que lucraramos bastante se 
cada um de ns explicasse exatamente como isso veio a acontecer.
Seguiu-se um breve silncio, e em seguida Emily Brent falou com deciso:
 H alguma coisa de muito singular em tudo isto. Recebi uma carta com uma assinatura pouco 
legvel. Dizia provir de uma senhora que encontrei em certo lugar de veraneio, dois ou trs anos atrs. 
Supus que o nome fosse Ogden ou Oliver. Conheo uma Sra. Oliver, e tambm uma Srta. Ogden, mas 
tenho plena certeza de que nunca encontrei ou fiz amizade com uma pessoa chamada Owen.
 Tem consigo essa carta, Miss Brent?  perguntou o juiz.
 Sim, tenho. Vou busc-la para o senhor ver.
Saiu da sala e um minuto mais tarde voltou com a carta. O juiz leu-a e disse:
 Estou comeando a compreender... Miss Claythorne? Vera explicou as circunstncias em que fora 
contratada
como secretria.
 Marston?  disse o juiz. Anthony respondeu:
 Recebi um telegrama. De um camarada meu, Badger Berkeley. Fiquei um pouco surpreso, pois 
imaginava que esse cavalo andasse pela Noruega. Dizia-me que desse uma chispada at aqui.
Wargrave anuiu com a cabea.
 Dr. Armstrong?
 Fui chamado profissionalmente.
 Percebo. No conhecia anteriormente a famlia?
 No. A carta mencionava um colega meu.
 Para dar verossimilhana...  disse o juiz.  Sim; e presumo que esse colega esteja 
presentemente fora de contato com o senhor?
 Bem... h...  verdade.
Lombard, que tinha os olhos fixos em Blore, disse bruscamente:
 Escute, acabo de me lembrar que...
O juiz ergueu a mo.  Espere um pouco...
 Mas eu...
 Trataremos de cada coisa por sua vez, Sr. Lombard. Por ora estamos indagando das causas pelas 
quais nos achamos todos reunidos aqui esta noite. Gen. Macarthur?
O general deu um puxo ao bigode e resmungou:
 Recebi uma carta desse tal Owen, mencionando velhos camaradas meus -que se encontrariam 
aqui... Pedia desculpas pela forma irregular do convite. Infelizmente no guardei a carta.
 Sr. Lombard?  disse Wargrave.
 A mesma coisa. Convite, referncia a amigos comuns... Fui na onda. Rasguei a carta.
O Juiz Wargrave voltou sua ateno para o Sr. Blore. Afagou o lbio superior com o ndex e falou num 
tom perigosamente polido:
 Acabamos de passar por uma experincia um tanto perturbadora. Uma voz aparentemente 
desencarnada dirigiu-se a cada um de ns pelo nome e articulou acusaes precisas contra todos ns. 
Daqui a pouco trataremos dessas acusaes. De momento, estou interessado num pequeno detalhe. Entre 
os nomes enunciados estava o de William Henry Blore. Mas, que saibamos, no h entre ns ningum 
chamado Blore. Por outro lado, no se mencionou o nome Davis. Que tem a dizer sobre isto, Sr. Davis?
Blore respondeu, casmurro:
 Pelo jeito, fui desmascarado. Suponho ser melhor admitir que meu nome no  Davis.
 O senhor  William Henry Blore?
 Exatamente.
 Acrescentarei alguma coisa  disse Lombard.  O Sr. Blore no apenas est aqui sob um nome 
falso, mas conforme notei esta noite,  um mentiroso de primeira. Pretende ter vindo de Natal, na frica do 
Sul. Conheo a frica do Sul e Natal, e estou pronto a jurar que nunca em sua vida o senhor ps os ps 
naquele pas.
Todos os olhos se fixaram em Blore  olhos irados e suspicazes. Anthony Marston avanou um 
passo na direo dele, cerrando os punhos.
 E agora, seu cafajeste? Tem alguma explicao? Blore atirou a cabea para trs, levantando o 
queixo quadrado.
 Os senhores esto enganados comigo. Tenho aqui as minhas credenciais e posso mostrar-lhas. 
Sou um ex-funcionrio da Scotland Yard. Tenho uma agncia de investigaes em Plymouth e fui 
contratado para este trabalho.
 Por quem?  perguntou o Juiz Wargrave.
 Por esse tal Owen. Juntou um tentador vale postal e deu-me instrues para fazer o que ele 
desejava. Eu devia fazer parte do grupo, disfarado como um dos hspedes. Recebi os nomes de todos os 
senhores e fui encarregado de vigiar a todos.
 A carta apontava alguma razo para isso? Blore respondeu com amargura:
 As jias da Sra. Owen! S mesmo a Sra. Owen... No acredito que exista tal pessoa.
Novamente o indicador do juiz afagou o lbio, desta vez com certa deferncia para com o interrogado.
 Creio que as suas concluses so justificadas  disse ele.  Ulick Norman Owen! Na carta 
dirigida a Miss Brent, embora a assinatura do sobrenome seja uma simples garatuja, os nomes de batismo 
esto razoavelmente claros. Una Nancy. Notem que as iniciais so as mesmas em ambos os casos. Ulick 
Norman Owen... Una Nancy Owen... Isto , sempre U. N. Owen. Ora, com um pouco de imaginao, 
temos: UNKNOWN!
 Desconhecido!  exclamou Vera.  Mas isto  fantstico...  doido!
O juiz sacudiu vagarosamente a cabea e disse:
 Oh! sim. No abrigo a menor dvida de que fomos convidados a esta casa por um louco... 
provavelmente, um perigoso louco homicida.







CAPITULO IV

I

Houve um momento de silncio  um silncio de pasmo e consternao. Depois, fez-se ouvir mais 
uma vez a vozinha clara do magistrado:
 Passaremos agora  fase seguinte da nossa investigao. Mas primeiro quero acrescentar  lista 
as minhas prprias credenciais.
Tirou uma carta do bolso e atirou-a sobre a mesa.
 Isto pretende vir de uma velha amiga minha, Lady Constance Culmington. Faz alguns anos que no 
a vejo. Lady Constance tinha ido para o Levante.  uma carta vaga e incoerente, tal qual as que ela 
costuma escrever, e insta comigo para que venha encontrar-me com ela aqui, referindo-se nos termos mais 
vagos ao casal que a hospedava. Observem que se trata da mesma tcnica. S menciono esse fato porque 
combina com as outras provas e depoimentos  surgindo de umas e de outros um ponto interessante. 
Quem quer que nos tenha atrado para c, essa pessoa conhece ou se deu ao trabalho de averiguar 
bastante coisa a nosso respeito. Ele, seja quem for, est a par de minha amizade com Lady Constance e 
conhece-lhe muito bem o estilo epistolar. Sabe alguma coisa sobre os colegas do Dr. Armstrong e seus 
atuais paradeiros. Conhece o apelido do amigo.do Sr. Marston e o tipo de telegramas que costuma 
remeter. Sabe exatamente onde veraneou Miss Brent h dois anos e a classe de pessoas que l 
encontrou. Est muito bem informado sobre s velhos camaradas do Gen. Macarthur.
E, depois de fazer uma pausa, o juiz concluiu:
 Ele sabe, como vem, bastante coisa. E, baseando-se nesses conhecimentos, fez certas 
acusaes muito definidas.
Imediatamente todos comearam a falar ao mesmo tempo, uma verdadeira babel.
O Gen. Macarthur bradou:
 Um monto de mentiras! Calnias! Vera gritou, com a respirao arfante:
 E inquo! Perverso! Rogers disse em voz rouca:
 Uma mentira... uma infame mentira... Nunca fizemos... nenhum de ns.
Anthony Marston rosnou:
 No sei o que pretendia esse cretino!
A mo erguida do Juiz Wargrave acalmou o tumulto.
 Desejo esclarecer o seguinte  disse, escolhendo cuidadosamente as palavras:  O nosso 
desconhecido amigo acusa-me da morte de um homem chamado Edward Seton. Lembro-me de Seton 
perfeitamente bem. Presidi ao tribunal que o julgou em junho de 1930. Era acusado de ter assassinado uma 
velha. Tinha um excelente advogado de defesa e causou boa impresso nos jurados ao ser interrogado no 
banco das testemunhas. Contudo, as provas contra ele eram concludentes. Fiz o sumrio de acordo com 
essas provas, e o conselho de sentena declarou-o culpado. A defesa recorreu, alegando m orientao no 
julgamento. O recurso foi negado e o homem devidamente executado. Quero declarar diante de todos os 
presentes que tenho a conscincia absolutamente tranqila no tocante a esse caso. Cumpri o meu dever e 
nada mais. Lavrei sentena contra um homicida legitimamente condenado.
Armstrong lembrava, agora. O caso Seton! O veredito fora uma grande surpresa. Certa noite, por 
ocasio do processo, encontrara Matthews, consultor da Coroa, a jantar num restaurante. Matthews 
mostrara-se otimista. "No h dvidas quanto ao veredito. A absolvio  praticamente certa". Mais tarde, 
Armstrong ouvira comentrios: "O juiz foi cem por cento contra ele. Virou a cabea dos jurados e ele foi 
condenado. Mas tudo perfeitamente legal. O velho Wargrave conhece a Lei. Deu a impresso de que ele 
tivesse algum motivo de dio contra o sujeito".
Todas essas recordaes passaram cleres pela mente do doutor. Antes que pudesse considerar o 
bom senso da indagao, perguntou impulsivamente:
 O senhor conhecia Seton? Antes do processo, quero dizer.
Os olhos reptilianos do magistrado, quase encobertos, encontraram-se com os do mdico. Numa voz 
clara e fria respondeu:
 Eu nada sabia de Seton antes do processo.
Armstrong disse de si para si:
"Esse sujeito est mentindo... Sei que ele est mentindo!".

II

Vera Claythorne falou com voz trmula:
 Eu gostaria de lhes explicar a respeito dessa criana... Cyril Hamilton. Era a sua governanta. Ele 
estava proibido de nadar at muito longe. Um dia, quando eu tinha a ateno distrada, ele se distanciou. 
Nadei atrs dele... No pude chegar a tempo... Foi horrvel!... Mas no foi culpa minha. No inqurito judicial, 
o "Coroner" exonerou-me de toda responsabilidade. E a me do menino... Foi to bondosa! Se nem ela me 
censurou, por que tenho de ouvir agora essas terrveis palavras? No  justo... no  justo...
A moa no pde mais continuar. Desatou a chorar amargamente.
O Gen. Macarthur deu-lhe uma palmadinha no ombro, dizendo:
 Vamos, vamos, minha querida. Est claro que no  verdade. O sujeito  um louco. Louco! Tem 
dez parafusos de menos. Est metendo os ps pelas mos.
O general empertigou-se, quadrando os ombros, e vociferou:
 O melhor seria deixar essa coisa sem resposta nenhuma. Contudo, acho que devo dizer: no h 
nada de verdade... absolutamente nada de verdadeiro no que ele diz sobre... h... sobre o jovem Arthur 
Richmond. Richmond era um dos meus oficiais. Enviei-o numa misso de reconhecimento. Foi morto. 
Coisa natural na guerra. Desejo dizer que muitssimo me ofende essa... imputao  honra de minha 
esposa. A melhor criatura do mundo. Absolutamente. A mulher de Csar!
Sentou-se e cofiou o bigode com a mo trmula. O esforo que fizera para falar deixara-o muito 
abalado.
Lombard tomou a palavra. Seus olhos brilhavam maliciosamente.
 A respeito desses nativos...
 Sim, que diz sobre eles?  atalhou Marston. Philip Lombard sorriu.
 A histria  perfeitamente verdadeira. Abandonei os pobres diabos. Instinto de conservao. 
Estvamos perdidos no mato. Eu e mais um par de sujeitos apanhamos todos os alimentos que havia e 
nos raspamos.
O Gen. Macarthur interpelou-o severamente:
 O senhor abandonou os seus homens?... Deixou-os morrer de fome?
 Receio que no seja um gesto muito nobre  disse Lombard , mas a autoconservao  o 
primeiro dever de um homem. E, como sabe, os nativos no se importam de morrer. Eles no pensam 
como os europeus a esse respeito.
Vera retirou as mos do rosto e disse, encarando-o:
 O senhor deixou que eles... morressem? Lombard respondeu:
 Deixei que morressem.
Seus olhos irnicos fitavam os olhos horrorizados da moa. Anthony Marston disse numa voz lenta e 
intrigada:
 Estava pensando agora... John e Lucy Combes. Deve ser um casal de garotos que ficaram embaixo 
do meu carro, perto de Cambridge. Um azar do diabo.
O Juiz Wargrave observou acidamente:
 Para eles, ou para o senhor?
 Bem, eu estava pensando que para mim... mas o senhor tem razo,  claro, foi um grande azar 
para eles. Um acidente imprevisvel. Saram correndo de uma casa qualquer... Cassaram-me a licena por 
um ano. Uma incomodao dos diabos.
O Dr. Armstrong comentou com veemncia:
 Essa mania de correr  errada, completamente errada! Os rapazes como o senhor so um perigo 
para a comunidade.
Anthony deu de ombros e disse:
 Estamos na era da velocidade, no adianta querer
mandar contra. As estradas inglesas so um caso perdido,  claro. No se pode fazer uma mdia 
decente.
Olhou vagamente em redor de si,  procura do seu copo, apanhou-o de sobre uma mesa e concluiu 
sem se voltar:
 Bem, afinal de contas a culpa no foi minha. Um acidente imprevisvel!

III

O criado, Rogers, tinha estado a umedecer os lbios e a torcer as mos. Aproveitou o silncio para 
perguntar, numa voz baixa e respeitosa:
 Posso dizer uma palavra, senhor?
 Fale, Rogers  volveu Lombard.
Rogers pigarreou e passou mais uma vez a lngua pelos lbios secos.
 Mencionaram, senhor, a minha pessoa e a da Sra. Rogers. E Miss Brady. No h nisso uma s 
palavra de verdade, senhor. Minha mulher e eu estivemos com Miss Brady at que ela faleceu. Era uma 
senhora muito doente, senhor, sempre esteve doente desde que comeamos a trabalhar em casa dela. 
Naquela noite havia uma tormenta, senhor... na noite em que ela piorou. O telefone estava desarranjado. 
No podamos chamar o doutor. Fui busc-lo, senhor, a p. Mas quando chegou era tarde. Tnhamos feito 
tudo que era possvel por ela, senhor. Devotados a ela, isso ramos. Qualquer pessoa lhe dir o mesmo. 
Ningum nunca disse uma palavra contra ns. Nenhuma palavra.
Lombard olhou pensativamente para a face do homem, toda repuxada por tiques, para os seus lbios 
secos, os seus olhos assustados. Lembrou-se da queda da bandeja de caf e pensou, mas no disse: "Ah! 
?".
Blore falou ento, no tom cordial e intimidador do seu
ofcio:
 Apesar disso receberam o seu pouquinho com a morte da patroa, hem?
Rogers endireitou o corpo e respondeu rigidamente:
 Miss Brady nos deixou um legado em reconhecimento aos nossos fiis servios. E por que no, 
gostaria de saber?
 E a seu respeito, Sr. Blore?  perguntou Lombard.
 A meu respeito?
 O seu nome estava includo na lista. Blore corou at a raiz dos cabelos.
 Refere-se a Landor? Isso foi quando assaltaram o banco... London and Commercial.
O Juiz Wargrave fez um movimento.
 Lembro-me disso. O caso no foi julgado por mim, mas eu me lembro. Landor foi condenado em 
virtude do seu depoimento. O senhor foi o funcionrio de polcia encarregado das investigaes?
 Fui.
 Landor foi condenado a trabalhos forados perptuos e morreu em Dartmoor um ano mais tarde. 
Era um homem de sade delicada.
 Era um ladro  disse Blore.  Foi ele quem atacou o vigia noturno. As provas contra ele eram 
bem claras.
Wargrave falou pausadamente:
 O senhor foi elogiado, segundo creio, pela competncia com que tratou do caso.
 Fui promovido  falou Blore, carrancudo. E acrescentou numa voz indistinta:
 Estava apenas cumprindo o meu dever.
De repente, Lombard soltou uma sonora risada.
 Ao que parece, somos todos uns verdadeiros esteios da Lei! Com exceo da minha pessoa. E 
quanto ao doutor, com o seu pequeno engano profissional? Operao ilcita, no?
Emily Brent olhou para ele com marcada averso e afastou-se um pouco.
O Dr. Armstrong, muito senhor de si, sacudiu bem-humoradamente a cabea.
 No consigo entender isso. O nome nada me disse quando foi mencionado. Como era mesmo... 
Clee? Close? Realmente no me lembro de ter tido um cliente com esse nome ou mesmo de ter tido um 
caso fatal na minha clnica.
\A acusao  um mistrio completo para mim. Mas  verdade que j faz muito tempo. Talvez tivesse 
sido uma de minhas operaes no hospital. Grande parte dessa gente s recorre ao cirurgio quando j  
demasiado tarde. E depois, quando o paciente morre, lanam a culpa nele.
Suspirou, abanando a cabea.
L consigo, pensava:

"Bbado, isso  que foi... bbado... E operei nesse estado! Os nervos descontrolados... as mos a 
tremer. Matei-a, no h a menor dvida. Pobre diabo... uma mulher de idade... coisa simples, se eu tivesse 
domnio de mim mesmo. A minha sorte foi haver lealdade na nossa profisso. A freira sabia,  claro... mas 
calou a boca. Bom Deus, foi um grande abalo para mim! Corrigiu-me. Mas quem poderia ter sabido disso... 
depois de tantos anos?"

IV

Houve um silncio na sala. Todos olhavam, direta ou discretamente, para Emily Brent. Decorreram um 
ou dois minutos antes que ela se desse conta dessa expectativa. Suas sobrancelhas subiram pela testa 
estreita.
 Esto  espera de que eu diga alguma coisa?  perguntou.  Nada tenho para dizer.
 Nada, Miss Brent?  volveu o juiz.
 Nada.
E comprimiu os lbios com fora.
O juiz acariciou o rosto e disse numa voz suave:
 Reserva para mais tarde a sua defesa?
 No estou cogitando de defender-me  respondeu friamente Miss Brent.  Sempre agi de acordo 
com os ditames de minha conscincia. Nada tenho a reprovar.
Pairava no ar um sentimento de insatisfao, mas Emily Brent no era pessoa que se deixasse 
governar pela opinio dos outros. Permaneceu irredutvel.
O juiz pigarreou uma ou duas vezes, depois falou:
 Est encerrada a inquirio. Agora, Rogers, diga-me: quem mais se encontra nesta ilha, alm de 
ns, sua esposa e voc?
 Ningum, senhor. Absolutamente ningum.
 Est certo disso?
 Inteiramente, senhor.
Wargrave prosseguiu:
 Ainda no posso fazer uma idia clara sobre qual seja o propsito de nosso desconhecido anfitrio 
em reunir-nos aqui. Mas, a meu ver, essa pessoa, seja ela quem for, no  s do juzo no sentido comum 
da expresso. Talvez seja perigosa. Creio que seria bom deixarmos este lugar o mais depressa possvel. 
Sugiro que voltemos nesta mesma noite.
 Desculpe-me, senhor, mas no h nenhum barco na ilha  disse Rogers.
 Nenhum barco?
 No, senhor.
 Mas como  que se comunica com a terra firme?
 Fred Narracott vem todas as manhs, senhor. Traz o po, o leite e a correspondncia, e recebe 
ordens.
O Juiz Wargrave continuou:
 Ento, segundo penso, convm que partamos todos pela manh, assim que chegar a lancha de 
Narracott.
Houve um coro de vozes favorveis, apenas com uma discordante. Era Anthony Marston que dissentia 
dos demais.
 Isso me parece falta de esprito esportivo. Devamos deslindar o mistrio antes de ir embora.  tal 
qual uma histria de detetive. Positivamente sensacional.
O juiz retrucou acidamente:
 Na idade a qual cheguei no tenho o menor interesse por "sensaes", como o senhor as chama.
Anthony sorriu.
 A vida legal estreita os horizontes! Sou francamente pelo crime!  sade do crime!
Apanhou o seu copo e bebeu-o de um gole.
Talvez o tivesse feito demasiado depressa, pois engasgou-se... engasgou-se seriamente. Seu rosto 
contorceu-se e ficou roxo. Fez um esforo convulsivo para respirar, depois rolou da cadeira, deixando cair o 
copo.


CAPITULO V

I

Foi uma coisa to sbita e inesperada que estarreceu a todos. Ficaram olhando apatetados para a 
figura cada no cho.
Ento o Dr. Armstrong levantou-se de um salto e aproximou-se de Marston, ajoelhando ao lado dele. 
Quando tornou a erguer a cabea, seus olhos tinham uma expresso atnita.
 Meu Deus! Est morto!  disse um murmrio aterrado.
Os outros no compreenderam logo.
Morto? Morto? Aquele jovem deus nrdico, no vigor da sade e da fora... derribado num s instante? 
Rapazes saudveis no morrem assim, engasgando-se com uma dose de usque e soda...
No podiam entender isso, no.
O Dr. Armstrong estudava o rosto do morto. Farejou os lbios roxos e contorcidos, depois apanhou o 
copo em que Marston bebera.
 Morto?  disse o Gen. Macarthur.  Quer dizer que o camarada simplesmente se engasgou e... 
morreu?
 Pode chamar isto de engasgamento, se quiser  respondeu o mdico.  Ele morreu de asfixia, 
sem a menor duvida.
Estava agora a cheirar o copo. Molhou o dedo na borra do fundo e, com a mxima cautela, tocou 
levemente no dedo com a ponta da lngua.
Demudou-se a expresso do seu rosto.
 Nunca ouvi dizer que um homem morresse desse jeito... engasgando-se, sem mais nem menos! 
disse o Gen. Macarthur.
Emily Brent interps numa voz clara:
 "Em plena vida nos achamos na morte."
O Dr. Armstrong ergueu-se e falou bruscamente:
 No, um homem no morre de simples engasgamento. A morte de Marston no foi o que 
chamamos uma morte natural.
 Havia... alguma coisa... no usque?  perguntou Vera quase num sopro.
Armstrong sacudiu a cabea.
 Sim. No posso dizer exatamente o que . Tudo indica um dos cianetos. No h cheiro 
caracterstico do cido prssico. Provavelmente cianeto de potssio. Tem ao mais ou menos 
instantnea.
 Estava no copo dele?  perguntou vivamente o juiz.
 Estava.
O doutor caminhou at a mesa onde se achavam as bebidas. Tirou a rolha da garrafa de usque, 
cheirou-a e provou-a. Depois provou a gua de soda. Abanou a cabea.
 No tm nada.
 Quer dizer, ento que... ele prprio ps o veneno no seu copo?  perguntou Lombard.
Armstrong fez um gesto afirmativo, com um ar curiosamente insatisfeito, e disse:
  o que parece.
 Suicdio, hem?  interveio Blore.  Coisa bem esquisita.
Vera falou lentamente:
 Ningum pensaria que ele quisesse matar-se. Tinha tanta vida! Era... oh!... um homem feliz. 
Quando desceu a ladeira no seu carro, esta tarde, parecia... parecia... oh! no posso explicar.
Mas os outros sabiam o que ela queria dizer. Anthony Marston, no vigor da sua juventude e virilidade, 
parecera um ser imortal. E agora jazia ali no assoalho, derribado e dobrado em dois.
 H alguma outra possibilidade alm do suicdio?  perguntou o Dr. Armstrong.
Lentamente, todos abanaram a cabea. No podia haver outra explicao. As bebidas estavam 
intatas. Todos tinham
visto Anthony Marston caminhar para a mesa e servir-se. Se havia, pois, cianeto na bebida, devia ter 
sido posto ali pelo prprio Anthony.
E contudo... que motivo podia ter ele para suicidar-se?
 Olhe, doutor, isso no me parece certo  disse Blore, pensativo.  Eu no diria que o Sr. Marston 
fosse um tipo suicida.
 Concordo  respondeu Armstrong.

II

Tinham deixado as coisas nesse p. Que mais havia a dizer?
Juntos, Armstrong e Lombard tinham carregado o corpo inerte de Anthony Marston para o seu quarto, 
deitando-o e cobrindo-o com um lenol.
Quando tornaram a descer, os outros estavam reunidos em grupo, um tanto arrepiados, embora a 
noite no estivesse fria.
  melhor irmos para a cama. J  tarde  disse Emily Brent.
Passava de meia-noite. A sugesto era ajuizada... no entanto, todos hesitaram. Era como se eles se 
apegassem  companhia uns dos outros, em busca de segurana.
 Sim  disse o juiz  devemos dormir um pouco. Rogers:
 Ainda no tirei a mesa, senhor. Lombard, laconicamente:
 Tire de manh. Armstrong:
 Sua mulher est bem? Rogers:
 Vou ver, senhor.
O mordomo saiu e voltou um ou dois minutos mais tarde.
 Dorme que  uma beleza.
 timo  disse o doutor.  No a perturbe.
 No, senhor. S vou arrumar as coisas na sala de jantar e ver se tudo est bem fechado, depois me 
deito.
Rogers atravessou o hall, dirigindo-se para a sala de jantar.
Os outros subiram a escada, numa vagarosa e relutante procisso.
Se aquela fosse uma casa antiga, com o madeirame a estalar, desvos escuros e paredes revestidas 
de pesados lambris, talvez se pudesse dizer que o ambiente lgubre pesava sobre eles. Mas a vivenda era 
a essncia do modernismo. No havia recantos sombrios, nem a possibilidade de painis corredios; era 
inundada de luz eltrica... tudo novo, limpo e brilhante. No havia nada escondido ali. A casa no possua 
atmosfera prpria.
De certo modo, isso era o mais assustador de tudo...
Os hspedes desejaram-se boa noite no patamar. Cada um se dirigiu para o seu quarto e todos, 
maquinalmente, quase sem ter conscincia disso, chavearam as suas portas...

III

No seu aprazvel quarto, pintado em tons suaves, o Juiz Wargrave tirou a roupa e preparou-se para 
deitar.
Pensava em Edward Seton.
Lembrava-se muito bem dele. Louro, olhos azuis, com o hbito de olhar as pessoas de frente com um 
cativante ar de franqueza. Fora isso que causara to boa impresso nos jurados.
Llewellyn, o promotor, fizera um mau trabalho. Fora demasiado veemente, tentara provar demais.
Por outro lado, Matthews, o advogado de defesa, conduzira-se de modo brilhante. Seus argumentos 
pesaram. Seus interrogatrios tinham sido terrveis. A maneira de inquirir o seu constituinte no banco das 
testemunhas fora simplesmente magistral.
E Seton portara-se muito bem no interrogatrio. No se exaltara nem fora muito veemente. O jri ficara 
bem impressionado. Talvez parecesse a Matthews que a partida estava ganha.
O juiz deu cuidadosamente corda ao relgio e colocou-o  cabeceira da cama.
Lembrava-se perfeitamente do que sentira na presidncia do tribunal: ouvindo, tomando notas, 
avaliando tudo, coordenando os menores vestgios de provas contra o ru...
Havia gostado daquele caso! A perorao de Matthews fora de primeira ordem. Llewellyn, falando 
depois, no conseguira dissipar a boa impresso causada pelo advogado da defesa.
Depois, ento, veio o sumrio do juiz...
Cuidadosamente, Wargrave retirou a sua dentadura postia e colocou-a num copo com gua. Os 
lbios enrugados entraram boca adentro. Era, agora, uma boca cruel  cruel e voraz.
Tinha entornado completamente o caldo de Seton!
Com um ligeiro resmungo reumtico, subiu para a cama e apagou a luz eltrica.

IV

L embaixo, na sala de jantar, Rogers estacou intrigado.
Fitava as figurinhas de porcelana que se achavam no centro da mesa.
 Esquisito!  murmurou de si para si.  Teria jurado que eram dez.

V

O Gen. Macarthur virava-se de um lado para outro na cama.
No podia conciliar o sono.
Continuava a ver, no escuro, o rosto de Arthur Richmond.
Tinha gostado de Arthur... com a breca, havia estimado muitssimo o Arthur. E ficara satisfeito por ver 
que Leslie tambm simpatizava com ele.
Leslie era to caprichosa! Quantos bons sujeitos a quem ela torcia o nariz e declarava maantes! 
"Maantes!" Bem assim.
Contudo, no achara Arthur Richmond maante. Desde o comeo se haviam dado muito bem um com 
o outro. Conversavam sobre teatro, msica e pintura. Leslie troava dele, fazia-o de bobo, atormentava-o. E 
ele, Macarthur, sentia-se encantado com a idia de que a esposa tinha um interesse perfeitamente 
maternal pelo rapaz.
Maternal, hem! Grande asneira no se ter lembrado de que Richmond tinha vinte e oito anos, e Leslie, 
vinte e nove.
Amara Leslie. Ainda parecia v-la. O rosto em forma de corao, os olhos danantes, dum cinza 
profundo, os abundantes cabelos crespos e castanhos. Amara Leslie e depositara nela uma confiana 
absoluta.
L na Frana, em meio a todo aquele inferno, sentava-se a pensar nela, tirando o seu retrato do bolso 
superior da tnica.
E um dia... tinha descoberto!
Acontecera exatamente como nos livros. A carta no envelope errado. Ela escrevera a ambos e 
colocara a carta de Richmond no envelope do esposo. At agora, depois de tantos anos, podia sentir ainda 
o choque... a dor...
Bom Deus, como aquilo lhe doera!
E a ligao datava j de algum tempo. A carta deixava isso bem claro. Fins de semana! A ltima 
licena de Richmond...
Leslie... Leslie e Arthur!
Maldito sujeito! Para o diabo a sua cara sorridente, o seu solcito "Sim, senhor". Mentiroso e hipcrita! 
Ladro da mulher alheia!
Fora-se acumulando lentamente aquela fria raiva assassina.
Conseguira portar-se como sempre, sem nada deixar perceber. Procurara mostrar com Richmond a 
mesma atitude habitual.
Com xito? Acreditava que sim. Richmond no suspeitara de nada. As desigualdades de humor eram 
facilmente explicadas l nas trincheiras, onde os nervos dos homens estavam continuamente a explodir sob 
a tenso permanente.
Apenas o jovem Armitage olhara uma ou duas vezes para ele com uma expresso curiosa. Um menino 
ainda, mas muito perspicaz.
Talvez Armitage tivesse adivinhado... quando chegou a hora.
Ele, Macarthur, enviara Richmond deliberadamente para a morte. S um milagre poderia t-lo devolvido 
ileso. Esse milagre no aconteceu. Sim, enviara Richmond para a morte e no se arrependia disso. Tinha 
sido bastante fcil. Cometiam-se enganos a todo o instante, oficiais eram desnecessariamente mandados 
em misses de sacrifcio. Tudo era confuso, pnico. O que se podia dizer mais tarde era "O velho 
Macarthur perdeu um pouco a calma, cometeu alguns erros colossais, sacrificou alguns de seus melhores 
homens". Era o mximo que se poderia dizer.
Mas o jovem Armitage era bem diferente. Havia olhado para o seu comandante de modo bem singular. 
Sabia, talvez, que Richmond estava sendo mandado deliberadamente para a morte.
(Teria ele falado depois que a guerra terminou?)
Leslie no soubera de nada. Leslie chorara a morte do amante (supunha ele), mas seus prantos 
estavam acabados quando ele voltou para a Inglaterra. Macarthur nunca lhe disse que tinha descoberto 
tudo. Continuaram juntos... apenas de certo modo, ela j no dava a impresso de ser um vivente. E, trs 
ou quatro anos depois, tivera pneumonia dupla e morrera.
Isso tinha sido h muito tempo. Quinze... dezesseis anos?
E ele deixara o Exrcito e viera morar em Devon... Comprara a casinha que sempre desejara ter. Bons 
vizinhos... regio agradvel. Havia o que caar e pescar. Ia  igreja nos domingos. (Mas no no dia em que 
era lido o texto sobre Davi, quando mandou Urias para a frente de batalha. Por isso ou por aquilo, no podia 
ouvir essa passagem. Dava-lhe uma sensao de mal-estar.)
Todos se haviam mostrado muito amigos. Isto , a princpio. Mais tarde, comeou a ter a inquietante 
suspeita de que falavam dele pelas costas. Olhavam-no de um modo... diferente. Como se tivessem ouvido 
alguma coisa... algum boato mentiroso...
(Armitage? E se Armitage houvesse falado?)
Passara a evitar as pessoas, vivia metido consigo.  desagradvel sentir que se est sendo alvo de 
comentrios.
E tudo isso havia acontecido h tanto tempo! To... to fora de propsito agora! Leslie havia 
desaparecido nos longes do passado, e Richmond tambm. Nada do que sucedera parecia ter importncia 
agora.
No entanto, isso lhe fazia a vida muito solitria. Dera para fugir ao convvio de seus velhos amigos do 
Exrcito.
(Se Armitage falara, eles deviam saber de tudo.)
E agora  esta noite  uma voz misteriosa proclamara o seu segredo to cuidadosamente 
escondido.
Teria enfrentado a situao como devia? Mostrara-se firme, revelando os sentimentos que convinha  
indignao, asco  porm nada de culpa, nenhum embarao? Difcil dizer.
Seguramente, ningum podia ter levado a incriminao a serio. Fora lanado um monto de outras 
acusaes, igualmente malvolas e absurdas. Aquela encantadora moa  a voz a acusara de ter afogado 
uma criana! Idiotice! Coisa de maluco!
Nem Emily Brent escapara  uma sobrinha do velho Tom Brent, do Regimento. A voz culpara-a de 
assassnio! Qualquer pessoa podia ver, com um olho fechado, que a mulher era religiosa como ningum  
dessas que so unha e carne com os pastores.
Raio de coisa esquisita! Doida, simplesmente doida!
E desde que havia chegado ali... Quando fora isso? Com o demnio, tinha sido naquela mesma tarde! 
Parecia ter sido h muito mais tempo.
Quando poderemos ver esta ilha pelas costas? pensou.
Amanh, naturalmente, quando viesse a lancha.
Engraado, mas precisamente nesse instante ele no sentia grande desejo de sair da ilha... Voltar 
para a terra firme, para a sua casinha, enfrentar novamente todos os incmodos e ansiedades. Pela janela 
aberta, podia ouvir as ondas baterem contra os rochedos... agora um pouco mais alto do que ao cair da 
noite. O vento comeava a soprar mais forte, tambm.
"Som tranqilo... Lugar tranqilo...", pensou ele. "O que uma ilha tem de melhor  que quando se 
chega... no se pode ir mais longe... alcanou-se o fim das coisas."
De sbito, o general compreendeu que no desejava mais sair da ilha.

VI

Vera Claythorne jazia acordada na sua cama, a olhar para o teto.
A luz da cabeceira estava acesa..Vera tinha medo da escurido.
"Hugo... Hugo...", pensava. Por que te sinto to perto de mim esta noite?... Aqui bem perto...
"Mas onde estar ele? No sei. Nunca saberei. Foi simplesmente embora... para longe... desapareceu 
da minha vida."
No adiantava esforar-se por esquecer Hugo. Estava ali, junto dela. Tinha de pensar nele... de 
lembrar-se...
A Cornualha...
Os rochedos escuros, a areia amarela e macia. A Sra. Hamilton, gorducha, bem-humorada. Cyril, 
sempre a choramingar, a puxar-lhe da mo.
 Eu quero nadar at o penedo, Miss Claythorne. Por que no posso nadar at o penedo?
Alava os olhos... encontrava os olhos de Hugo a observ-la.
E  noite, depois de pr Cyril na cama...
 Vamos dar um passeio, Miss Claythorne?
 Acho que sim.
A recatada volta pela praia. O luar... o doce ar do Atlntico. E depois, os braos de Hugo que a 
cingiam contra si.
 Eu a amo. Eu a amo. Sabe que a amo, Vera? Sim, ela o sabia.
(Ou julgava saber.)
 No posso pedir-lhe que case comigo. No tenho um centavo. Mal posso sustentar-me. E 
engraado que uma vez, pelo espao de trs meses, tive a perspectiva de me tornar um homem rico. Cyril 
nasceu trs meses depois que Maurice morreu. Se tivesse nascido uma menina...
Se a criana fosse uma menina, Hugo teria herdado tudo. Ficara desapontado, admitia-o.
 No pusera nisso a minha esperana, naturalmente. Mas me causou um certo abalo. Bem, afinal, 
sorte  sorte! Cyril  um belo garoto. Gosto imensamente dele.
E gostava mesmo. Sempre pronto a tomar parte em brinquedos para divertir o seu pequeno sobrinho. 
Na natureza de Hugo no havia lugar para o rancor.
Cyril no era realmente robusto. Um menino dbil, sem vigor constitucional. O tipo de criana que 
talvez no chegasse a crescer...
E ento?... ,
 Miss Claythorne, por que no posso nadar at o penedo?
Irritante, essa insistncia lastimosa.
 Fica muito longe, Cyril.
 Mas, Miss Claythorne...
Vera levantou-se. Foi at a penteadeira e engoliu trs aspirinas.
Gostaria de ter algum bom remdio para dormir, pensou. "Se eu tivesse que acabar com a vida, 
tomaria uma poro de comprimidos de veronal... ou alguma coisa dessa espcie... cianeto  que nunca!"
Teve um arrepio ao lembrar-se do rosto arroxeado e convulso de Anthony Marston.
Ao passar diante da lareira olhou para a versalhada na sua moldura.
Dez negrinhos vo jantar enquanto no chove;
Um deles se engasgou, e ento ficaram nove.
" horrvel", pensou. "Exatamente como nesta noite.. "
Por que Anthony Marston desejara morrer?
Ela no queria morrer.
No podia conceber que se desejasse a morte...
A morte era para... os outros...



CAPITULO VI

I

O Dr. Armstrong sonhava...
Fazia muito calor na sala de operaes...
Com certeza tinham elevado demais a temperatura. O suor escorria-lhe pelo rosto. Suas mos 
estavam pegajosas. Era difcil segurar o bisturi com firmeza...
Que magnfico fio tinha o instrumento...
Fcil cometer um assassinato com uma faca daquelas. E, naturalmente, o que estava fazendo era um 
assassinato...
O corpo da mulher parecia diferente. Fora um corpo enorme e pesado. Este era magro, ossudo. E o 
rosto estava coberto.
A quem tinha de matar?
No podia lembrar-se. Mas devia saber! Perguntava  freira?
A Irm tinha os olhos nele. No, no podia perguntar-lhe. Sua suspeita era visvel. Mas quem estava 
na mesa de operaes? No deviam ter tapado o rosto daquela maneira... Se ao menos pudesse v-lo...
Ah! agora melhorou. Um jovem interno estava a puxar o leno.
Emily Brent, naturalmente. Era a Emily Brent que ele tinha de matar. Que olhos maldosos tinha! Seus 
lbios moviam-se. Que dizia ela?
Em plena vida nos encontramos na morte...
Ela ria agora. No, enfermeira, no torne a pr o leno. Preciso ver. Tenho de aplicar o anestsico. 
Onde est o ter? Devo ter trazido o ter comigo. Que fez do ter, Irm? Chteau Neuf du Pape? Sim, 
serve perfeitamente.
Retire esse leno, enfermeira.
Claro! Eu j sabia!  Anthony Marston! Tem o rosto roxo e convulso. Mas no est morto... est rindo. 
Digo que est rindo! Vejam como sacode a mesa de operao.
Cuidado, homem, cuidado. Enfermeira, segure isso firme... segure firme...
O Dr. Armstrong acordou com um sobressalto. Era de manh. O quarto estava banhado de sol.
Algum, inclinado sobre ele, sacudia-o. Era Rogers. Rogers com a cara branca, a dizer:
 Doutor... doutor!
O Dr. Armstrong acordou inteiramente. Sentou-se na cama e perguntou em tom spero:
 Que ?
  minha mulher, doutor. No posso acord-la. Meu Deus! No posso fazer com que ela acorde. E... 
no me parece que esteja passando bem.
O Dr. Armstrong foi rpido e eficiente. Enfiou o seu robe de chambre e seguiu Rogers.
Inclinou-se sobre a cama em que a mulher parecia dormir tranqilamente, deitada de lado. Ergueu a 
mo fria, levantou a plpebra. Passaram-se alguns momentos antes que ele tornasse a endireitar o corpo e 
se afastasse da cama.
Rogers sussurrou:
 Ela est... ela est?...
O mordomo passou a lngua sobre os lbios secos. Armstrong sacudiu afirmativamente a cabea.
 Sim, est morta.
Seus olhos pousaram-se pensativamente no homem que tinha  sua frente, depois voltaram-se para a 
mesinha de cabeceira, o lavatrio, e tornaram a fixar-se na mulher adormecida.
 Foi... foi... do corao, doutor?  perguntou Rogers.
Armstrong s respondeu ao cabo de algum tempo:
 Como andava ela de sade?
 Era um pouco reumtica  respondeu Rogers.
 Foi atendida recentemente por algum mdico?
 Mdico?  O mordomo encarou-o com ar atoleimado.  H muitos anos que nenhum de ns dois 
v um mdico.
 Tinha algum motivo para acreditar que ela sofresse do corao?
 No, doutor. Nunca soube de nada.
 Ela dormia bem?  perguntou Armstrong.
Rogers desviou os olhos. Juntou as mos e comeou a torc-las, inquieto.
 No dormia l muito bem, no  murmurou.
 Tomava drogas para dormir?  indagou vivamente o doutor.
Rogers olhou surpreendido para ele.
 Drogas? Para dormir? No que eu saiba. Estou certo que no.
Armstrong dirigiu-se para a pia.
Havia ali um certo nmero de frascos. Loo para o cabelo, gua de alfazema, cscara-sagrada, leo 
de pepino para as mos, um gargarejo, pasta dentifrcia e um pouco de gua de Elliman.
Rogers ajudou-o abrindo as gavetas da penteadeira. Passaram depois  cmoda. Mas no havia sinal 
de soporferos em plulas ou em soluo.
 Ela no tomou nada ontem  noite, doutor, a no ser o que o senhor deu...  disse Rogers.

II

Quando o gongo soou chamando para o breakfast, s nove horas, todos j estavam levantados,  
espera.
O Gen. Macarthur e o juiz tinham estado a caminhar no terrao, trocando descosidos comentrios 
sobre a situao poltica.
Vera Claythorne e Philip Lombard foram ao cume da ilha, nos fundos da casa. Ali haviam encontrado 
William Henry Blore a olhar para a terra firme.
 Ainda no h sinal dessa lancha  disse ele.  Estive cuidando daqui.
Vera respondeu a sorrir:
 O Devon  um condado dorminhoco. Em geral andam atrasados.
Philip Lombard olhava na outra direo, para o mar largo.
 Que pensam do tempo?  perguntou bruscamente. Blore observou o cu e opinou:
 A mim me parece bom.
Lombard franziu os lbios como quem assobia.
 Vai comear a ventar antes que escurea.
 Borrasca, hem?  disse Blore. L de baixo veio o som do gongo.
 Breakfast?  disse Philip Lombard.  J no  sem tempo.
Enquanto desciam o declive abrupto, Blore disse a Lombard em tom meditativo:
 Sabe que no consigo entender por que esse rapaz quis dar cabo da pele? Passei a noite inteira 
ruminando essa histria.
Vera ia um pouco adiante. Lombard entreparou e disse:
 Tem alguma outra hiptese?
 Gostaria de ter alguma prova. Para comear, um motivo. Eu diria que ele estava muito bem de vida.
Emily Brent saiu pela porta envidraada da sala e veio ao encontro dos trs.
 O barco vem a?  perguntou vivamente.
 Ainda no  respondeu Vera.
Foram para a mesa. Sobre o aparador havia ch, caf e uma imensa travessa com ovos e bacon.
Rogers abriu a porta para que passassem e tornou a fech-la por fora.
 Esse homem parece doente esta manh  comentou Emily Brent.
O Dr. Armstrong, que estava parado  porta do terrao, consertou a garganta e disse:
 Devem desculpar quaisquer... h... falhas no servio esta manh. Rogers teve de preparar o 
breakfast sozinho. A Sra. Rogers no pde... h... trabalhar esta manh.
Emily Brent perguntou, surpreendida:
 Que tem a mulher?
 Vamos comear a nossa refeio  convidou Armstrong com desembarao.  Os ovos devem 
estar frios. Depois, h vrios assuntos que desejo discutir com todos os presentes.
Os outros compreenderam. Serviram-se de ovos e bacon, deitaram ch ou caf em suas xcaras. O 
breakfast comeou.
Por acordo tcito e universal, foi banida a discusso dos problemas da ilha. Conversaram, de maneira 
desconexa, sobre atualidades: notcias do estrangeiro, acontecimentos desportivos e o ltimo aparecimento 
do monstro do Loch Ness.
Depois de retirados os pratos, o Dr. Armstrong afastou um pouco sua cadeira para trs, pigarreou com 
importncia e falou:
 Achei conveniente esperar que todos houvessem terminado de comer antes de lhes dar uma triste 
notcia. A Sra. Rogers morreu durante o sono.
Houve interjeies surpreendidas e atnitas.
 Mas  terrvel!  exclamou Vera.  Duas mortes nesta ilha desde que chegamos!
O Juiz Wargrave, com os olhos entrecerrados, disse na sua vozinha clara e precisa:
 Hum... Muito estranho... Qual foi a causa da morte?
Armstrong deu de ombros.
  impossvel dizer assim, sem recursos tcnicos.
  necessrio fazer uma autpsia?
 Eu no poderia dar um atestado de bito. No tenho o menor conhecimento de qual fosse o estado 
de sade dela.
 Parecia ser muito nervosa  disse Vera.  E ontem  noite sofreu um abalo. Talvez tivesse sido 
do corao, acho eu.
O mdico interps secamente:
 Sim,  certo que o corao parou de bater... Mas qual foi a causa disso? Eis a questo.
Emily Brent pronunciou uma palavra apenas. Essa palavra caiu spera e clara no meio do grupo que a 
escutava:
 Conscincia. Armstrong virou-se para ela.
 Que quer dizer exatamente com isso, Miss Brent?
 Os senhores todos me ouviram  respondeu a solteirona, no tom rgido que lhe era costumeiro.  
Ela foi acusada, juntamente com o marido, de terem assassinado deliberadamente a sua patroa... uma 
senhora idosa.
 E pensa que...
 Penso que a acusao era verdadeira. Todos os senhores a viram ontem  noite. Ao lhe ser 
lanado em rosto o seu crime, no pde resistir ao choque e desmaiou. Morreu literalmente de medo.
O Dr. Armstrong abanou a cabea em ar de dvida.
  uma teoria admissvel, mas no se pode adot-la sem um conhecimento mais exato do seu 
estado de sade. Se houvesse deficincia cardaca...
Emily Brent acrescentou tranqilamente:
 Chame-o, se preferir, um Ato de Justia Divina. Todos pareceram chocados. O Sr. Blore falou, 
inquieto:
 Isso  levar as coisas demasiado longe, Miss Brent.
A solteirona olhou para todos com os olhos lampejantes, alando o queixo e dizendo:
 Acham impossvel que um pecador seja prostrado pela clera divina! Eu no acho!
O juiz afagou o queixo e murmurou numa voz levemente irnica:
 Minha cara senhora, a julgar pelo conhecimento que tenho do mal, a Providncia deixa a ns, 
mortais, o trabalho de condenar e punir... uma tarefa, muitas vezes, inada de dificuldades. No h nada a 
facilit-la.
Emily Brent deu de ombros.
 Que foi que ela comeu e bebeu ontem  noite, antes de ir para a cama?  perguntou Blore 
vivamente.
 Nada  respondeu Armstrong.
 No tomou nada? Uma xcara de ch? Um gole d'gua? Aposto que tomou ch. Essa classe de 
gente sempre o faz.
 Rogers garante que ela no tomou absolutamente nada.
 Ah!  fez Blore.  Mas isso  o que ele diz!
O seu tom de voz era to significativo que o doutor voltou rapidamente os olhos para ele.
 Ento  essa a sua idia?  perguntou Philip Lombard.
Agressivamente, Blore respondeu:
 Bem, por que no? Todos ns ouvimos aquela acusao ontem  noite. Podia ser puro disparate... 
simples loucura! Mas, por outro lado, podia no ser. Admitamos, por um momento, que fosse verdade. 
Rogers e sua mulher acabaram com a pele da velha senhora. Bem, aonde  que isso nos leva? Eles se 
sentiam em perfeita segurana e muito tranqilos...
Vera interrompeu-o, dizendo em voz baixa:
 No, no creio que a Sra. Rogers jamais se sentisse em segurana.
Blore pareceu levemente agastado com a interrupo. "Mulher  mulher", diziam os seus olhos.
 Bem, fosse l como fosse  continuou  no havia, que soubessem, nenhum perigo srio para 
eles. De repente, ontem  noite, algum luntico pe tudo na rua. Lembrem-se de como o marido ficou junto 
dela quando estava voltando a si. No era de todo solicitude conjugai! Oh! no. Ele parecia um gato pisando 
em tijolo quente. Estava louco de medo pelo que ela pudesse dizer.
"E a tm a situao. Cometeram um assassinato e ficaram impunes. Mas, se toda essa histria 
viesse a ser remexida, que poderia acontecer? Havia todas as probabilidades de que a mulher entornasse o 
caldo. No tinha fibra para agentar o tiro. Era um perigo ambulante para o marido, isso  o que era! Ele 
sabia o que fazia. Mentiria com uma cara impassvel at o Dia do Juzo... mas no podia ter confiana nela! 
E, se ela desse com a lngua nos dentes, o pescoo dele corria perigo! Portanto, botou discretamente 
qualquer coisa numa xcara de ch para ter certeza de que lhe fecharia a boca permanentemente."
Armstrong disse em voz pausada:
 No havia nenhuma xcara vazia ao lado da cama dela... no havia l absolutamente nada. Procurei 
por toda parte.
Blore fez um muxoxo.
 Ora, claro! A primeira coisa que ele faria, depois que ela tivesse bebido, era pegar a xcara e o pires 
e lav-los com o maior cuidado.
Houve uma pausa, depois o Gen. Macarthur disse em tom de dvida:
 Talvez seja assim, mas acho quase impossvel que um homem faa tal coisa...  sua esposa.
Blore soltou uma breve risada e disse:
 Quando o pescoo de um homem corre perigo, ele no perde tempo com sentimentos. ^
Houve nova pausa. Antes que algum pudesse falar, a porta abriu-se e Rogers entrou.
 Desejam mais alguma coisa?  perguntou, olhando-os um a um.
O Juiz Wargrave remexeu-se levemente na cadeira e indagou:
 A que horas costuma vir a lancha?
 Entre sete e oito, senhor. s vezes, um pouco depois das oito. No sei o que Fred Narracott possa 
estar fazendo esta manh. Se estivesse doente, mandaria o irmo.
 E que horas so agora?  perguntou Philip Lombard.
 Dez minutos para as dez, senhor.
Lombard alou as sobrancelhas e sacudiu vagarosamente a cabea.
Rogers esperou um ou dois minutos.
De sbito, o gen. Macarthur falou explosivamente:
 Lamento o que houve com sua esposa, Rogers. O doutor acaba de nos contar.
Rogers inclinou a cabea.
 Sim, senhor. Muito obrigado, senhor. Apanhou o prato de presunto vazio e retirou-se. Novamente, 
fez-se silncio na sala.

III

No terrao ao lado, Philip Lombard estava a dizer:
 A respeito dessa lancha...
Blore olhou para ele e sacudiu a cabea.
 Sei em que est pensando, Sr. Lombard. J me fiz a mesma pergunta. A lancha devia ter chegado 
h coisa de duas horas. No veio! Por qu?
 Encontrou a explicao?  perguntou Lombard.
 No se trata de um acidente... isso  o que eu digo. Faz parte de um plano. Tudo  uma coisa s.
 Acha que ela no vem?  disse Lombard.
Uma voz falou atrs deles  uma voz rabugenta e impaciente:
 A lancha no vem.
Blore volveu ligeiramente os ombros quadrados e olhou com ar pensativo para quem falara.
 Tambm  dessa opinio, general?
 Claro que no vem  disse com energia o Gen. Macarthur.  Estamos contando com a lancha 
para sairmos da ilha.  justamente o que significa toda essa histria. Ns no vamos sair desta ilha... 
Nenhum de ns sair daqui com vida...  o fim, entendem?... O fim de tudo...
Depois de breve hesitao, prosseguiu numa voz baixa e estranha:
 Isto  que  paz... verdadeira paz... Chegar ao fim... no ter de continuar... Sim, a paz...
Voltou abruptamente as costas e afastou-se. Foi at o fim do terrao e comeou a descer o declive 
que conduzia ao mar, estendendo-se obliquamente at a extremidade da ilha, onde rochedos isolados 
sobressaam da gua.
Seus passos eram um tanto inseguros, como os de um homem meio adormecido.
 A vai outro que no est regulando bem!  disse Blore.  Pelo jeito, todos vo acabar assim.
Philip Lombard respondeu:
 No acredito que isso acontea com voc, Blore. O ex-inspetor riu.
 No perco a cabea to facilmente.  E acrescentou em tom seco:  No creio, tampouco, que o 
Sr. Lombard acabe assim.
 Por enquanto acho que estou em perfeito juzo, obrigado  disse Philip Lombard.

IV

O Dr. Armstrong saiu para o terrao e ali ficou, hesitante.  sua esquerda estavam Blore e Lombard.  
sua direita, Wargrave, com a cabea baixa, caminhava de um lado para outro.
Aps um momento de indeciso, Armstrong dirigiu-se para este ltimo.
Mas no mesmo instante Rogers surgiu rapidamente do interior da casa.
 O senhor, doutor, pode conceder-me uma palavra, por favor?
Armstrong virou-se para trs.
Assombrou-o o aspecto do mordomo. Todo o seu rosto, que assumira uma cor cinza-esverdinhado, 
contrara-se espasmodicamente. Tremiam-lhe as mos.
Era to violento o contraste com a sua compostura de poucos minutos atrs que Armstrong ficou 
abismado.
 Por favor, senhor, conceda-me duas palavras. L dentro, senhor.
O doutor voltou a entrar na casa junto com Rogers, que ia num frenesi.
 Que h, homem? Acalme-se  disse ele.
 Aqui, doutor, venha c.
O mordomo abriu a porta da sala de jantar. O mdico entrou. Rogers seguiu-o e cerrou a porta atrs 
de si.
- Bem  disse Armstrong.  O que ?
Os msculos da garganta do outro moviam-se. Engolia em seco.
 Esto acontecendo coisas que no entendo, senhor  disse em voz sacudida.
 Coisas? Que coisas?  perguntou vivamente Armstrong.
 Vai pensar que estou louco, senhor. Dir que isso no  nada. Mas precisa ser explicado, senhor. 
Precisa ser explicado! Porque isso no  coisa que acontea!
 Bem, homem, diga o que . No continue a falar por enigmas.
Rogers tornou a engolir em seco e disse:
 So aquelas figurinhas, senhor. No meio da mesa. Os negrinhos de porcelana. Eram dez, juro que 
eram dez!
 Sim, dez  disse Armstrong.  Ns os contamos ontem  noite.
Rogers chegou-se mais perto dele.
 Exatamente, senhor. Pois ontem  noite, quando vim tirar a mesa, s havia nove, senhor. Reparei 
nisso e achei esquisito. Mas no pensei mais no caso. E hoje de manh, senhor... No notei quando servi 
o caf. Estava muito abalado pelo que aconteceu... Mas agora, quando vim tirar novamente a mesa... Veja 
o senhor mesmo, se no me acredita. A esto s oito, senhor! S oito!  coisa que se entenda, ? S 
oito...



CAPITULO VII

I

Depois do breakfast, Emily Brent tinha sugerido a Vera Claythorne uma nova caminhada at o cume, 
a fim de ver se a lancha aparecia. Vera concordara.
O vento havia refrescado. Pequenas cristas brancas surgiam no mar. No se viam barcos de pesca... 
e nenhum sinal da lancha.
A aldeia de Sticklehaven no podia ser avistada  somente o outeiro acima dela. Um penhasco 
saliente de rocha vermelha ocultava a pequena baa.
 O homem que nos trouxe ontem parecia uma pessoa de confiana  disse Emily Brent.   
verdadeiramente muito esquisito que ele esteja to atrasado esta manh.
Vera no respondeu. Estava procurando reprimir um sentimento de pnico que crescia dentro dela.
"Deves conservar a calma, a serenidade", dizia a si mesma, furiosa. "Que foi que te transformou 
assim? Sempre tiveste nervos excelentes."
Depois de um ou dois minutos, disse em voz alta:
 Tomara que ele viesse de uma vez. Eu... eu quero ir-me embora daqui.
Emily Brent observou secamente:
 No tenho dvidas de que todos ns queiramos a mesma coisa.
 Tudo isso  to extraordinrio...  disse Vera.  Parece no... no ter sentido algum.
A solteirona falou com vivacidade:
 Estou muito desgostosa comigo por me ter deixado enganar to facilmente. Refletindo bem, aquela 
carta  mesmo absurda. Mas quando a recebi no tive dvidas... absolutamente nenhuma.
 Suponho que no  tornou Vera maquinalmente.
  essa tendncia incorrigvel que a gente tem de aceitar as coisas sem exame  disse Emily 
Brent.
Vera respirou profundamente, estremecendo.
 Pensa mesmo... aquilo que disse  mesa?
 Seja mais explcita, minha querida. A que se refere em particular?
Vera respondeu numa voz sumida:
 Pensa mesmo que Rogers e sua mulher mataram a velha senhora?
Emily Brent olhou pensativa para o mar alto, depois disse:
 Pessoalmente, tenho absoluta certeza. E voc, que pensa?
 No sei o que pensar. Miss Brent:
 Tudo indica que a idia  certa. Aquele desmaio da mulher. E lembre-se de que o homem deixou 
cair a bandeja do caf. Depois, o modo como ele falou... No convencia. Oh! sim, receio que ambos sejam 
culpados.
Vera:
 A aparncia dela... assustada da prpria sombra! Nunca vi uma mulher com um ar to assustado... 
Devia viver sob a obsesso do crime que cometera...
Miss Brent murmurou:
 Lembro-me de um versculo que havia na parede do meu quarto, quando eu era criana. Fica certo 
de que o teu pecado te descobrir.  uma grande verdade, isso. Fica certo de que o teu pecado te 
descobrir.
Vera levantou-se da pedra em que estava sentada.
 Mas, Miss Brent... Miss Brent... nesse caso...
 Sim, minha querida?
 Os outros? E a respeito dos outros?
 No estou compreendendo muito bem.
 Todas as outras acusaes... que no eram verdadeiras? Mas, se  verdade no caso dos Rogers...
Calou-se, incapaz de pr em ordem os seus pensamentos caticos. A testa de Emily Brent, que 
estivera franzida numa -expresso de perplexidade, voltou a desanuviar-se.
 Ah! agora entendo. Bem, h esse tal Sr. Lombard. Ele admite que abandonou vinte homens  
morte.
 Eram apenas nativos...  disse Vera.
 Brancos ou pretos, ele so nossos irmos  retrucou duramente Emily Brent.
"Nossos irmos pretos... nossos irmos pretos", pensou Vera. "Oh! que vontade de rir! Estou ficando 
histrica. No sou mais a mesma..."
Emily Brent continuou com ar pensativo:
 Est claro que algumas das outras acusaes eram foradas e ridculas. Contra o juiz, por 
exemplo, que no fez seno cumprir o, dever imposto pelo seu cargo pblico. E contra o ex-investigador da 
Scotland Yard. No meu caso, tambm.
Fez uma pausa e depois continuou:
 Naturalmente, em vista das circunstncias, eu no podia dizer nada ontem  noite. No era assunto 
para ser discutido diante de cavalheiros.
 No?
Vera escutava-a com interesse. Miss Brent prosseguiu serenamente:
 Beatrice Taylor estava a meu servio. No era uma menina direita... conforme verifiquei demasiado 
tarde. Muito me enganei a respeito dela. Tinha boas maneiras e era muito asseada e bem-mandada. Eu 
estava muito satisfeita com ela. Sem dvida, tudo isso no passava da mais pura hipocrisia! Era uma 
menina perdida e sem moral nenhuma. Repugnante! Passou-se algum tempo antes de eu descobrir que ela 
estava... "em dificuldades", como costumam dizer essas criaturas.  Miss Brent fez uma pausa, 
enrugando com nojo o seu delicado nariz.  Foi um grande choque para mim. Seus pais eram gente 
direita, e tinham-na criado com toda severidade. Alegro-me em dizer que no tiveram indulgncia com ela.
 Que aconteceu ento?  perguntou Vera, com os olhos fixos em Miss Brent.
 Naturalmente, no fiquei com ela nem mais uma hora sob o meu teto. Ningum jamais dir que 
pactuei com imoralidades.
 Que aconteceu... a ela?
 A criatura perdida  disse Miss Brent  no contente em j ter um pecado na conscincia, 
cometeu um pecado ainda mais grave. Ps fim  sua prpria vida.
 Matou-se?  sussurrou Vera, horrorizada.
 Sim, atirou-se no rio. Vera teve um arrepio.
Fitou o perfil calmo e delicado de Miss Brent, e disse:
 Como se sentiu a senhora quando soube que ela havia feito isso? No se arrependeu? No acusou 
a si mesma?
Emily Brent empertigou-se.
 Eu? Eu nada tenho que me reprovar.
 Mas se foi a sua... dureza... que a levou a tal?.. , Emily Brent retrucou asperamente:
 Foi a ao dela... o seu prprio pecado que a levou a tal. Se se tivesse portado como uma moa 
decente e recatada, nada disso teria acontecido.
Virou o rosto para Vera. No havia nenhum remorso, nenhuma inquietude nos seus olhos. Eram duros 
e orgulhosos. Sentada no cume da Ilha do Negro, Emily Brent parecia vestir uma armadura de virtude.
A pequena e idosa solteirona j no parecia ligeiramente ridcula a Vera.
De sbito, tornara-se uma mulher terrvel.

II

O Dr. Armstrong deixou a sala de jantar e mais uma vez saiu para o terrao.
Sentado agora numa cadeira, o juiz olhava placidamente para o mar.
Lombard e Blore achavam-se mais longe, para a esquerda, a fumar em silncio.
Como da primeira vez, o doutor hesitou por um momento. Seu olhar pousou-se meditativamente no 
Juiz Wargrave. Desejava consultar algum. Ali estava um homem com um crebro arguto e lgico de 
magistrado. No entanto, hesitava. O Juiz Wargrave podia ter excelente cabea, mas era um homem idoso. 
Nessa conjuntura, Armstrong sentia a necessidade de um homem de ao. Resolveu-se afinal:
 Lombard, posso falar-lhe um instante?
Philip ps-se em movimento.
 Pois no.
Os dois homens deixaram o terrao e desceram devagar o declive em direo ao mar. Quando j no 
podiam ser ouvidos, Armstrong falou:
 Quero fazer uma consulta. Lombard alou as sobrancelhas.
 Meu caro, eu no entendo de medicina.
 No, no, refiro-me  situao geral.
 Oh! isso  outra coisa.
 Francamente, que pensa da situao?  perguntou Armstrong.
Lombard refletiu um instante, depois disse:
  bastante sugestiva, no ?
 Quais so as suas idias a respeito dessa mulher? Aceita a teoria de Blore?
Philip soprou uma baforada de fumaa.
  perfeitamente plausvel... considerada em si mesma.
 Exatamente.
A resposta parecera tranqilizar Armstrong. Philip Lombard no era tolo.
 Isto   continuou ele  aceitando-se a suposio de que o casal Rogers tenha cometido 
impunemente um assassinato, h dez anos. E no vejo nenhuma impossibilidade nisso. Que lhe parece 
que eles tenham feito, precisamente? Envenenado a velha senhora?
Lentamente, Armstrong respondeu:
 Pode ter sido algo bem mais simples. Esta manh perguntei a Rogers de que sofria Miss Brady. A 
resposta foi esclarecedora. Sem entrar em detalhes mdicos, basta dizer que em certa forma de 
perturbao cardaca emprega-se o nitrito de amila. Quando sobrevm um ataque, quebra-se uma ampola 
de nitrito de amila e d-se a inalar. Se essa medicao fosse omitida..,. bem, as conseqncias facilmente 
poderiam ser fatais.
 To simples assim?  disse Philip Lombard, pensativo.  Deve ter sido... bastante tentador.
O doutor assentiu com a cabea.
 Sim, no era preciso dizer nada... No havia o trabalho nem o perigo de adquirir e administrar 
arsnico... nada definido... Apenas... abster-se! E Rogers saiu noite a fora em busca de um mdico, de 
modo que ambos podiam confiar em que nunca seriam descobertos.
 E, mesmo que algum soubesse, jamais se poderia provar o que quer que fosse contra eles  
acrescentou Philip Lombard.
E, franzindo repentinamente o sobrolho:
 Naturalmente... isso explica muita coisa. Intrigado, Armstrong perguntou:
 Como assim?
 Explica a Ilha do Negro, quero dizer  prosseguiu Lombard.  H crimes que no podem ser 
imputados aos seus perpetradores. O dos Rogers, por exemplo. Outro caso  o do velho Wargrave, que 
cometeu o seu assassinato estritamente dentro da lei.
 Acredita nessa histria?  perguntou Armstrong vivamente.
Philip Lombard sorriu.
 Oh! sim, acredito. Wargrave assassinou Edward Seton sem dvida alguma, assassinou-o to 
seguramente como se o tivesse trespassado com um estilete. Mas foi bastante inteligente para fazer isso 
sentado na sua cadeira, de toga e peruca. Dessa maneira, dentro dos processos comuns, no se lhe pode 
imputar o seu crimezinho.
Um pensamento sbito passou como um relmpago pelo crebro de Armstrong:
"Assassinato no Hospital. Assassinato na Mesa de Operao. Seguro... sim, to seguro como uma 
fortaleza!"
 Da o Sr. Owen...  dizia Philip Lombard.  Da a Ilha do Negro!
Armstrong respirou fundo.
 Agora estamos chegando ao ponto principal: qual  o verdadeiro propsito de nos reunir todos aqui?
 Qual pensa que seja?  perguntou Philip Lombard. Armstrong respondeu abruptamente:
 Quais so as hipteses possveis? Que Rogers a tenha matado porque temia que ela desse com a 
lngua nos dentes. Segunda possibilidade: que ela se tenha apavorado e escolhido a sada mais fcil.
 Suicdio, hem?  disse Lombard.
 Que acha?
 Podia ter sido, sim, se no fosse a morte de Marston. Dois suicdios em doze horas  muito 
suicdio! E, se pretende dizer-me que Anthony Marston, um touro novo, sem nervos e com muito pouco 
crebro, se encheu de remorsos por ter atropelado dois garotos e resolveu dar cabo da prpria vida... direi 
que tal idia  simplesmente ridcula! E, por outro lado, como teria se arranjado o veneno? Que eu saiba, o 
cianeto de potssio no  uma coisa que cada um leve consigo no bolso do colete. Mas, afinal, esse  o 
seu ramo.
 Ningum, em seu juzo perfeito, anda com cianeto de potssio no bolso  respondeu Armstrong. 
 Mas poderia acontecer a quem desejasse destruir um ninho de vespas.
 O zeloso proprietrio ou jardineiro, em outras palavras? No, isso tampouco combina com Anthony 
Marston. Quer-me parecer que  preciso buscar um pouco mais longe a explicao desse cianeto. ,Ou 
Anthony Marston queria dar cabo da sua vida antes de vir para c, e, por conseguinte, veio preparado, ou 
ento...
 Ou ento?  instigou-o Armstrong. Philip Lombard riu sardonicamente.
 Por que forar-me a diz-lo, quando est na ponta da sua lngua? Anthony Marston foi assassinado, 
est claro.

III

O Dr. Armstrong respirou com fora.
 E a Sra. Rogers? Lombard disse pausadamente:
 Eu poderia acreditar no suicdio de Anthony (com dificuldade) se no fosse a morte da Sra. Rogers. 
Poderia acreditar no suicdio da Sra. Rogers (facilmente) se no fosse a morte de Anthony Marston. E 
poderia acreditar que Rogers eliminou a mulher, se no fosse a defuno inesperada de Marston. Mas o 
que ns precisamos  de uma teoria para explicar duas mortes que se seguiram rapidamente uma  outra.
 Talvez eu lhe possa prestar algum auxlio na formao dessa teoria  disse Armstrong.
E repetiu os fatos que Rogers lhe havia comunicado z respeito do desaparecimento das duas 
figurinhas de porcelana.
 Sim, os negrinhos de porcelana...  disse Lombard.   certo que ontem  noite estavam l dez, 
 hora do jantar. E agora so s oito, diz voc?
O Dr. Armstrong recitou:

Dez negrinhos vo jantar enquanto no chove; 
Um deles se engasgou, e ento ficaram nove. 
Nove negrinhos sem dormir: no  biscoito! 
Um deles cai no sono, e ento ficaram oito.

Os dois homens entreolharam-se. Philip Lombard sorriu e jogou fora o seu cigarro.
 Enquadra-se demasiado bem para ser uma coincidncia! Anthony Marston morreu de asfixia ou 
engasgamento ontem  noite depois do jantar, e Mama Rogers cai no sono... para sempre!
 Donde se conclui?  perguntou Armstrong.
 Donde se conclui que aqui h marosca! Temos outra espcie de negrinho, o Negrinho da Morte! X! 
O Sr. Owen! U. N. Owen! Um Luntico Desconhecido  Solta!
 Ah!  exclamou Armstrong, com um suspiro de alvio.  Voc concorda! Mas sabe no que isso 
implica? Rogers jurou que no havia ningum na ilha a no sermos ns, ele e sua mulher.
 Rogers est enganado! Ou talvez Rogers esteja mentindo!
Armstrong abanou a cabea.
 No creio que esteja mentindo. O homem est assustado. Assustado quase a ponto de perder o 
juzo.
Philip Lombard assentiu com a cabea e disse:
 Hoje no veio a lancha. Isso combina com o resto: sempre os pequenos arranjos do Sr. Owen! A 
Ilha do Negro deve ficar isolada at que o Sr. Owen acabe a sua tarefa.
Armstrong empalidecera.
 Est vendo?... Esse homem deve ser um doido varrido!
Philip Lombard respondeu num novo timbre de voz;
 Mas h uma coisa que o Sr. Owen no calculou.
 Que ?
 A ilha  mais ou menos um rochedo nu. Ser fcil dar-lhe uma busca. No tardaremos a descobrir 
o excelentssimo senhor U. N. Owen.
 Ser perigoso  advertiu Armstrong. Philip Lombard riu-se.
 Perigoso? Quem tem medo do lobo mau? Eu serei perigoso quando o apanhar!
Fez uma pausa e concluiu:
 Convm recrutarmos Blore para nos ajudar. Ser um
homem valioso, num aperto.  melhor no dizer nada s mulheres. Quanto aos outros, o general est 
gag, penso eu, e o forte do velho Wargrave  a inatividade sentenciosa. Ns trs daremos conta do 
recado.





CAPITULO VIII

I

Foi fcil recrutar Blore, que imediatamente se pronunciou de acordo com os argumentos dos dois 
homens.
 O que o senhor disse a respeito dessas figuras de porcelana muda tudo. Isso  louco, louco! Mas 
h uma coisa ainda: no acha que a idia do Sr. Owen  fazer o servio por procurao, como quem diz?
 Explique-se, homem.
 Bem, o que quero dizer  o seguinte: Depois daquela balbrdia ontem  noite, o rapaz, Marston, 
perde a tramontana e se envenena. E ento,  Rogers que desatina e manda a mulher para o outro mundo! 
Tudo de acordo com os planos de U.N.O.
Armstrong abanou a cabea e chamou a ateno do outro para a questo do cianeto. Blore 
concordou.
  verdade, tinha esquecido isso. No  uma coisa que se costume levar no bolso. Mas, ento, 
como foi parar no copo dele, senhor?
 Estive pensando nisso  respondeu Lombard.  Marston tomou vrios drinques ontem  noite. 
Entre o penltimo e o ltimo, passou-se um bom pedao. Durante esse tempo o seu copo ficou em cima de 
uma daquelas mesas. Penso, embora no tenha certeza, que era a mesa prxima da porta do terrao. 
Essa porta estava aberta. Algum podia ter deitado a dose de cianeto no copo.
 Sem que nenhum de ns visse, senhor?  disse Blore, incrdulo.
Lombard retrucou secamente:
 Estvamos todos... com a ateno voltada para outra coisa.
  verdade  observou lentamente Armstrong.  Ns tnhamos sido acusados. Andvamos de um 
lado para outro na sala, indignados, a discutir, concentrados no que nos dizia respeito. Acho que era 
possvel faz-lo...
Blore deu de ombros.
 Como quer que seja,  o que deve ter acontecido! Bem, cavalheiros, vamos a isso. Ningum tem 
um revlver, por acaso? Creio que seria esperar demais.
 Eu tenho  disse Lombard batendo no bolso.
Blore arregalou os olhos e perguntou num tom excessivamente natural:
 Sempre o carrega consigo, senhor?
 Habitualmente  respondeu Lombard.  Tenho estado em alguns lugares perigosos, como sabe.
 Oh!  fez Blore; e acrescentou:  Bem,  provvel que nunca tenha estado num lugar mais 
perigoso do que este em que est hoje! Se h um maluco escondido nesta ilha, com certeza carrega 
consigo um pequeno arsenal... para no falar de uma faca e um ou dois punhais.
Armstrong tossiu.
 Nisso voc pode estar enganado, Blore. Muitos psicopatas homicidas so pessoas tranqilas e 
sossegadas. Bem simpticas, at.
 No creio que o nosso homem pertena a essa classe, Dr. Armstrong  respondeu Blore.

II

Os trs homens iniciaram o giro pela ilha.
A busca revelou-se inesperadamente simples. Para o lado de noroeste, na direo da costa, os 
penedos, de superfcie lisa, mergulhavam verticalmente no mar.
No resto da ilha no havia rvores e bem pouco abrigo se encontrava. Os trs homens trabalharam 
cuidadosa e metodicamente, batendo o terreno acima e abaixo, desde o ponto culminante at a beira 
d'gua, examinando detidamente a menor irregularidade da rocha que pudesse indicar a entrada de uma 
caverna. Mas cavernas no havia.
Acompanhando a beira d'gua, chegaram finalmente ao lugar onde o Gen. Macarthur estava sentado a 
olhar para o mar. O velho mantinha o torso muito ereto, com os olhos fixos no horizonte.
No prestou ateno aos pesquisadores que se aproximavam. Esse descaso fez com que um deles, 
pelo menos, se sentisse ligeiramente inquieto.
"Isto no  natural...", pensou Blore com os seus botes. "O velho parece hipnotizado ou coisa que o 
valha."
Pigarreou e disse num tom que pretendia ser de amena palestra:
 Escolheu um lugar muito tranqilo para estar, Sr. General.
O general franziu o sobrolho, lanou um rpido olhar por cima do ombro e disse:
 H to pouco tempo... to pouco tempo! Devo insistir para que ningum me perturbe.
 Ns no vamos perturb-lo  respondeu Blore jovialmente.  Estamos dando uma voltinha pela 
ilha, nada mais. Desconfiamos que pudesse haver algum escondido.
O general tornou a franzir o cenho.
 O senhor no entende... o senhor absolutamente no entende. Retire-se, por favor.
Blore afastou-se e foi dizer aos outros dois:
 Est doido... No adianta nada falar com ele. Lombard perguntou com certa curiosidade:
 Que foi que ele disse? Blore deu de ombros.
 Disse que no havia tempo e que no queria ser perturbado.
O rosto de Armstrong anuviou-se.
 Ser qu?...  murmurou ele.

III

A busca na ilha estava praticamente terminada.
Os trs homens tinham voltado ao ponto mais alto e olhavam para a terra firme. No se avistava 
nenhuma embarcao. O vento continuava a refrescar.
 Os barcos de pesca no saram hoje  disse Lombard.  A vem uma tormenta.  o diabo que 
daqui no se possa ver a aldeia. Podamos fazer sinais ou qualquer outra coisa.
 Podemos acender uma fogueira esta noite  sugeriu Blore.
Lombard franziu o sobrolho.
 O diabo  que tudo isso foi provavelmente previsto.
 Como assim, senhor?
 Sei l! Uma brincadeira, talvez. Ns ficaramos aqui isolados e no se deveria prestar nenhuma 
ateno aos sinais etc. Talvez a aldeia tenha sido informada de que se trata de uma aposta. Alguma 
histria idiota, enfim.
 Acha que eles engoliriam isso?  perguntou Blore em tom de dvida.
Lombard respondeu secamente:
 Isso  mais fcil de acreditar do que a verdade! Se tivessem avisado a aldeia de que a ilha devia 
ficar isolada at que o Sr. Desconhecido Owen acabasse de assassinar tranqilamente todos os seus 
hspedes... acha que acreditariam nisso?
 H momentos  disse Armstrong  em que eu prprio no posso acreditar. E contudo...
Com os lbios repuxados, a mostrar os dentes, Philip Lombard interps:
 E contudo... A est. O senhor o disse, doutor! Blore olhava a gua l embaixo.
 Ningum poderia ter descido por aqui, suponho  disse ele.
Armstrong sacudiu a cabea.
 Duvido.  muito a pique. E onde se esconderia esse sujeito?
Blore:
 Talvez haja um buraco na rocha. Se tivssemos um barco, poderamos dar uma volta em torno da 
ilha.
Lombard:
 Se tivssemos um barco, a estas horas estaramos a caminho da terra firme!
Blore:
  bem verdade, senhor.
 Podemos certificar-nos a respeito deste rochedo  disse subitamente Lombard.  S existe um 
ponto em que pode haver alguma reentrncia:  um pouco  direita, aqui embaixo.
Se arranjarem uma corda, podero me fazer descer para verificar.
  bom verificar  volveu Blore.  Embora,  primeira vista, parea absurdo! Vou ver se posso 
conseguir alguma coisa.
O ex-inspetor dirigiu-se a passos lentos para a casa. Lombard olhou para o cu. As nuvens 
comeavam a acumular-se. O vento aumentava.
Philip olhou de soslaio para Armstrong e disse:
 Est muito calado, doutor. Em que pensa? Armstrong respondeu lentamente:
 Estava perguntando a mim mesmo at que ponto, exatamente, vai a loucura do velho Macarthur...

IV

Vera tinha andado inquieta durante toda a manh. Evitara Emily Brent com uma espcie de trmula 
averso.
Quanto a Miss Brent levara uma cadeira para o canto da casa, de modo a ficar abrigada contra o 
vento, e ali se ocupava com o seu tric.
Cada vez que Vera pensava nela, parecia-lhe ver um rosto plido de afogada, com algas enredadas no 
cabelo... Um rosto que tinha sido bonito... despudoradamente bonito, talvez... e que agora se tornara 
inacessvel tanto  lstima como ao terror.
E Emily Brent, virtuosa e plcida, l estava a tricotar.
No terrao principal, o Juiz Wargrave estava sentado numa cadeira de lona, com a cabea metida 
entre os ombros.
Quando Vera olhou para ele, viu um homem na barra do tribunal  um moo louro, de olhos azuis, 
com uma expresso atnita e assustada. Edward Seton. E via, com os olhos da imaginao, o juiz pr o 
capelo na cabea e comear a pronunciar a sentena...
Ao cabo de alguns momentos, Vera dirigiu-se vagarosamente para o mar. Voltou seus passos na 
direo da extremidade da ilha, onde estava sentado um ancio com os olhos fitos no horizonte.
O Gen. Macarthur sentiu-lhe a chegada e voltou a cabea. Seus olhos refletiam um estranho misto de 
interrogao e apreenso, que a sobressaltou. Por alguns instantes, o velho encarou-a fixamente.
"Que esquisito!" pensou Vera. " quase como se ele soubesse...".
 Ah!  a senhorita  disse ele.  A senhorita veio... Vera sentou-se ao seu lado.
 Gosta de ficar aqui olhando para o mar?
O general sacudiu suavemente a cabea e respondeu: - Sim.  um lugar agradvel... um bom lugar, 
acho eu, para esperar.
 Esperar?  disse Vera vivamente.  Que  que est esperando?
 O fim  volveu ele com brandura. - Mas creio que j sabe disso, no?  verdade, no ? Ns 
todos estamos esperando o fim.
 Que quer dizer?  perguntou a moa com voz insegura.
O Gen. Macarthur respondeu gravemente:
 Nenhum de ns sair da ilha. Esse  o plano. Sabe perfeitamente disso,  claro. O que talvez no 
possa compreender  o sentimento de alvio!
 Alvio?  falou Vera, pasmada.
 Sim. Naturalmente,  muito jovem, ainda no chegou a isso. Mas um dia vem! Abenoado alvio, 
quando a gente sabe que est tudo acabado... que no  mais preciso carregar o fardo. H de sentir isso 
tambm, algum dia...
 No compreendo  disse Vera em voz rouca. Seus dedos contraram-se espasmodicamente. De 
sbito, sentiu medo desse velho e tranqilo soldado.
 Veja, eu amava Leslie  disse ele, perdido em suas meditaes.  Amava-a muitssimo...
 Leslie era sua esposa?  perguntou Vera.
 Sim, minha esposa... Eu a amava, e me orgulhava muito dela. Era to bonita... e to alegre!
Silenciou por alguns instantes, depois recomeou:
 Sim, eu amava Leslie. A est por que fiz aquilo.
 Refere-se a?...  disse Vera, sem completar a pergunta.
O Gen. Macarthur sacudiu suavemente a cabea.
 Agora j no adianta muito estar negando... agora que todos vamos morrer. Eu enviei Richmond 
para a morte. Suponho que, de certo modo, tenha sido um assassinato. Curioso. Assassinato... e eu que 
sempre fui um homem to respeitador da lei! Mas naquela ocasio no me pareceu assim. No tive 
remorsos. "Ele bem que o merece!" foi o que pensei. Mas depois...
 Sim, depois?  perguntou Vera com voz dura.
O velho abanou vagamente a cabea. Parecia perplexo e um tanto angustiado.
 No sei. No sei... Tudo ficou diferente, compreende? No sei se Leslie chegou a adivinhar... Acho 
que no. Mas  que eu j no podia saber o que se passava no seu esprito. Tinha partido para muito longe, 
onde eu no podia alcan-la. Depois morreu... e eu fiquei s...
 S... s...  repetiu Vera, e o eco de sua voz voltou-lhe dos rochedos.
 Vai ficar contente tambm, quando chegar o fim  disse o Gen. Macarthur.
Vera levantou-se, dizendo asperamente:
 No entendo o que o senhor quer dizer! E ele:
 Eu sei, minha filha. Eu sei...
 No sabe, no. No compreende absolutamente nada...
O Gen. Macarthur tornou a fixar os olhos no mar. Parecia no sentir a presena da moa s suas 
costas.
 Leslie...  disse baixinho, num tom muito suave...

V

Quando Blore voltou da casa com uma corda enrolada no brao, achou Armstrong onde o havia 
deixado, a contemplar as ondas l embaixo.
 Onde est o Sr. Lombard?  perguntou Blore, quase sem flego.
 Foi testar alguma teoria  respondeu negligentemente o mdico.  No tarda a voltar. Escute 
Blore, estou preocupado.
 Acho que ns todos estamos preocupados. Armstrong sacudiu a mo com impacincia.
 Claro... claro! Mas no  a isso que me refiro. Estava pensando no velho Macarthur.
 Que h com ele, senhor?
O doutor disse em tom sombrio:
 Estamos  procura de um louco. Que me diz de Macarthur?
 Acha que ele  um doido homicida?  perguntou Blore, incrdulo.
 Isso eu no diria  respondeu Armstrong em tom de dvida.  Nem por um instante. Mas est 
claro que no sou especialista em doenas mentais. Alis, ainda no tive ensejo de conversar 
verdadeiramente com ele... no o estudei desse ponto de vista.
Blore parecia ctico.
 Gag, sim! Mas eu no diria que...
Armstrong atalhou-o com um ligeiro esforo, como um homem que cai em si.
 Provavelmente voc tem razo. Com o demnio, deve haver algum escondido nesta ilha! Ah! a vem 
Lombard.
A corda foi cuidadosamente amarrada.
 Tratarei de fazer tudo por mim s, na medida do possvel  disse Lombard.  Fiquem atentos 
porque, se houver qualquer coisa, darei um puxo brusco na corda.
Depois de alguns instantes, quando ambos estavam a observar a descida de Lombard, Blore 
comentou:
 Ele tem a agilidade de um gato, no? Havia algo de estranho na sua voz.
 Penso que deve ter feito um pouco de alpinismo em seus bons tempos  disse o Dr. Armstrong.
 Talvez.
Houve um silncio, e o ex-inspetor disse:
 Contudo,  um camarada bem esquisito. Sabe o que eu penso?
 Que ?
 Ele no  de confiana!
 Em que sentido?  perguntou Armstrong, perplexo. Blore emitiu um grunhido, depois disse:
 No sei... precisamente. Mas eu no confiaria nele para nada.
 Suponho que tenha levado uma vida aventurosa  disse o Dr. Armstrong.
 Aposto que algumas de suas aventuras foram dessas que no podem ser sabidas por ningum.  
Blore fez uma pausa, depois continuou:  Por acaso o doutor trouxe um revlver consigo?
Armstrong arregalou os olhos:
 Eu? Bom Deus, no! Por que faria isso?
 Por que o fez o Sr. Lombard?  disse Blore.
 Hbito... suponho  respondeu o mdico com ar incerto.
Blore fez um muxoxo insatisfeito.
Um sbito puxo foi dado na corda. Por alguns instantes, estiveram ambos com as mos ocupadas. 
Da a pouco, quando tornaram a descansar, Blore prosseguiu:
 H hbitos e hbitos! Est certo que o Sr. Lombard leve um revlver consigo para as selvas, 
juntamente com um fogareiro Primus, um saco de dormir e uma proviso de p-de-mosquito. Perfeitamente! 
Mas o hbito no faria com que ele trouxesse tudo isso para c!  s nos livros que as pessoas andam 
sempre armadas de revlver como se fosse a coisa mais natural do mundo.
O Dr. Armstrong sacudiu a cabea, sem saber o que pensar.
Os dois homens inclinaram-se sobre a beira do rochedo para observar os movimentos de Lombard. 
Sua busca fora total e ambos puderam ver logo que tinha sido intil. Dentro em pouco Lombard tornou a 
surgir na borda do penhasco. Enxugou o rosto banhado em suor e disse:
 Bem, desta toca no sai coelho. Ou est na casa, ou no est em parte nenhuma.

VI

A casa foi totalmente revistada. Comearam pelas construes exteriores, depois voltaram a ateno 
para a vivenda propriamente dita. A fita mtrica da Sra. Rogers, descoberta no armrio da cozinha, prestou-
lhes bom auxlio. Mas no havia espaos secretos. Tudo era franco e honesto, uma construo moderna 
sem esconderijos. Inicialmente examinaram o andar trreo. Ao subirem para os quartos de dormir, viram 
pela janela do patamar Rogers a levar uma bandeja de coquetis para o terrao.
 Admirvel animal, o bom criado  comentou Philip Lombard.  Continua a trabalhar impassvel.
 Rogers  um mordomo de primeira,  preciso que se diga!  volveu Armstrong, com apreo.
E Blore:
 A mulher dele tambm era uma tima cozinheira. Veja-se aquele jantar de ontem  noite...
Entraram no primeiro quarto de dormir. Cinco minutos mais tarde voltavam ao patamar. Ningum 
escondido... nenhum esconderijo possvel.
 Aqui h uma escadinha  disse Blore.
 Leva ao quarto dos criados  informou o Dr. Armstrong.
Blore:
 Deve haver um espao embaixo do telhado... para reservatrio de gua, os fios condutores etc.
Foi ento, quando ali se encontravam, que ouviram um rudo l em cima. Um leve e furtivo som de 
passos.
Todos ouviram. Armstrong apertou o brao de Blore. Lombard ergueu um dedo admoestador.
 Psiu! Escutem.
Repetiu-se o rudo. Algum caminhava l em cima com ps de gato.
 Est no quarto de dormir  cochichou Armstrong.  O quarto em que se encontra o corpo da Sra. 
Rogers.
Blore respondeu no mesmo tom:
 Est claro! O melhor esconderijo que ele poderia ter escolhido! Ningum costuma ir l. Agora, o 
maior silncio, hem!
Os trs homens subiram a escada de mansinho. Detiveram-se no pequeno patamar, diante da porta do 
quarto de dormir. Sim, havia algum ali. Ouviu-se um ligeiro rangido no interior da pea.
 Agora  cochichou Blore.
Abriu a porta de chofre e precipitou-se no quarto, seguido de perto pelos outros dois.
Estacaram todos repentinamente.
Rogers estava ali, com as mos cheias de roupas.

VII

Blore foi o primeiro a recobrar o sangue-frio.  Desculpe, h... Rogers. Ouvimos algum caminhando 
aqui e pensamos que... bem... No terminou a frase. Ento Rogers:
 Peo-lhes que me perdoem, senhores. Estava mudando minhas coisas. Acho que no haver 
objeo se eu ficar com um dos quartos de hspedes que esto vagos a embaixo. O menor.
O mordomo dirigia-se a Armstrong, e foi este quem respondeu:
 Pois no, pois no. Continue a sua mudana.
O mdico evitava olhar para o corpo que jazia na cama, coberto com um lenol.
 Muito obrigado, senhor  disse Rogers.
O criado saiu do quarto com os braos carregados de coisas suas e desceu a escada para o andar 
inferior.
Armstrong caminhou para a cama e> erguendo o lenol, olhou para o rosto tranqilo da morta. J no 
era um rosto amedrontado  vazio, apenas.
 Quem me dera ter os meus instrumentos aqui  disse Armstrong.  Gostaria de saber qual foi o 
veneno.
E, voltando-se para os outros:
 Completemos a busca. Tenho certeza de que no vamos encontrar coisa alguma.
Blore lutava com os ferrolhos de um alapo baixo.
 Esse camarada caminha muito silenciosamente  disse ele.  H poucos minutos ns o vimos 
no jardim. Ningum sentiu quando ele subia.
 Suponho que tenha sido por isso que pensamos tratar-se de um estranho a andar por este quarto 
 disse Lombard.
Blore desapareceu numa escurido cavernosa. Lombard tirou uma lanterna do bolso e seguiu-o.
Cinco minutos mais tarde, os trs homens juntaram-se num patamar superior, a entreolhar-se. 
Estavam sujos e cheios de teias de aranha, bastante carrancudos os trs.
No havia ningum na ilha a no ser eles, os oito que restavam.




CAPITULO IX

I

Vagarosamente, Lombard falou:
 De modo que estvamos enganados... enganados em toda a linha! Construmos um pesadelo de 
superstio e fantasia, s porque houve uma coincidncia de duas mortes!
Armstrong disse com ar grave:
 No entanto, como sabem, o argumento continua de p. Que diabo, eu sou mdico, sei alguma 
coisa a respeito de suicidas. Anthony Marston no era um homem desse tipo.
Lombard perguntou em tom de dvida:
 No podia ter sido um acidente, suponho? Blore bufou, incrdulo.
 Raio de acidente esquisito! Houve uma pausa.
 Quanto  mulher...  comeou Blore, interrompendo-se logo a seguir.
 A Sra. Rogers?
 Sim. No seu caso  possvel que se tratasse de um acidente, no?
 Um acidente? De que maneira?  fez Lombard. Blore pareceu ligeiramente embaraado. Seu rosto 
cor de
tijolo ficou um pouco mais escuro. Foi quase com brusquido que disse:
 Enfim, doutor, o senhor deu uma droga para ela tomar, no deu?
Armstrong olhou surpreendido para ele.
 Droga! Que droga?
99
 No disse, ontem de noite, que ia dar-lhe alguma coisa para faz-la dormir?
 Ah! isso? Pois claro! Um sedativo inofensivo.
 Qual, precisamente?
 Dei-lhe uma dose fraca de trional. Um preparado inteiramente incuo.
 Escute...  disse Blore, fazendo-se ainda mais vermelho.  Para no estar com rodeios... o 
senhor no lhe teria dado uma dose excessiva, por acaso?
O Dr. Armstrong replicou, irado:
 No sei o que voc quer dizer.
  possvel que tenha cometido um engano, no ?  volveu Blore.  Essas coisas acontecem de 
vez em quando.
 No fiz semelhante coisa. A sugesto  ridcula  disse o mdico asperamente. Fez uma pausa, 
depois acrescentou num tom frio e cortante:  Ou est insinuando por acaso, que eu lhe dei uma dose 
excessiva de propsito?
Lombard apressou-se a intervir.
 Escutem, vocs dois,  preciso conservar a calma. No vamos comear a fazer acusaes a torto 
e a direito.
Blore retrucou de mau humor:
 Apenas sugeri que o doutor podia ter cometido um engano.
O Dr. Armstrong fez um esforo sobre si mesmo e, mostrando os dentes num sorriso um tanto sem 
graa, disse:
 Os mdicos no podem dar-se ao luxo de cometer enganos dessa espcie, meu amigo.
Blore observou deliberadamente:
 No seria o primeiro... a acreditar no que disse aquele disco!
Armstrong empalideceu. Philip Lombard virou-se furioso para Blore:
 Que  que se lucra em dizer coisas ofensivas? Ns todos estamos no mesmo barco. Temos de 
remar juntos. E que me diz daquele seu falso testemunho, ento?
Blore deu um passo  frente, cerrando os punhos, e disse numa voz pastosa:
 Falso testemunho, uma ova! Isso  uma mentira infame. V, tente fazer-me calar a boca, Sr. 
Lombard! H algumas coisas que eu desejo saber... e uma delas diz respeito ao senhor!
 A mim?  fez Lombard erguendo as sobrancelhas.
 Sim. Desejo saber por que foi que trouxe um revlver consigo, quando vinha fazer uma agradvel 
visita social.
 Deseja saber, ?  disse Lombard.
 Desejo, sim, Sr. Lombard. Este observou inesperadamente:
 Sabe, Blore? Voc no  a besta que parece ser.
 Talvez. Mas e o negcio do revlver? Lombard sorriu.
 Vim armado porque me levaram a crer que esta ilha era um lugar perigoso.
 O senhor no nos disse isso ontem  noite  retrucou Blore, sempre desconfiado.
O outro confirmou com a cabea.
 Estava disfarando?  insistiu Blore.
 De certa maneira, sim.
 Bem, ento explique-se agora. Lentamente, Lombard fez-lhe a vontade:
 Deixei que todos pensassem que eu tinha vindo para c nas mesmas condies que a maioria dos 
outros. No era bem verdade. O fato  que fui procurado por um judeuzinho... Morris,  como ele se chama. 
Ofereceu-me cem guinus para vir aqui e ficar atento ao que se passasse... Disse que me havia escolhido 
porque eu tinha fama de ser um homem de prstimo numa situao perigosa.
 E depois?  instou Blore com impacincia. Lombard arreganhou os dentes.
  s.
 Mas com certeza ele lhe disse mais do que isso?  interveio o Dr. Armstrong.
 Oh! no disse, no. Fechou-se como uma ostra. Era pegar ou largar... estas foram as suas 
palavras. E eu, como estava mal de dinheiro, aceitei.
Blore ainda no parecia convencido.
 Por que no nos contou isso ontem  noite?  indagou.
 Mas, meu caro...  Lombard encolheu eloqentemente os ombros.  Como podia eu saber se 
ontem  noite no se tratava precisamente da eventualidade para a qual fui chamado? Fiquei na moita e 
inventei uma histria que no me comprometesse.
O Dr. Armstrong fez uma pergunta arguta:
 Mas agora... pensa de modo diverso?
O rosto de Lombard mudou de expresso. Fez-se mais duro e sombrio.
 Sim  disse ele.  Acredito agora que estou no mesmo barco com os senhores todos. Aqueles 
cem guinus foram apenas a isca que o Sr. Owen usou para me fazer entrar na ratoeira com os outros.
 Porque estamos numa ratoeira...isso, juro-o! A morte da Sra. Rogers! A de Tony Marston! Os 
negrinhos que desaparecem da mesa de jantar! Oh! sim, em tudo isso v-se claramente a mo do Sr. 
Owen... mas onde diabo est o prprio Sr. Owen?
L embaixo, uma pancada solene no gongo chamou para o almoo.

II

Rogers achava-se  porta da sala de jantar. Quando os trs homens desceram a escada, ele deu um 
ou dois passos  frente e disse numa voz baixa e ansiosa:
 Espero que o almoo esteja satisfatrio. H lngua fria, presunto, e algumas batatas que cozinhei. 
Tambm h queijo, biscoitos e compotas enlatadas.
 Isto soa bem  disse Lombard.  Temos mantimentos para algum tempo, ento?
 H bastante comida, senhor... em latas. A despensa est bem provida. Uma necessidade, devo 
diz-lo, numa ilha onde se pode ficar isolado da terra firme durante um perodo considervel.
Lombard aprovou com a cabea.
Enquanto seguia os trs homens para a sala de jantar, Rogers murmurou:
 Preocupa-me o fato de Fred Narracott no ter aparecido hoje. Pode-se dizer que  uma 
circunstncia singularmente infortunada.
 Sim  volveu Lombard  singularmente infortunada exprime muito bem a coisa.
Miss Brent entrou na sala. Acabava de derrubar um novelo de l e estava enrolando cuidadosamente a 
ponta solta. Ao sentar-se  mesa observou:
 O tempo est mudando. O vento ficou bastante forte e h carneiros no mar.
O Juiz Wargrave entrou a passos lentos e medidos. Dardejando olhares rpidos de sob as bastas 
sobrancelhas para os outros ocupantes da sala, comentou:
 Os senhores estiveram muito ativos esta manh. Havia um leve prazer malicioso na sua voz.
Vera entrou apressada, um pouco ofegante.
 Desculpem.se os fiz esperar  disse vivamente.  Estou atrasada?
 Voc no  a ltima  respondeu Emily Brent.  O general ainda no chegou.
Sentaram-se  mesa. Rogers falou a Miss Brent:
 Vai comear, minha senhora, ou prefere esperar?
 O Gen. Macarthur est sentado l embaixo,  beira do mar  disse Vera.  No creio que ele 
tenha ouvido o gongo...  Vera hesitou.  Parece-me que est um pouco areo hoje.
Rogers ofereceu-se em seguida:
 Vou descer para avis-lo de que o almoo est pronto. Armstrong ps-se em p de um salto.
 Irei eu. Podem comear.
O mdico deixou a sala. s suas costas, ouviu a voz de Rogers:
 Aceita lngua fria ou presunto frio, minha senhora?


III

As cinco pessoas sentadas em torno da mesa pareciam achar a palestra difcil. L fora, sbitas 
rajadas de vento sopravam intermitentemente.
Vera disse, um pouco arrepiada:
 A vem uma tormenta.
Blore contribuiu para a conversa dizendo em tom ameno:
 Ontem, no trem de Plymouth, vinha um velho a insistir que ia haver tormenta.  extraordinrio como 
esses velhos lobos-do-mar conhecem o tempo.
Rogers dava volta  mesa, recolhendo os pratos vazios. De repente estacou, com os pratos ainda nas 
mos, e disse numa estranha voz amedrontada:
 Vem algum a correr...
Com efeito, todos podiam ouvir passos precipitados no terrao.
No mesmo instante, todos adivinharam sem que ningum lhes tivesse dito...
Como de concerto, todos se puseram em p e ficaram olhando para a porta.
O Dr. Armstrong apareceu, resfolegando forte.
 O Gen. Macarthur...  comeou ele.
 Morto!
Foi Vera quem, explosivamente, pronunciou a palavra.
 Sim, est morto...  disse o mdico. Houve um silncio... um longo silncio.
Sete pessoas entreolhavam-se sem poderem encontrar palavras que dizer.

IV

A tormenta estalou no momento exato em que o corpo do ancio passava pela porta.
Os que no ajudavam a carreg-lo assistiam  cena, no hall.
Ouviu-se um sibilar repentino, e logo depois o bramido da chuva que desabava.
Enquanto Blore e Armstrong subiam a escada com o seu fardo, Vera Claythorne virou-se de repente e 
entrou na sala de jantar deserta.
Estava como a haviam deixado  as sobremesas no aparador, intatas e prontas para serem servidas.
Vera caminhou para a mesa. Ali continuava um ou dois minutos mais tarde, quando Rogers entrou 
silenciosamente na sala.
O mordomo sobressaltou-se ao ver a moa, depois seus olhos fizeram uma pergunta.
 Oh! senhorita... Eu... eu s vim para...
Numa voz aguda e spera que a ela prpria surpreendeu, Vera disse:
 Voc tem toda a razo, Rogers. Olhe e veja. S esto sete...
O Gen. Macarthur fora depositado na sua cama.
Depois de fazer um derradeiro exame, Armstrong deixou o quarto e desceu a escada. Encontrou os 
outros reunidos na sala de estar.
Miss Brent fazia tric. Vera Claythorne estava junto da porta envidraada, olhando a chuva que 
fustigava os vidros. Blore conservava-se teso na sua cadeira, com as mos pousadas nos joelhos. Lombard 
caminhava irrequieto de um lado para outro. E, no fundo da pea, o Juiz Wargrave estava sentado numa 
bergre, com os olhos semicerrados.
Quando o doutor entrou, o juiz abriu os olhos e disse numa voz clara e penetrante:
 Ento, doutor? Armstrong estava muito plido.
 Nada de colapso cardaco ou coisa parecida  disse ele.  Macarthur foi golpeado na nuca com 
uma soqueira ou outra arma desse gnero.
Um pequeno murmrio deu volta  sala, mas a voz clara do juiz imps-se mais uma vez.
 Achou a arma que foi usada?
 No.
 Contudo, est seguro do que afirma?
 Segurssimo.
O Juiz Wargrave falou em tom tranqilo.
 Agora sabemos exatamente onde estamos.
J no havia dvida sobre quem tomara conta da situao. Durante a manh Wargrave ficara encolhido 
na sua cadeira, no terrao, abstendo-se de toda atividade exterior. Agora, assumia o comando com a 
facilidade nascida de um longo hbito de autoridade. Passara a presidir francamente os trabalhos do 
tribunal.
O magistrado comps o peito e tornou a assumir a palavra.
 Esta manh, cavalheiros, enquanto ficava sentado no terrao, estive observando as suas atividades. 
Pouca dvida podia haver quanto ao propsito que os animava. Revistaram a ilha em busca de um 
assassino desconhecido?
 Exatamente, senhor  disse Philip Lombard. O juiz continuou:
 Os senhores chegaram, sem dvida,  mesma concluso que eu. Isto , que as mortes de Anthony 
Marston e da Sra. Rogers no foram acidentais, nem foram suicdios. Sem dvida tambm chegaram a uma 
concluso positiva quanto ao propsito do Sr. Owen em nos atrair a esta ilha.
Blore exclamou em voz rouca:
  um louco! Um tarado! O juiz tossiu.
 Isso  quase certo, mas pouco afeta o caso. Nossa maior preocupao  esta: salvar nossas vidas.
Armstrong atalhou em voz trmula:
 No h ningum nesta ilha, afirmo-lhe. Ningum! Wargrave afagou o queixo e respondeu com 
brandura:
 No sentido que tem em mente, no. Cheguei a essa concluso hoje de manh. Poderia ter dito aos 
senhores que sua busca seria infrutfera. No obstante, inclino-me pela opinio de que o "Sr. Owen" (para 
lhe dar o nome que ele prprio adotou) est efetivamente na ilha. Muito efetivamente. Dado o plano em 
apreo, e que no  mais nem menos do que a execuo da justia sobre determinados indivduos por 
crimes que esto fora da alada da lei, s havia um meio de pr esse plano em prtica. O Sr. Owen s 
podia vir  ilha de um modo.
"A coisa est perfeitamente clara. O Sr. Owen  um de ns..."

VI

 Oh! no, no, no...
Foi quase um lamento que irrompeu dos lbios de Vera. O juiz voltou para ela o seu olhar penetrante.
 Minha cara jovem  disse ele  este no  o momento para recusar-se a enfrentar os fatos. Todos 
ns corremos grave perigo. Um de ns  U. N. Owen, mas no sabemos qual. Das dez pessoas que vieram 
para esta ilha, trs esto definitivamente fora de qualquer suspeita: Anthony Marston, a Sra. Rogers e o 
Gen. Macarthur. Restam sete. Dessas sete, um , se assim me posso expressar, um negrinho fictcio. O 
magistrado fez uma pausa e olhou em torno de si.
 Concordam todos comigo?
 Isso  fantstico  disse Armstrong  mas suponho que o senhor tenha razo.
 Sem a menor dvida  apoiou Blore.  E, se me perguntarem, desconfio muito...
O juiz deteve-o com um gesto rpido e disse tranqilamente:
 Daqui a pouco chegaremos l. De momento, tudo que desejo estabelecer  que estamos de acordo 
quanto aos fatos.
Emily Brent, sempre ocupada com o seu tric, interps:
 Seu argumento parece lgico. Concordo em que um de ns est possudo por um demnio.
 No posso acreditar... no posso...  murmurou Vera.
 Lombard?  perguntou o juiz.
 Concordo em.toda a linha, senhor. Wargrave sacudiu a cabea com ar satisfeito.
 Agora examinemos os indcios. Para comear: existe alguma razo para que suspeitemos de 
alguma pessoa em particular? O Sr. Blore tem, segundo creio, algo para dizer.
Blore respirava ruidosamente.
 Lombard tem um revlver  disse o ex-inspetor.  Ele prprio admite que no falou a verdade 
ontem de noite.
Philip Lombard sorriu desdenhosamente.
 Acho que convm explicar de novo.
E assim o fez, contando de maneira breve e sucinta a sua histria.
 Como prova isso?  perguntou Blore asperamente.  No h nada para corroborar o que o senhor 
afirma.
O juiz tossiu.
 Infelizmente, estamos todos na mesma situao. S temos nossa palavra em garantia do que 
afirmamos.  E, inclinando o corpo para a frente:  Nenhum dos senhores percebeu ainda o quanto esta 
situao  estranha. Na minha opinio, s h uma linha a seguir: com base nos fatos de que temos 
conhecimento,  possvel eliminar absolutamente algum de ns do rol dos suspeitos?
 Eu  acudiu vivamente Armstrong  sou um profissional bem conhecido. A simples idia de que 
possa ser suspeito de...
Novamente um gesto do juiz deteve o aparteante sem deix-lo terminar a frase. Wargrave prosseguiu 
na sua voz clara e fina:
 Eu tambm sou uma pessoa bem conhecida! Mas isso, meu caro senhor, prova menos do que 
nada! Mdicos j tm endoidecido. E juizes, da mesma forma. Bem assim como policiais  acrescentou o 
velho, olhando para Blore.
 Pelo menos  disse Lombard  suponho que o senhor no incluir as mulheres.
O juiz alou as sobrancelhas e respondeu naquele famoso tom "cido" to bem conhecido pelos 
advogados:
 Pretende afirmar que as mulheres no esto sujeitas  mania homicida?
 Claro que no  volveu Lombard, irritado.  Mas, assim mesmo, dificilmente se pode acreditar 
que...
Interrompeu-se. Ainda com a mesma vozinha azeda, o Juiz Wargrave voltou-se para Armstrong.
 Posso ter como certo, Dr. Armstrong, que uma mulher seria fisicamente capaz de desferir o golpe 
que matou o pobre Macarthur?
O mdico respondeu em tom calmo:
 Perfeitamente capaz... contanto que dispusesse de uma arma apropriada, como seja um cassetete 
de borracha ou coisa semelhante.
 Isso no exigiria um grande emprego de fora?
 Em absoluto.
O Juiz Wargrave meneou o pescoo de tartaruga e disse:
 As outras duas mortes resultaram da administrao de drogas. Isso, ningum o negar,  
facilmente praticado pela pessoa mais dbil deste mundo.
Vera gritou furiosa:
 Acho que o senhor est maluco!
Os olhos do velho magistrado voltaram-se lentamente e pousaram-se sobre a moa. Era o olhar 
desapaixonado de um homem muito habituado a pesar a humanidade numa balana. Vera pensou consigo:
"Est me examinando como um... como um espcime. E...  a idia foi para ela uma verdadeira 
surpresa  no gosta muito de mim!"
O juiz falava em tom comedido:
 Minha cara jovem, procure conter suas emoes. No a estou acusando.  E a seguir, curvando-
se para Miss Brent:  Espero, Miss Brent, que no se sinta ofendida pela minha insistncia em dizer que 
todos ns somos igualmente suspeitos.
Emily Brent continuava a tricotar. Foi numa voz fria que respondeu, sem levantar os olhos do seu 
trabalho:
 A idia de que eu seja acusada de tirar a vida de um semelhante  para no dizer as vidas de trs 
semelhantes  , decerto, inteiramente absurda para quem conhea um pouco o meu carter. Mas 
reconheo que todos aqui somos estranhos uns aos outros e que, em tais circunstncias, ningum pode 
ser eximido sem uma prova cabal. H, como j disse, um demnio entre ns.
 Ento estamos concordes  disse o juiz.  No pode haver iseno alguma baseada apenas em 
carter ou posio.
 E quanto a Rogers?  perguntou Lombard. O juiz olhou para ele sem pestanejar.
 Que h com Rogers?
 Bem, para mim ele parece estar fora de suspeita.
 Sim? Em virtude de qu?
 Primeiro, porque no tem cabea para isso  respondeu Lombard.  E, segundo, porque sua 
mulher foi uma das vtimas.
Mais uma vez se alaram as espessas sobrancelhas do Juiz Wargrave, que disse:
 Em meus tempos de magistratura, moo, julguei vrios homens acusados de terem assassinado 
as esposas... e, o que mais , sua culpa foi provada.
 Oh! concordo. O uxoricdio  perfeitamente possvel... quase natural, pode-se dizer! Mas no esta 
espcie de uxoricdio! Posso acreditar que Rogers tenha morto a mulher porque temesse ser denunciado 
por ela, ou porque a detestasse, ou porque tivesse em vista algum material mais atraente e menos 
permanente. Mas no posso imagin-lo como o luntico Sr. Owen, a distribuir uma justia paranica e a 
comear pela prpria esposa, punindo-a por um crime que ambos cometeram.
 O senhor est tomando testemunho auricular por prova  contraps o Juiz Wargrave.  No 
sabemos se Rogers e a esposa realmente conspiraram para matar a sua patroa. Isso pode ter sido uma 
acusao falsa, a fim de que Rogers parecesse encontrar-se na mesma posio que ns outros. O terror 
da Sra. Rogers podia dever-se ao fato de perceber que o marido estava mentalmente transtornado/
 Bem, seja como quer  concluiu Lombard.  U. N. Owen  um de ns. No se admitem 
excees. Todos estamos qualificados.
O juiz voltou  carga:
 Meu ponto de vista  que no pode haver excees baseadas em carter, posio ou 
probabilidade. O que devemos examinar agora  a possibilidade de eliminar urna ou mais pessoas em vista 
dos fatos. Em termos mais precisos: h entre ns uma ou mais pessoas que positivamente no pudessem 
ter administrado o cianeto a Anthony Marston, nem uma dose excessiva de soporfero  Sra. Rogers, nem 
tampouco tivessem tido ensejo de vibrar o golpe que matou o Gen. Macarthur?
A fisionomia um tanto espessa de Blore iluminou-se.
 Isso sim  que  falar, senhor!  disse ele inclinando o corpo para a frente.  Agora estamos no 
caminho certo. Vamos examinar isso melhor. No que toca ao jovem Marston, acho que no se pode 
concluir nada. J sugeriram que algum, pelo lado de fora, podia ter deitado alguma coisa no copo do rapaz 
antes que ele tornasse a ench-lo pela ltima vez. Uma pessoa dentro da sala podia ter feito isso com mais 
facilidade ainda. No me lembro se Rogers estava aqui, mas todos os outros tiveram essa oportunidade.
Blore fez uma pausa e continuou:
 Agora vejamos a mulher. No seu caso, os que esto mais em evidncia so o marido e o doutor. 
Qualquer dos dois poderia ter feito a coisa facilmente como piscar os...
Armstrong ps-se impulsivamente em p, a tremer.
 Protesto! Isto  o maior dos despropsitos! Juro que a dose que dei  mulher era perfeitamente...
 Dr. Armstrong.
A vozinha azeda do juiz era compulsria. O mdico deteve-se de chofre no meio da frase. A vozinha 
fria prosseguiu:
 Sua indignao  muito natural. Contudo, deve admitir que  preciso fazer frente aos fatos. Tanto o 
senhor como Rogers podiam ter administrado a dose fatal com a maior facilidade. Consideremos agora a 
situao das outras pessoas presentes. Que ensejo tivemos eu, o Inspetor Blore, Miss Brent, Miss 
Claythorne ou o Sr. Lombard de administrar o veneno? Algum de ns pode ser inteira e definitivamente 
eliminado?
O juiz fez uma pausa e em seguida acrescentou:
 Penso que no. Vera disse furiosa:
 Nem cheguei perto da mulher! Todos podem confirmar isso.
O velho esperou um momento e depois disse:
 Se no me falha a memria, os fatos so os seguintes (corrijam-me, por favor, se cometer algum 
engano): a Sra. Rogers foi colocada no sof por Anthony Marston; e o Sr. Lombard e o Dr. Armstrong 
aproximaram-se dela. O doutor pediu que Rogers trouxesse conhaque. Tratou-se ento de averiguar de' 
onde tinha vindo a voz que acabvamos de ouvir. Todos entramos na pea contgua, com exceo de Miss 
Brent, que ficou a ss nesta sala com a mulher desacordada.
Uma mancha de cor surgiu nas faces de Emily Brent. Parou de tricotar e disse:
 Isso  revoltante!
A vozinha prosseguiu implacvel:
 Quando voltamos a esta sala, a senhora, Miss Brent, estava curvada sobre a mulher reclinada no 
sof.
 O sentimento comum de humanidade  crime?  perguntou Miss Brent.
 No fao mais do que estabelecer fatos  replicou o juiz.  Rogers entrou ento na sala com o 
conhaque, o qual, j se v, bem podia ter envenenado de antemo. A bebida foi dada  mulher, e pouco 
depois seu marido e o Dr. Armstrong levaram-na para a cama, onde o doutor lhe deu um sedativo.
 Foi isso exatamente o que sucedeu  disse Blore.  E isso exclui o juiz, o Sr. Lombard, eu e 
Miss Claythorne.
Sua voz era alta e jubilosa. O Juiz Wargrave murmurou, olhando friamente para ele:
 Ser mesmo que exclui? Devemos levar em considerao toda eventualidade possvel.
Blore fitou-o, perplexo.
 No estou entendendo.
 A Sra. Rogers est l em cima, deitada na cama. O sedativo que o doutor lhe ministrou comea a 
produzir efeito. Ela se encontra num estado de sonolncia vaga e aquiescente. Suponhamos que nesse 
momento algum bate  porta e entra com uma plula ou uma poo, dizendo: "O doutor manda que a 
senhora tome isto". No lhes parece certo que ela teria engolido obedientemente e sem refletir o que lhe 
apresentavam?
Houve um silncio. Blore mudou de p e fez uma carranca. Philip Lombard disse:
 No acredito em absoluto nessa histria. Alm disso, nenhum de ns, durante horas, saiu desta 
sala. Estvamos muito ocupados com a morte de Anthony Marston e tudo mais.
 Algum podia ter sado do seu quarto de dormir... mais tarde  ponderou o juiz.
 Mas ento Rogers estaria l  contraps Lombard. O Dr. Armstrong fez um movimento.
 No. Rogers desceu para arrumar a sala de jantar e a copa. Qualquer pessoa poderia ter subido ao 
quarto da mulher sem ser vista.
 Com certeza, doutor  disse Emily Brent  a mulher j estaria profundamente adormecida sob o 
efeito da droga que o senhor lhe administrou?
 Sim, com toda a probabilidade. Mas isso no  certo. Enquanto no se receitar mais de uma vez 
para um paciente, no se pode dizer qual a sua reao a diferentes remdios. Decorre, s vezes, um 
perodo considervel antes que um sedativo produza efeito. Depende da idiossincrasia do paciente para 
com determinada droga.
 Era muito de esperar que o senhor dissesse isso, doutor  comentou Lombard.  Traz gua ao 
seu moinho, hem?
Novamente o rosto de Armstrong escureceu de raiva. Mas a vozinha fria e desapaixonada deteve mais 
uma vez as palavras nos seus lbios.
 Nada adiantam as recriminaes. Temos que tratar  de fatos. Est estabelecido, penso, que uma 
coisa como a que acabo de delinear poderia ter ocorrido. Reconheo que o seu valor como probabilidade 
no  grande, embora, por outro lado, isso dependa de quem fosse a pessoa em questo. O aparecimento 
de Miss Brent ou de Miss Claythorne com tal encargo no teria causado surpresa no esprito da paciente.
Admito que o aparecimento da minha pessoa, do Sr. Blore ou do Sr. Lombard teria sido, para dizer o 
mnimo, incomum, mas ainda assim penso que a visita no despertaria uma verdadeira suspeita.
 E isso nos leva... aonde?  perguntou Blore.

VII

Afagando o lbio com o dedo, o Juiz Wargrave continuou no seu tom mais desapaixonado e inumano:
 Terminamos a discusso do segundo assassinato, e deixamos assente que nenhum de ns est 
inteiramente livre de suspeita.
O velho magistrado fez uma pausa e recomeou:
 Chegamos agora  morte do Gen. Macarthur, ocorrida hoje pela manh. Pedirei a quem quer que 
considere ter um libi, que o declare explicitamente. Quanto a mim, desde j direi que no tenho nenhum 
libi vlido. Passei a manh sentado no terrao, a meditar sobre a situao singular em que todos nos 
encontramos.
"Estive sentado naquela cadeira durante toda a manh at soar o gongo, mas imagino que nesse 
espao de tempo tenha havido diversas ocasies em que no era observado por ningum e em que me teria 
sido possvel descer at a beira-mar, matar o general e voltar para a minha cadeira. Afirmo no ter sado do 
terrao, mas no posso prov-lo. Em face das circunstncias, isso no  suficiente. Deve haver prova."
 Eu estive toda a manh com o Sr. Lombard e o Dr. Armstrong  disse Blore.  Eles podero 
confirm-lo.
Armstrong:
 Voc veio at aqui para conseguir uma corda. Blore:
 No o nego. Vim e voltei imediatamente. O senhor sabe que assim foi.
Armstrong:
 Demorou um bom pedao... Blore ficou vermelho como uma cereja.
 Que diabo quer dizer com isso, Dr. Armstrong?  mdico repetiu:
 Apenas disse que voc tinha demorado um bom pedao.
 Eu tinha de encontrar uma corda, no tinha? No se pode achar um rolo de corda num instante.
O juiz interveio:
 Durante a ausncia do Inspetor Blore os senhores dois ficaram juntos?
 Certamente  respondeu Armstrong com calor.  Isto , Lombard afastou-se durante alguns 
minutos. Eu fiquei onde estava.
Lombard teve um sorriso:
 Queria experimentar as possibilidades de heliografar para a terra firme. Fui procurar o melhor lugar. 
Estive ausente apenas por um minuto ou dois.
Armstrong confirmou com a cabea.
  verdade. No demorou o tempo suficiente para cometer um assassinato, garanto-lhe.
 Algum dos senhores olhou para o relgio?  perguntou o juiz.
 Bem, eu no olhei.
 Eu no tinha relgio  disse Lombard.
 "Um minuto ou dois"  uma expresso vaga  ponderou tranqilamente o juiz.
E, voltando-se para a figura ereta, com o tric no regao:
 Miss Brent?
 Dei um passeio com Miss Claythorne at o cume da ilha  disse a solteirona.  Depois estive 
sentada ao sol, no terrao.
 No me lembro de a ter visto  falou o juiz.
  que eu estava atrs do canto da casa, no lado do sol. L no havia vento.
 E ali ficou at a hora do almoo?
 Sim.    .
 Miss Claythorne?
Vera respondeu com prontido e clareza:
 Estive com Miss Brent de manh cedo, depois andei vagueando um pouco por a. Mais tarde desci 
e falei com o Gen. Macarthur.
O Juiz Wargrave interrompeu-a, perguntando:
 A que hora foi isso?
Incerta pela primeira vez, Vera respondeu:
 No sei. Cerca de uma hora antes do almoo, acho eu... talvez menos...
 Foi antes ou depois de termos falado com ele?  perguntou Blore.
 No sei  repetiu Vera.  Ele... ele estava muito esquisito.
Vera teve um arrepio.
 Esquisito em que sentido?  quis saber o juiz. A moa respondeu em voz baixa:
 Disse que ns todos amos morrer... que ele estava  espera do fim... Assustou-me...
O juiz assentiu com a cabea e perguntou:
 Que fez ento a senhorita?
 Voltei para a casa. Depois, logo antes do almoo, tornei a sair para os fundos e a subir a encosta. 
Estive terrivelmente inquieta durante o dia todo.
O Juiz Wargrave afagou o queixo.
 Resta Rogers, embora eu duvide que o seu depoimento venha acrescentar alguma coisa  soma 
dos nossos conhecimentos.
Rogers, intimado a comparecer perante o tribunal, teve muito pouco a dizer. Durante a manh inteira 
estivera ocupado com o arranjo da casa e o preparo do almoo. Tinha levado coquetis ao terrao antes do 
almoo e depois fora mudar suas coisas do sto para o outro quarto. No olhara uma s vez pela janela 
durante a manh e nada tinha visto que pudesse ter qualquer relao com a morte do Gen. Macarthur. 
Podia jurar positivamente que havia oito figurinhas de porcelana sobre a mesa quando pusera o almoo.
Ao concluir o mordomo o seu depoimento, fez-se um silncio na sala.
O Juiz Wargrave consertou a garganta.
 Agora vem o sumrio!  murmurou Lombard para Vera Claythorne.
 Temos examinado da melhor maneira que nos foi possvel as circunstncias que cercaram essas 
trs mortes  falou o juiz.  Se bem que em alguns casos sejam muito pequenas as probabilidades de 
estarem implicadas certas pessoas, no se pode afirmar positivamente que qualquer de ns esteja livre de 
toda suspeita de cumplicidade. Reitero a minha convico de que, das sete pessoas reunidas nesta sala, 
uma  um homicida perigoso e provavelmente louco. No temos nenhum indcio de quem possa ser essa 
pessoa. Tudo que podemos fazer na presente conjuntura  estudar as possveis medidas para nos 
comunicarmos com a terra firme pedindo socorro, e, na eventualidade de ser retardado esse socorro (como 
nos leva a recear o estado do tempo), as medidas que cumpre adotar a fim de garantirmos a nossa 
segurana.
"Pedirei a todos que reflitam nisso cuidadosamente e me comuniquem quaisquer sugestes que lhes 
possam ocorrer. Entrementes, aconselho a todos que estejam em guarda. At agora a tarefa do assassino 
foi fcil, de vez que suas vtimas no alimentavam suspeitas. Doravante,  nossa obrigao suspeitar uns 
dos outros. Prevenir-se  armar-se. No corram riscos e estejam alerta ao perigo.  s."
Philip Lombard murmurou baixinho:
 Est encerrada a sesso...



CAPITULO X

I

 Acredita nisso?  perguntou Vera.
Estavam sentados, Lombard e a moa, no peitoril da janela da sala de estar. L fora chovia 
copiosamente e o vento uivava, fustigando com fora as vidraas.
Philip Lombard inclinou levemente a cabea para um lado antes de responder:
 Pergunta se eu acredito que o velho Wargrave tem razo quando diz que o criminoso  um de ns?
 Sim.
Lombard falou vagarosamente:
  difcil dizer. Pela lgica, est claro que ele tem razo; e contudo...
Vera tirou-lhe as palavras da boca.
 E contudo, parece to incrvel! Lombard fez uma careta.
 Toda essa histria parece incrvel! Mas, depois da morte de Macarthur, no h mais dvida a 
respeito de uma coisa. J no se cogita de acidentes ou suicdios.  positivamente assassinato. Trs 
assassinatos, at agora.
 Parece um horrvel pesadelo  disse Vera, arrepiada.  Continuo a sentir que essas coisas no 
podem acontecer!
Lombard observou compreensivamente:
 Eu sei. Daqui a pouco vo bater  porta e trazer o ch da manh.
 Oh! quem me dera que isso pudesse acontecer!
 Sim, mas no acontecer  disse Philip gravemente.  Todos ns estamos vivendo o mesmo 
pesadelo. E, daqui em diante, precisamos estar sempre acautelados.
 Se... se realmente  um deles... quem voc pensa que seja?  perguntou Vera baixando a voz.
Philip Lombard sorriu de sbito e respondeu:
 Segundo vejo, voc faz exceo de ns dois? Bem, est certo. Sei perfeitamente que no sou o 
assassino e no creio que voc tenha algo de doida, Vera. D-me a impresso de ser uma das moas mais 
ajuizadas e de cabea mais slida que j encontrei. Aposto a minha reputao na sua sanidade mental.
 Obrigada  disse Vera com um sorriso um tanto oblquo.
 Ento, Miss Vera Claythorne, no vai retribuir o cumprimento?
Vera respondeu depois de breve hesitao:
 Voc j admitiu, como sabe, que no considera a vida humana particularmente sagrada, mas assim 
mesmo no posso imagin-lo como... como o homem que ditou aquela gravao.
 Perfeitamente  disse Lombard.  Se eu fosse cometer um ou mais assassnios, seria 
unicamente pelo proveito que isso me pudesse trazer. Esse tipo de execuo em massa no  a minha 
especialidade. Muito bem, ento riscamos nossos nomes da lista e concentramo-nos em nossos cinco 
companheiros de priso. Qual deles  U. N. Owen? Bem, por simples palpite e sem ter absolutamente 
nada em que me basear, eu votaria em Wargrave.
 Oh!  fez Vera, surpreendida. Refletiu por alguns instantes e perguntou:  Por qu?
  difcil dizer exatamente. Mas, para comear, ele  um velho e presidiu tribunais por muitos anos. 
Em outras palavras, desempenhou o papel de Deus Todo-Poderoso durante uma poro de meses cada 
ano. Isso deve acabar por transtornar a cabea de um homem. Ele passa a considerar-se como onipotente, 
como tendo o poder de vida e de morte...  possvel que o seu crebro se desarranje e ele queira avanar 
mais um passo e ser Juiz e Verdugo Plenipotencirio. Vera disse devagar:
 Sim, suponho que isso seja possvel...
 Em quem votaria voc?  perguntou Lombard. Sem hesitar, Vera respondeu:
 No Dr. Armstrong. Lombard deu um pequeno assobio.
 O doutor, hem? Olhe, eu o poria como o ltimo de todos.
Vera abanou a cabea.
 Oh! no. Duas das mortes foram por envenenamento. Isso est mais ou menos a indicar um 
mdico. E depois, no se deve esquecer este fato: a nica coisa de que temos certeza absoluta  de a 
Sra. Rogers ter tomado o soporfero que ele lhe deu.
 Sim, isso  verdade  admitiu Lombard. Vera insistiu:
 Se um mdico endoidecesse, passar-se-ia muito tempo antes que algum suspeitasse. E os 
mdicos trabalham demais e vivem numa grande tenso.
 Sim  disse Philip  mas duvido que ele tenha morto Macarthur. No teria tempo para isso 
durante o breve intervalo em que o deixei... a no ser que fosse at l embaixo e tornasse a subir correndo 
como uma lebre, e no creio que ele tenha o treino necessrio para fazer isso sem mostrar sinais de 
cansao.
 No o matou naquela hora  retrucou Vera.  Teve um ensejo mais tarde.
 Quando?
 Quando desceu a fim de chamar o general para o almoo.
Philip tornou a assobiar baixinho.
 Ento pensa que foi nessa ocasio?  preciso muito sangue frio para fazer isso.
 Que risco havia?  redargiu Vera com impacincia.  Ele  a nica pessoa aqui que entende de 
medicina. Pode jurar que o velho estava morto pelo menos havia uma hora, e quem  que vai contradiz-lo?
Philip olhou pensativamente para ela.
 Sabe, essa sua idia  bem inteligente. Ser mesmo que...?

II

 Quem , Sr. Blore? Isso  o que eu quero saber. Quem ?
O rosto de Rogers contraa-se em tiques espasmdicos. Suas mos apertavam com fora a camura 
que segurava.
 Ah! meu rapaz, essa  a questo!  disse o ex-Inspetor Blore.
 Um de ns, foi o que disse Sua Excelncia. Qual? Isso  o que eu quero saber. Quem  esse 
demnio em forma de gente?
 Isso  o que todos ns gostaramos de saber  disse o outro.
 Mas o Sr. Blore tem uma idia. O senhor tem uma idia, no tem?  perguntou astutamente o 
mordomo.
 Posso ter uma idia  respondeu Blore devagar , mas entre ter uma idia e ter certeza vai uma 
grande distncia. Talvez me engane. Tudo que posso dizer  que, se tenho razo, o sujeito  de uma 
audcia... uma audcia nunca vista, na verdade.
Rogers enxugou o suor da testa e disse em voz rouca:
 Parece um sonho mau,  o que parece. Blore olhou curiosamente para ele.
 E voc tem alguma idia, Rogers?
O mordomo abanou a cabea e respondeu na mesma voz rouca:
 No sei. No sei absolutamente nada. E isso  o que est me matando de medo. No fazer 
nenhuma idia...

III

O Dr. Armstrong esbravejou:
 Temos que sair daqui... temos que sair! A todo o custo!
O Juiz Wargrave olhava pensativamente pela janela do salo de fumar, brincando com o cordo do seu 
pincenez.
 No pretendo ser meteorologista, est claro, mas acho muito improvvel que essa lancha possa 
chegar at aqui  mesmo que soubessem da nossa angustiosa situao  antes de se passarem vinte e 
quatro horas... e isto se amainar o vento, olhe l!
O Dr. Armstrong deixou cair a cabea nas mos e soltou um gemido.
 E, enquanto isso, poderemos ser todos assassinados em nossas camas?
 Espero que no  disse o juiz.  Pretendo tomar todas as precaues possveis para que tal 
coisa no acontea.
Pelo crebro do Dr. Armstrong passou como um relmpago a idia de que um velho como o juiz 
apegava-se muito mais tenazmente  vida do que o faria um homem de menos idade. Muitas vezes, em sua 
carreira profissional, maravilhara-se diante desse fato. Ali estava ele, mais moo do que o juiz uns bons 
vinte anos talvez, e todavia com um instinto de conservao grandemente inferior ao do velho.
"Assassinados durante o sono!" dizia l consigo o Juiz Wargrave. "Esses mdicos so todos iguais... 
s pensam por meio de clichs. Um esprito perfeitamente vulgar."
 J houve trs vtimas, lembre-se  disse o doutor.
 Sem dvida. Mas no esquea que elas no estavam preparadas para o ataque. Ns estamos 
prevenidos.
O Dr. Armstrong respondeu amargamente:
 Que podemos fazer? Mais cedo ou mais tarde... O juiz:
 Acho que est em ns fazermos vrias coisas. Armstrong:
 Nem sequer temos uma idia de quem possa ser... O juiz afagou o queixo e murmurou:
 Oh! eu no diria isso, sabe?
Armstrong olhou perplexo para o seu interlocutor.
 Quer dizer que o senhor sabe?
O Juiz Wargrave respondeu cautelosamente:
 Quanto a provas positivas, tais como so necessrias num tribunal, reconheo que no possuo 
nenhuma. Mas, encarando o caso em conjunto, quer me parecer que uma pessoa em particular est 
indicada de modo suficientemente claro. Sim,  o que me parece.
Armstrong olhou pasmado para ele.
 No compreendo  murmurou.

IV

Miss Brent subiu para o seu quarto.
Apanhou a Bblia e foi sentar-se junto  janela.
Abriu o livro, mas, aps um instante de hesitao, p-lo de lado. Dirigiu-se para o toucador e tirou de 
uma das gavetas um caderninho de notas de capa preta.
Abriu-o e comeou a escrever:

Aconteceu uma coisa terrvel. O Gen. Macarthur morreu. (Tem um primo casado com Elsie 
MacPherson.) No h dvida de que ele foi assassinado. Depois do almoo o juiz nos fez uma preleo 
interessantssima. Est convencido de que o assassino  um de ns. Isso quer dizer que um de ns est 
possudo por um demnio. Eu j o suspeitava. Qual de ns ser? Todos fazem esta pergunta a si mesmos. 
S eu sei...

Miss Brent ficou algum tempo sem se mover. Seus olhos tornaram-se vagos e enevoados. O lpis 
cambaleava como bbado entre os seus dedos. Em maisculas tremidas e desalinhadas, escreveu:
O NOME DO ASSASSINO  BEATRICE TAYLOR...
Seus olhos cerraram-se.
De sbito acordou, num sobressalto, e olhou para o caderno de notas. Com uma exclamao raivosa, 
riscou as garatujas desordenadas que formavam a ltima frase.
 Fui eu que escrevi isto?  disse em voz baixa.  Fui eu? Devo estar fiando louca...

V

A tormenta crescia de fria. O vento uivava contra os flancos da casa.
Todos se achavam na sala de estar, inertes, vigiando-se furtivamente uns aos outros.
Quando Rogers trouxe o aparelho de ch, todos se puseram em p de um salto.
 Posso fechar as cortinas? O ambiente ficar mais alegre  disse o criado.
Dado o consentimento, as cortinas foram fechadas e a luz acesa. A sala ficou mais alegre. As 
sombras dissiparam-se em parte. Com certeza, na manh seguinte a tormenta haveria passado e viria 
algum-... chegaria um barco...
 Vai servir o ch, Miss Brent?  perguntou Vera Claythorne.
A mulher mais idosa respondeu:
 No, faa-o voc, minha querida. O bule  muito pesado. E eu perdi duas meadas da minha l cor 
de cinza. To aborrecido...
Vera dirigiu-se para a mesa de ch. Houve um alegre tilintar de porcelanas. A normalidade voltava.
Ch! Bendito ch habitual de todas as tardes! Philip Lombard fez uma observao chistosa. Blore 
retrucou. O Dr. Armstrong contou uma histria engraada. O Juiz Wargrave, que ordinariamente detestava o 
ch, bebericava com ar de aprovao.
Foi nessa atmosfera repousada que entrou Rogers.
O mordomo estava aflito. Falou nervosamente, sem se dirigir a ningum em particular:
 Desculpe-me, senhor, mas algum sabe que fim levou a cortina do banheiro?
Lombard ergueu subitamente a cabea.
 A cortina do banheiro? Que diabo quer dizer, Rogers?
 Desapareceu, senhor, no est mais l. Eu andava pela casa fechando todas as cortinas, quando 
descobri que faltava a da pat... do banheiro.
 Isso foi esta manh?  perguntou o Juiz Wargrave.
 Foi, sim, senhor.
 Que espcie de cortina era?  quis saber Blore.
 De seda oleada escarlate, senhor. Combinava com os azulejos escarlates.
 E desapareceu?  disse Lombard.
 Desapareceu, senhor. Todos se entreolharam.
 Bem, afinal de contas, que tem isso?  falou Blore pesadamente.   uma coisa maluca, mas 
tudo o mais  assim... De qualquer maneira, no h motivo para nos preocuparmos. No se pode matar 
ningum com uma cortina de seda oleada. No se pensa mais nisso.
 Perfeitamente, muito obrigado, senhor  disse Rogers. O criado retirou-se cerrando a porta atrs 
de si. Dentro da sala, a mortalha de medo tornara a cair. Mais uma vez, puseram-se a vigiar sub-
repticiamente uns aos outros.

VI

O jantar foi servido, comido, e tirada a mesa. Uma refeio simples, consistindo sobretudo em 
alimentos enlatados.
Mais tarde, na sala de estar, a tenso foi tamanha que quase chegava a ser insuportvel.
s nove horas Emily Brent levantou-se, dizendo:
 Vou deitar-me.
 Eu tambm vou  secundou Vera.
As duas subiram a escada, escoltadas por Lombard e Blore. Estes detiveram-se no patamar e viram 
as mulheres entrar nos seus respectivos quartos e fechar a porta. Ouviram o rudo de duas chaves girando 
nas fechaduras e de dois ferrolhos.
Blore observou arreganhando os dentes:
 No  preciso avisar para que elas chaveiem as portas!
 Bem  disse Lombard  elas, pelo menos, esto garantidas por esta noite!
Philip desceu, seguido pelo ex-inspetor.

VII

Os quatro homens foram para a cama uma hora depois. Subiram juntos a escada. Rogers, da sala de 
jantar, onde estava preparando a mesa para o caf, viu-os subir. Ouviu que se detinham no patamar.
Ento a voz do juiz falou:-
 Acho desnecessrio recomendar aos senhores que fechem suas portas  chave.
 E, o que  mais  acrescentou Blore  que calcem o trinco com uma cadeira. H meios de abrir 
fechaduras por fora.
Lombard murmurou:
 Meu caro Blore, seu mal  saber demais!
Rogers saiu da sala de jantar e subiu cautelosamente at o meio da escada. Viu os quatro vultos 
atravessarem as quatro portas e ouviu o rudo de quatro chaves e quatro ferro-lhos. Sacudiu a cabea em 
sinal de aprovao.
 Est certo  resmungou.
Voltou  sala de jantar. Sim, tudo estava em ordem para a manh seguinte. Seus olhos demoraram-se 
na bandeja central de espelho com as sete figurinhas de porcelana.
Um sbito sorriso transformou-lhe o rosto.
 Vou tratar de fazer com que esta noite, pelo menos, ningum pregue peas  murmurou.
Atravessou a sala e chaveou a porta da copa. Depois saiu pela outra porta, que dava para o hall, 
passou-lhe a chave e meteu esta no bolso.
Apagou ento as luzes e subiu apressadamente a escada, dirigindo-se para o seu novo quarto de 
dormir.
S havia ali um esconderijo possvel: o alto guarda-roupa, que foi imediatamente revistado. Feito isso, 
Rogers chaveou e trancou a porta e preparou-se para dormir, dizendo com os seus botes:
 Esta noite no haver brinquedos de negrinho. J providenciei isso.


CAPITULO XI

I

Philip Lombard tinha o hbito de acordar ao romper do dia. Assim o fez nessa manh. Ergueu-se 
sobre o cotovelo e escutou. O vento continuava a soprar, embora tivesse diminudo um pouco. No ouviu 
nenhum rudo de chuva...
s oito horas o vento estava a soprar mais forte, mas Lombard no o ouviu. Dormia novamente.
s nove e meia, estava sentado na beira da cama, a olhar o seu relgio. Encostou-o no ouvido e seus 
lbios arregaaram-se no curioso sorriso de lobo que lhe era peculiar.
 Acho que chegou o momento de tomar uma iniciativa  disse em voz muito macia.
Faltavam vinte e cinco minutos para as dez quando foi bater na porta chaveada do quarto de Blore.
Este abriu-a cautelosamente. Tinha o cabelo em desalinho e os olhos inchados de sono.
 Ainda a dormir?  disse Lombard afavelmente.  Bem, isso mostra que voc tem a conscincia 
tranqila.
 Que h?  perguntou Blore.
 Algum j o chamou... ou lhe trouxe ch? Sabe que horas so?
Blore voltou a cabea e olhou para um pequeno relgio de viagem que estava  cabeceira da sua 
cama.
 Vinte para as dez. No sei como fui dormir at esta hora. Onde est Rogers?
  o caso de responder como o eco: onde?  disse Philip Lombard.
 Que quer dizer com isso?  perguntou o outro secamente.
 Quero dizer que Rogers est desaparecido. No se encontra no quarto dele nem em parte alguma. 
O fogo no foi aceso na cozinha.
Blore praguejou baixinho e disse:  '
 Onde raios estar ele? Nalgum lugar da ilha? Espere enquanto eu ponho uma roupa. Veja se os 
outros sabem alguma coisa.
Philip Lombard assentiu. Caminhou ao longo da fila de portas fechadas.
Encontrou Armstrong em p e quase inteiramente vestido. O Juiz Wargrave, como Blore, teve de ser 
acordado. Vera Claythorne estava vestida. O quarto de Emily Brent achava-se vazio.
O pequeno grupo deu uma volta pela casa. No quarto de Rogers, como j tinha verificado Lombard, 
no havia ningum. A cama estava desfeita e sua navalha, pincel e sabo achavam-se midos.
  certo que ele se levantou  disse Lombard. Vera perguntou numa voz baixa que procurava fazer 
segura e firme:
 No pensam que ele est... escondido nalguma parte...  nossa espera?
 Minha cara menina  disse Lombard  estou disposto a pensar qualquer coisa a respeito de 
qualquer um! Meu conselho  que continuemos todos juntos at encontr-lo.
 Ele deve estar a fora, nalgum lugar da ilha  opinou Armstrong.
Blore, que se havia juntado a eles, vestido mas ainda no barbeado, perguntou:
 Onde foi meter-se Miss Brent? Esse  outro mistrio... Mas, quando chegaram ao hall, Emily Brent 
vinha entrando pela porta da frente. Vestia um impermevel.
 O mar est agitado como nunca  disse ela.  Acho que nenhum barco sair hoje.
 Esteve caminhando sozinha pela ilha, Miss Brent?  perguntou Blore.  No v que  uma 
insensatez fazer isso?
Emily Brent respondeu:
 Garanto-lhe, Sr. Blore, que mantive uma extrema vigilncia.
Blore soltou um grunhido e continuou:
 Viu Rogers, por acaso? Miss Brent alou as sobrancelhas.
 Rogers? No, ainda no o vi esta manh. Por qu?
O Juiz Wargrave, barbeado, vestido e com a sua dentadura postia em posio, desceu a escada. 
Dirigiu-se para a porta aberta da sala de jantar.
 Ah! vejo que a mesa foi posta para o caf  observou. : Ele podia ter feito isso ontem de noite  
disse Lombard.
Todos entraram na sala, olhando para os pratos e talheres corretamente dispostos, para as xcaras 
enfileiradas no aparador, para as esteiras de feltro prontas para receber a cafeteira.
Foi Vera quem viu primeiro. Segurou o brao do juiz, e o aperto dos seus dedos atlticos fez o velho 
magistrado encolher-se.
 Os negros! Olhe!  gritou a moa.
Havia apenas seis figuras de porcelana no centro da mesa.

II

Encontraram-no pouco depois.
Estava na pequena lavanderia, ao fundo do ptio. Tinha estado a cortar gravetos para acender o fogo. 
Empunhava ainda a machadinha. Contra a porta achava-se encostado um machado maior, mais pesado, 
com o ferro manchado de vermelho escuro. Correspondia exatamente ao profundo ferimento na parte 
posterior da cabea de Rogers...

III

 Est perfeitamente claro  disse Armstrong.  O assassino deve ter vindo silenciosamente por 
trs dele, erguido o machado e descarregado o golpe na sua cabea quando ele estava curvado.
Blore ocupava-se com o cabo do machado, espalhando farinha sobre ele com o auxlio de uma peneira 
que trouxera da cozinha.
 Isso teria exigido grande fora, doutor?  perguntou o Juiz Wargrave.
Armstrong respondeu gravemente:
 Uma mulher poderia ter dado o golpe, se  a isso que se refere.
Correu um rpido olhar em volta. Vera Claythorne e Emily Brent tinham-se retirado para a cozinha.
 Para a moa, seria fcil...  um tipo atltico. Miss Brent tem uma aparncia de fragilidade, mas 
esse tipo franzino de mulher possui muitas vezes um grande vigor. E convm no esquecer que as pessoas 
mentalmente transtornadas tm uma fora de que ningum suspeita.
O juiz sacudiu pensativamente a cabea.
Blore ergueu-se sobre os joelhos com um suspiro, dizendo:
 No tem impresses digitais. O machado foi enxugado depois.
Ouviu-se uma risada. Os homens viraram-se repentinamente. Era Vera Claythorne, no ptio. Sacudida 
por violentos acessos de riso, a moa gritou numa voz aguda e estridente:
 Criam abelhas nesta ilha? Digam-me isso. Onde vamos encontrar uma colmia para brincar? Ah! 
ah!
Os outros fitavam-na sem compreender. Era como se aquela criatura assisada e bem-equilibrada 
tivesse endoidecido diante deles. Continuou na mesma voz aguda e forada:
 No me olhem desse modo! Como se pensassem que enlouqueci... Abelhas, colmias, abelhas! 
No compreendem? No leram aqueles versos idiotas? Esto l em cima em todos os quartos... foram 
postos ali para que os estudem! Se tivssemos cabea, teramos vindo diretamente aqui. Sete negrinhos 
vo rachar lenha... e o mais que segue. Sei tudo de cor, estou dizendo! Seis negrinhos de uma colmia 
fazem brinco...  por isso que estou perguntando: criam abelhas nesta ilha? No  engraado? 
Estupidamente engraado?
A moa comeou de novo a rir desenfreadamente. O Dr. Armstrong caminhou para ela, ergueu a mo 
e sentou-lhe um tapa no rosto.
Ela arquejou, soluou... e engoliu em seco. Ficou imvel alguns instantes, depois disse:
 Obrigada... Estou bem agora.
Sua voz voltara a ser calma e controlada  a voz de uma eficiente mestra de esportes.
Vera voltou-se e atravessou o ptio em direo  cozinha, dizendo:
 Miss Brent e eu estamos preparando o caf. Podem... trazer alguns gravetos para acender o fogo?
As marcas dos dedos do mdico destacavam-se em vermelho na sua face.
Quando ela entrou na cozinha, Blore observou:
 O senhor agiu com muito acerto, doutor.
 Tinha de fazer assim!  justificou-se Armstrong.  No podemos enfrentar casos de histeria, alm 
do mais.
 Ela no  um tipo histrico  disse Philip Lombard. Armstrong concordou.
 Oh! no. Uma moa s e equilibrada. Foi apenas o choque repentino. Isso pode acontecer a 
qualquer um.
Rogers havia rachado alguma lenha para o fogo antes que o assassinassem. Juntaram-na e levaram-
na para a cozinha. Vera e Emily Brent estavam atarefadas. Miss Brent limpava o borralho. Vera pelava o 
presunto.
 Obrigada  disse Emily Brent.  Seremos o mais rpidas que pudermos. Dentro de meia hora ou 
quarenta e cinco minutos estar pronto.  preciso esperar que a gua ferva primeiro.

IV

O ex-Inspetor Blore disse em voz baixa e rouca a Philip Lombard:
 Sabe o que eu estou pensando?
 Como voc vai diz-lo agora  respondeu o outro  no vale a pena fazer fora para adivinhar.
O ex-inspetor era um homem srio. Qualquer aluso chistosa lhe era incompreensvel. Continuou a 
falar pesadamente:
 Houve um caso na Amrica. Um velho e a mulher... ambos assassinados com um machado. No 
meio da manh. Ningum na casa, a no ser a filha e a criada. A criada, ficou provado, no podia ter sido. 
A filha era uma respeitvel solteirona de meia-idade. Acharam incrvel, to incrvel que a absolveram. Mas 
nunca encontraram outra explicao.
Blore fez uma pausa.
 Pensei nesse caso quando vi o machado... e depois, quando entrei na cozinha e a vi to calma e 
to correta. Nem um fio de cabelo fora do lugar! Quanto  moa, ficar assim histrica... bem, isso  
natural...  o que se podia esperar, no acha?
 Pode ser  respondeu laconicamente Philip Lombard. Blore continuou:
 Mas a outra! To limpa e arranjadinha, metida naquele avental... da Sra. Rogers, suponho... e 
dizendo: "O caf estar pronto daqui a meia hora pouco mais ou menos". Se quer saber, essa mulher est 
doida varrida! Muitas solteironas velhas ficam assim... no que se ponham a cometer homicdios em 
massa, mas ficam com a cabea transtornada. Ela, infelizmente, deu para isso. Mania religiosa... pensa 
que  um instrumento de Deus ou qualquer coisa parecida! Ela fica no quarto a ler a Bblia, sabe?
Philip Lombard suspirou e disse:
 Isso dificilmente ser uma prova de desequilbrio mental, Blore.
Mas Blore prosseguiu, laborioso e perseverante:
 E, alm do mais, andava l fora, de capa de borracha... Diz que tinha descido para olhar o mar.
O outro abanou a cabea.
 Rogers foi morto quando estava cortando lenha  isto , quando fazia a primeira coisa depois de 
se levantar. A Brent no precisava ficar caminhando na ilha durante horas depois. Se voc me pergunta, a 
pessoa que matou Rogers teria todo o cuidado em meter-se de novo na cama e ficar roncando.
 A coisa no  essa, Sr. Lombard  disse Blore.  Se a mulher fosse inocente, estaria muito 
assustada para andar vagueando sozinha na ilha. s faria isso se soubesse que no tinha nada a temer. 
Em outras palavras, se ela prpria fosse a criminosa.
  um bom argumento  volveu Lombard.  , sim, eu no tinha pensado nisso.
E acrescentou com um sorrisinho:
 Ainda bem que voc ainda no suspeita de mim. Blore respondeu um tanto envergonhado:
 A princpio desconfiei do senhor. Aquele revlver... e a histria esquisita que contou... ou no 
contou. Mas compreendo agora que aquilo era simples demais.  Fez uma pausa e acrescentou:  
Espero que pense o mesmo a meu respeito.
Philip respondeu, pensativo:
 Posso estar enganado,  claro, mas no acho que voc tenha suficiente imaginao para planejar 
uma coisa destas. Tudo quanto posso dizer  que, se voc  o criminoso,  um excelente ator e tiro-lhe o 
meu chapu.
E, baixando o tom da voz:
 Aqui entre ns, Blore, e levando em conta que seremos provavelmente um par de cadveres antes 
que se passe outro dia, a histria daquele falso testemunho  verdadeira, no ?
Blore mudou de p, inquieto, e respondeu afinal:
 Parece que agora j no faz muita diferena. Bom, l vai. Landor estava inocente, de fato. O bando 
me passou a bola e combinamos encan-lo por uns tempos. Mas olhe l, eu no admitiria isso...
... diante de testemunhas  completou Lombard arreganhando os dentes.  Isso fica entre ns. 
Bem, espero que lhe tenha rendido uma boa bolada.
 No fiz tanto como esperava. Gente mesquinha, aquele bando de Purcell. Mas fui promovido.
 E Landor apanhou trabalhos forados e morreu na cadeia.
 Eu no podia prever que ele ia morrer, podia?  disse Blore.
 No, isso foi azar seu.
 Meu? Dele, quer dizer.
 Seu, tambm. Porque, em resultado disso, parece que sua vida vai ser desagradavelmente 
abreviada.
 Eu?  tornou Blore, encarando-o.  Pensa que vou ter o mesmo fim que Rogers e os outros? No 
mesmo! Estou cuidando muito bem da minha pessoa, posso garantir-lhe.
 Bem, bem... No sou amigo de apostas  disse Lombard.  E, de qualquer maneira, estando 
voc morto eu no seria pago.
 Olhe aqui, Sr. Lombard: que quer dizer com isso? Lombard mostrou os dentes e respondeu:
 Quero dizer, meu caro Blore, que na minha opinio voc no tem chance de escapar!
 O qu?
 Sua falta de imaginao far de voc a vtima ideal. Um criminoso com a imaginao de U. N. Owen 
pode dar tantas voltas em torno de voc quantas ele  ou ela  quiser.
A cara de Blore ficou escarlate.
 E o senhor?  perguntou, furioso.
A expresso de Philip Lombard fez-se dura e perigosa.
 Eu c tenho bastante imaginao. J estive em lugares perigosos antes e consegui me safar! 
Penso... no direi mais do que isso, mas penso que me safarei deste!

V

Os ovos chiavam na frigideira. Vera pensava consigo enquanto fazia torradas:
"Por que me portei como uma imbecil histrica? Isso foi um erro. Conserva a calma, menina, conserva 
a calma."
Ela, que sempre se orgulhara da sua fleuma e lucidez!
Miss Claythorne foi maravilhosa... no perdeu a presena de esprito... comeou imediatamente a 
nadar emps de Cyril.
Por que pensar nisso agora? Tudo isso estava acabado, para sempre acabado... Cyril desaparecera 
muito antes que ela se tivesse aproximado do penedo. Sentira a corrente a pux-la, a arrast-la para o mar. 
Deixara-se levar, nadando tranqilamente, boiando... at que finalmente chegou o barco...
Haviam elogiado a sua coragem e sangue-frio...
Mas Hugo, no... Hugo apenas olhara para ela...
Deus, como doa, mesmo agora, pensar em Hugo...
Onde estava ele? Que fazia? Estava noivo... casado?
 Vera, esse po est queimando  preveniu asperamente Emily Brent.
 Oh!  verdade, Miss Brent! Sinto muito... Que estupidez a minha!
Emily Brent retirou o ltimo ovo da banha que pulava na frigideira.
Vera enfiou um novo pedao de po no tostador e disse com curiosidade:
 Miss Brent  de uma calma admirvel.
A solteirona comprimiu os lbios e respondeu:
 Fui ensinada a dominar os nervos e nunca perder a cabea.
Vera pensou maquinalmente:
"Impulsos infantis reprimidos... Isso explica muita coisa..."
 No tem medo?  perguntou; e acrescentou depois de uma pausa:  Ou no se importa de 
morrer?
Morrer! Foi como se uma aguada verrumazinha houvesse perfurado a massa slida e congelada do 
crebro de Emily Brent. Morrer? Mas ela no ia morrer! Os outros morreriam, sim... porm no ela, Emily 
Brent! Essa menina no compreendia! Emily no tinha medo, naturalmente  nenhum Brent jamais soube 
o que fosse medo. Todos os homens da famlia eram soldados. Enfrentavam a morte sem pestanejar. 
Viviam honradamente, e ela, Emily Brent, vivera da mesma maneira... Nunca fizera nada de que se 
envergonhar... E. por conseguinte e naturalmente, no ia morrer...
"O senhor zela pelos seus." "No recears o terror que anda  noite, nem a flecha que voa de dia..." 
Era dia agora  no havia terror. Nenhum de ns sair desta ilha. Quem dissera isso? O Gen. Macarthur, 
evidentemente, cujo primo casara com Elsie MacPherson. Parecia no se importar. Parecia, at, alegrar-se 
com a idia! Era perverso, era quase mpio pensar desse modo. Algumas pessoas davam to pouco valor  
vida que chegavam a matar-se. Beatrice Taylor... Na noite passada sonhara com Beatrice, que ela estava l 
fora a apertar o rosto contra a vidraa, gemendo e pedindo que a deixassem entrar. Mas Emily Brent no 
quisera deix-la entrar. Porque, se o fizesse, algo terrvel aconteceria...
Emily recomps-se com um sobressalto. A moa olhava para ela com um ar estranho.
 Est tudo pronto, no?  disse vivamente a solteirona.  Vamos levar para a mesa.

VI

Curiosa refeio foi o caf. Todos se mostravam muito polidos.
 Trago-lhe mais um pouco de caf, Miss Brent?
 Miss Claythorne, uma fatia de presunto?
 Outra torrada?
Seis pessoas. Exteriormente, todas normais e senhoras de si.
Por dentro? Pensamentos que corriam em crculo como esquilos numa gaiola.
"Que vir depois? Quem ser o prximo?"
"Quem? Qual?"
"Ser que d certo? Ser mesmo? Vale a pena experimentar. Se houver tempo... Meu Deus, se houver 
tempo..."
"Mania religiosa,  o que ... Olhando para ela, contudo, a gente mal pode acreditar... Estarei 
enganado?..."
"Isso  doido... tudo  doido. Estou perdendo o juzo. L desaparecendo... cortinas vermelhas de 
seda... no tem p nem cabea. No posso atinar com a razo disso..."
"O grandssimo tolo... Acreditou em todas as patranhas que eu lhe disse. Foi fcil. Mas devo ter 
cuidado, muito cuidado."
"Seis figurinhas de porcelana... s seis... Quantas haver esta noite?..."
 Quem quer o ltimo ovo?
 Marmelada?
 Obrigado, posso cortar-lhe uma fatia de po?
Seis pessoas, portando-se normalmente  mesa do caf...





CAPITULO XII

I

Terminara a refeio.
O Juiz Wargrave consertou a garganta e disse numa vozinha autoritria:
 Seria aconselhvel, penso, que nos reunssemos para discutir a situao. Dentro de meia hora na 
sala, est bem?
Todos emitiram sons de anuncia. Vera comeou a empilhar os pratos.
 Vou tirar a mesa e lavar a loua  disse ela.
 Ns levaremos a loua para a copa  ofereceu Philip Lombard.
 Obrigada.
Emily Brent levantou-se e tornou a sentar, dizendo:
 Ora esta!
 Alguma coisa, Miss Brent?  perguntou o juiz.
 Desculpem-me  respondeu ela.  Gostaria de ajudar Miss Claythorne, mas no sei o que se 
passa comigo. Estou um pouco tonta.
 Tonta, hem?  O Dr. Armstrong caminhou para ela.  Choque retardado. Eu lhe posso dar alguma 
coisa para...
 No!
A palavra saiu-lhe dos lbios como um obus que explode. Todos se sobressaltaram. O Dr. Armstrong 
corou violentamente.
No havia como enganar-se a respeito do medo e da suspeita que se pintaram no rosto da mulher.
 Como quiser, Miss Brent  disse o mdico, formalizado.
 No desejo tomar nada... absolutamente nada. Vou ficar sentada aqui, bem tranqila, at que 
passe a tontura.
Acabaram de tirar a mesa.
 Eu lhe darei uma mo, Miss Claythorne  disse Blore.  Sou um homem de hbitos caseiros.
 Muito obrigada.
Emily Brent ficou a ss na sala de jantar.
Durante alguns instantes ouviu um ligeiro murmrio de vozes, proveniente da cozinha.
A tontura estava passando. Sentia-se sonolenta agora, como se facilmente pudesse cair no sono.
Zumbiam-lhe os ouvidos... ou seria um verdadeiro zumbido na sala?
"Parece uma abelha... uma mamangava", pensou ela.
Pouco depois avistou a abelha. Estava a subir pela vidraa.
Vera Claythorne tinha falado de abelhas nessa manh.
Abelhas e colmias...
Ela gostava de mel. Mel no favo, pe-se dentro de um saquinho de musselina e espreme-se. Vai 
pingando, pingando, pingando...
Havia algum na sala... algum encharcado e a pingar... Beatrice Taylor sada do rio...
Bastava virar a cabea para v-la.
Mas no podia virar a cabea...
Se ela gritasse...
Mas no podia gritar...
No havia ningum mais na casa. Estava sozinha...
Ouviu passos... passos macios e arrastados que se aproximavam por trs dela. Os passos trpegos 
da afogada...
Um cheiro de umidade chegava-lhe s narinas...
Na vidraa, a abelha zumbia... zumbia...
Ento sentiu a ferroada.
O ferro da abelha no lado do pescoo...

II

Na sala, todos esperavam Miss Brent.
 Vou cham-la?  perguntou Vera Claythorne.
Blore apressou-se a det-la:
 Um momentinho!
Vera tornou a sentar-se. Todos se voltaram para Blore com uma interrogao nos olhos.
 Escutem, todos  disse ele.  Minha opinio  a seguinte: no precisamos ir alm da sala de 
jantar para encontrar o autor destas mortes. Sou capaz de jurar que essa mulher  a pessoa que 
procuramos!
 E o motivo?  perguntou Armstrong.
 Mania religiosa. Que diz o doutor?
  perfeitamente possvel. Nada tenho que objetar a isso. Mas no temos provas, como sabe.
 Estava muito esquisita na cozinha, quando aprontvamos o caf  disse Vera.  Os olhos dela...
A moa teve um arrepio.
 No se pode julg-la s por isso  objetou Lombard.  Ns todos estamos um pouco 
transtornados!
Blore:
 H outra coisa. Foi ela a nica que no deu nenhuma explicao depois que ouvimos aquele disco. 
Por qu? Simplesmente porque no tinha explicao para dar.
Vera mexeu-se na cadeira, dizendo:
 Isso no  bem verdade. Ela me contou... depois.
 Que lhe contou ela, Miss Claythorne?  perguntou Wargrave.
Vera repetiu a histria de Beatrice Taylor. O Juiz Wargrave observou:
 Uma histria perfeitamente plausvel. Pessoalmente, eu no teria dificuldade em aceit-la. Diga-me, 
Miss Claythorne: ela parecia perturbada por um sentimento de culpa ou de remorso devido  atitude que 
tomara no caso?
Vera:
 De modo nenhum. Estava completamente tranqila e impassvel.
Blore:
 Tm coraes de pedra essas solteironas virtuosas! Em geral  inveja!
O juiz:
 Faltam cinco minutos para as onze. Acho que devemos chamar Miss Brent para que se rena ao 
nosso conclave.
 No vai tomar alguma medida?  perguntou Blore.
 No vejo que medidas se possa tomar agora. Nossas suspeitas so, de momento, apenas 
suspeitas. Contudo, pedirei ao Dr. Armstrong que observe muito cuidadosamente a conduta de Miss Brent. 
Vamos  sala de jantar.
Encontraram Emily Brent sentada na mesma cadeira em que a tinham deixado. Por trs dela, nada 
notaram de anormal, a no ser que parecia no os ter sentido entrar.
Viram-lhe ento o rosto  congesto de sangue, os lbios violceos e os olhos a saltar das rbitas.
 Meu Deus  exclamou Blore -- est morta!



III

 Mais um de ns que  absolvido... demasiado tarde!  disse a vozinha tranqila do Juiz Wargrave.
Armstrong estava curvado sobre a morta. Cheirou-lhe os lbios, abanou a cabea e examinou-lhe as 
plpebras. Lombard perguntou com impacincia:
 De que morreu ela, doutor? Estava bem quando a deixamos aqui!
A ateno de Armstrong fixara-se numa marca do lado direito do pescoo.
  a marca de uma seringa hipodrmica  disse ele. Ouviu-se um zumbido perto da janela. Vera 
exclamou:
 Olhem... uma abelha! Lembram-se do que eu disse esta manh?
 No foi essa abelha que a ferroou!  disse o mdico, de cenho fechado.  Uma mo humana foi 
que empunhou a seringa.
 Que veneno foi injetado?  perguntou o juiz.
  primeira vista, um dos cianetos. Provavelmente cianeto de potssio, como no caso de Anthony 
Marston. Ela deve ter morrido quase imediatamente de asfixia.
 Mas essa abelha?  gritou Vera.  No pode ser coincidncia!
 Oh! no, no  coincidncia  volveu Lombard com ar soturno.   um pequeno toque de cor local 
dado pelo nosso assassino! Um animal brincalho. Gosta de seguir o mximo possvel aqueles 
excomungados versos!
Pela primeira vez sua voz parecia ter perdido a firmeza, tornando-se quase estridente. Como se os 
seus nervos, temperados por uma longa carreira de aventuras e empresas perigosas, tivessem afinal 
cedido.
 Isso  doido!  exclamou com violncia.  Absolutamente doido! Ns todos estamos doidos!
O juiz contraps calmamente:
 Creio que ainda guardamos a capacidade de raciocinar. Algum trouxe uma seringa hipodrmica 
para esta casa?
O Dr. Armstrong endireitou o corpo e respondeu numa voz no muito segura:
 Sim, eu trouxe.
Quatro pares de olhos fixaram-se nele. O mdico enristou-se contra a profunda suspeio hostil que 
havia naqueles olhos.
 Sempre ando com uma  disse.  A maioria dos mdicos faz o mesmo.
O Juiz Wargrave disse em tom calmo:
 Perfeitamente. Quer dizer-nos onde est a seringa, doutor?
 Na maleta que tenho no quarto.
 Talvez convenha verificar esse fato  disse Wargrave. Os cinco subiram a escada, numa procisso 
silenciosa.
O contedo da maleta foi despejado no cho. A seringa hipodrmica no se achava ali.

IV

 Algum deve t-la tirado!  disse Armstrong violentamente.
Houve um silncio no quarto.
Armstrong estava de costas voltadas para a janela. Quatro pares de olhos fixavam-se nele, carregados 
de suspeita e acusao. O mdico olhou de Wargrave para Vera e repetiu desamparadamente, em voz 
fraca:
 Digo-lhes que algum deve t-la tirado.
Blore estava olhando para Lombard, que lhe devolvia a mirada.
 Somos cinco aqui neste quarto  disse o juiz.  Um de ns  um assassino. A situao est 
repleta de grave perigo. Tudo deve ser feito a fim de salvaguardar os quatro de ns que esto inocentes. 
Pergunto-lhe agora, Dr. Armstrong: que drogas tem em seu poder?
Armstrong:
 Tenho aqui um pequeno estojo de urgncia. Pode examin-lo. Encontrar alguns soporferos  
comprimidos de trional e sulfonal  uma caixinha de brometo, bicarbonato de sdio, aspirina. Nada mais. 
No carrego cianeto comigo.
O juiz:
 Eu tambm tenho alguns comprimidos de suporfero, creio que sulfonal. Presumo que, ministrados 
em dose suficientemente grande, seriam fatais. O Sr. Lombard est de posse de um revlver.
 E que tem isso?  replicou Lombard.
 Apenas o seguinte: proponho que o sortimento de drogas do doutor, os meus comprimidos de 
sulfona, o seu revlver e tudo mais que for droga ou arma de fogo seja reunido e colocado em lugar seguro. 
E que, feito isso, cada um de ns se submeta a uma busca  tanto em nossas pessoas como em nossos 
pertences.
 Raios me partam se eu entregar o meu revlver!  disse Lombard.
Wargrave retrucou com aspereza:
 O Sr. Lombard  um homem moo, forte e vigoroso, mas o ex-Inspetor Blore tambm  um homem 
de fsico possante. No sei qual seria o resultado de uma luta corporal entre os dois, mas posso dizer-lhe o 
seguinte: do lado de Blore, secundando-o com todos os meios de que dispomos, estaremos eu, o Dr. 
Armstrong e Miss Claythorne. H de compreender, por conseguinte, que as probabilidades so bastante 
grandes contra o senhor, caso optar pela resistncia.
Lombard atirou a cabea para trs e mostrou os dentes num ricto de fera acossada.
 Est bem, ento, j que tem tudo planejado...
O Juiz Wargrave sacudiu a cabea em sinal de aprovao.
 O senhor  um moo assisado. Onde est o seu revlver?
 Na gaveta da minha mesa de cabeceira.
 timo.
 Vou busc-lo.
 Acho conveniente irmos todos juntos.
Philip disse com um sorriso que era antes um ranger de dentes:
 Sujeito desconfiado, hem?
Foram pelo corredor at o quarto de Lombard. Este caminhou para a mesinha de cabeceira e abriu a 
gaveta com um sacalo.
Depois, recuou proferindo uma praga. A gaveta estava vazia.

V

 Satisfeitos?  perguntou Lombard.
Estava nu em plo, e tanto ele como o seu quarto tinham sido meticulosamente revistados pelos 
outros trs homens. Vera Claythorne esperava l fora, no corredor.
A metdica busca prosseguiu. Cada um por sua vez, Armstrong, o juiz e Blore submeteram-se ao 
mesmo exame.
Os quatro homens saram do quarto de Blore e aproximaram-se de Vera. Foi o juiz quem falou.
 Espero que compreenda, Miss Claythorne, que no podemos fazer excees. Esse revlver precisa 
ser encontrado. A senhorita trouxe consigo um traje de banho, presumo.
Vera fez que sim com a cabea.
 Ento lhe pedirei que entre no seu quarto, ponha esse traje e volte aqui.
Vera entrou no quarto e fechou a porta. Menos de um minuto depois tornou a aparecer, vestindo uma 
roupa de banho muito justa, de seda pregueada.
Wargrave fez um sinal de aprovao.
 Obrigado, Miss Claythorne. Agora, se quiser ficar aqui, vamos revistar o seu quarto.
Vera aguardou pacientemente no corredor at que os outros voltassem. Depois entrou, tornou a mudar 
de roupa e foi ter com os quatro homens, que a esperavam.
 Temos agora certeza de uma coisa  disse o juiz.  No existem armas ou drogas mortais em 
poder de nenhum de ns cinco. Isso j  um passo andado. Agora vamos colocar as drogas em lugar 
seguro. H, se no me engano, uma caixa de talheres na copa.
 Tudo isso est muito bem  observou Blore  mas quem vai ficar com a chave? O senhor, 
suponho.
O Juiz Wargrave no deu resposta.
Desceu para a copa, seguido pelos outros. Havia ali uma pequena caixa destinada a guardar loua e 
prataria. Sob a direo do juiz, as vrias drogas foram colocadas nessa caixa e fechadas a chave. Depois, 
ainda de acordo com as instrues de Wargrave, a caixa foi posta numa prateleira do armrio, que, por sua 
vez, foi tambm chaveado. O juiz deu ento a chave da caixa a Philip Lombard e a do armrio a Blore, 
dizendo:
 Os senhores dois so os mais fortes fisicamente. Seria difcil a qualquer um tomar a chave ao 
outro. Para qualquer dos restantes, isso seria impossvel. Arrombar o armrio ou quebrar a caixa seria uma 
coisa complicada e ruidosa, que mal poderia ser posta em prtica sem chamar a ateno.
O magistrado fez uma pausa e continuou:
 Resta-nos ainda um grave problema: que fim levou o revlver do Sr. Lombard?
 Parece-me que o dono  a pessoa mais indicada para saber disso  sugeriu Blore.
As narinas de Philip Lombard ficaram brancas.
 Maldito cabeudo! J lhe disse que me roubaram!
 Quando foi que o viu pela ltima vez?  perguntou Wargrave.
 Ontem de noite. Estava na gaveta da mesinha de cabeceira quando me deitei...  mo, para 
qualquer eventualidade.
O juiz aprovou com a cabea e disse:
 Deve ter sido tirado esta manh, durante a confuso da procura de Rogers, ou depois que se 
encontrou o corpo.
 Deve estar escondido em algum lugar da casa  disse Vera.  Temos que procur-lo.
Wargrave afagava o queixo.
 Duvido que a busca d algum resultado. Nosso assassino teve tempo de sobra para descobrir um 
bom esconderijo. No creio que seja fcil achar esse revlver.
Blore interveio, convicto:
 No sei onde o revlver est, mas aposto que sei onde est outra coisa: aquela seringa 
hipodrmica. Sigam-me.
O ex-inspetor abriu a porta da frente e contornou a esquina da casa, acompanhado pelos outros.
Um pouco alm da janela da sala de jantar, Blore achou a seringa. Ao lado dela via-se uma figura de 
porcelana esmigalhada  o quinto negrinho.
Blore disse numa voz satisfeita:
 O nico lugar onde podia estar. Depois de mata-la, o indivduo abriu a janela, atirou fora a seringa, 
apanhou uma figurinha na mesa e atirou-a tambm.
No havia impresses digitais na seringa, pois tora cuidadosamente enxugada.
 Agora vamos procurar o revlver  disse Vera em
tom resoluto.
 Perfeitamente  volveu o juiz.  Mas, ao fazer isso, tenhamos o cuidado de nos conservar juntos. 
Lembrem-se de que, se nos separarmos, daremos uma oportunidade ao assassino.
A casa foi minuciosamente revistada do sto ate as adegas, mas em pura perda de tempo. O revlver 
continuava desaparecido.





CAPITULO XIII

I

Um de ns... um de ns... um de ns...
Trs palavras, infindavelmente repetidas, ressoando hora aps hora nos crebros excitados.
Cinco pessoas... cinco pessoas atemorizadas. Cinco pessoas que se entrevigiavam e que agora mal 
se davam ao trabalho de esconder o seu estado de tenso nervosa.
Pouco se cuidava agora de manter as aparncias ou o verniz da conversao polida. Eram cinco 
inimigos ligados por um instinto comum de conservao.
E, de sbito, todos eles pareceram menos do que seres humanos. Estavam revertendo a tipos mais 
bestiais. Como uma velha tartaruga precavida, o Juiz Wargrave ficava sentado, imvel, encurvado, os olhos 
vivos e alertas. O ex-Inspetor Blore parecia mais grosseiro e desajeitado. Seu andar era o de um vagaroso 
animal palmpede. Tinha os olhos injetados. A expresso de seu rosto era um misto de ferocidade e 
estupidez. Era como um bicho acossado, pronto a arremeter contra os seus perseguidores. A inteligncia 
de Philip Lombard parecia ter-se aguado ao invs de diminuir. Seus ouvidos registravam o menor som. Seu 
andar era mais rpido e leve, o corpo mais flexvel e gracioso. E sorria com freqncia, arregaando os 
lbios e mostrando os dentes compridos e brancos.
Vera Claythorne estava muito silenciosa. Ficava a maior parte do tempo encolhida numa cadeira, 
olhando o vazio diante de si. Parecia aturdida. Dava a impresso de um pssaro que bateu contra a vidraa 
e  apanhado por uma mo humana. Agacha-se ali, aterrado, incapaz de movimento, esperando salvar-se 
pela imobilidade.
Armstrong achava-se num deplorvel estado de nervos. Retorcia-se. Tremiam-lhe as mos. Acendia 
cigarro aps cigarro e jogava-os fora quase imediatamente. A inao forada do grupo parecia oprimi-lo 
mais do que aos outros. De quando em quando irrompia numa torrente de dissertaes nervosas.
 No... no devamos ficar aqui sentados sem fazer nada! Deve haver alguma coisa... Seguramente, 
seguramente h alguma coisa que possamos fazer. Se acendssemos uma grande fogueira?
 Com este tempo?  fez Blore pesadamente. Recomeara a chover forte. O vento soprava em 
rajadas intermitentes. O rudo depressivo do martelar da chuva quase os punha doidos.
De tcito acordo, haviam adotado um plano de campanha. Todos ficaram sentados no vasto salo. S 
uma pessoa deixava a pea de cada vez. As outras quatro esperavam at que a quinta retornasse.
  apenas uma questo de tempo  disse Lombard.  A chuva passar. Ento poderemos fazer 
alguma coisa... sinais... acender fogueiras... construir... uma balsa... qualquer coisa!
Com uma sbita gargalhada, Armstrong exclamou:
 Questo de tempo... Tempo? No dispomos de tempo! Todos estaremos mortos...
O Juiz Wargrave falou na sua vozinha clara e cheia de ardente resoluo:
 No, se formos vigilantes. Devemos estar sempre alerta...
O almoo foi devidamente comido... mas sem nenhuma formalidade. Todos tinham ido para a cozinha. 
Na despensa acharam grande quantidade de alimentos em conserva. Abriram uma lata de lngua e duas de 
frutas. Comeram em p, ao redor da mesa da cozinha. Depois, em grupo cerrado, voltaram ao salo... para 
ali ficarem sentados, vigiando-se mutuamente.
J agora, os pensamentos que lhes passavam pelo crebro eram mrbidos, anormais, febris...
" Armstrong... Naquela hora vi-o olhar de soslaio para mim... seus olhos so de louco... Talvez nem 
seja mdico, afinal de contas... Claro,  isso mesmo!... Um louco fugido de algum sanatrio, fingindo de 
doutor... Essa  que  a verdade... Digo a eles?... Grito?... No, no convm p-lo em guarda... Alm 
disso, s vezes ele parece to normal... Que horas so? Apenas trs e um quarto... Oh! meu Deus, eu 
tambm vou enlouquecer... Sim,  Armstrong... Est me observando agora..."
"A mim  que eles no apanham! Sei cuidar de mim mesmo... J estive em lugares perigosos... Onde 
diabo est esse revlver?... Quem o tirou?... Quem est com ele?... Ningum o tem... sabemos disso. 
Fomos todos revistados... Ningum pode t-lo consigo... Mas algum sabe onde ele est..."
"Eles esto ficando doidos... todos vo ficar doidos... Com medo da morte... todos tm medo da 
morte... eu mesmo tenho medo da morte... Sim, mas isso no impede que a morte venha... 'O fretro est 
 porta, senhor.' Onde foi que li isso? A moa... vou vigi-la. Sim, vou vigiar essa moa..."
 "Vinte para as quatro... apenas vinte para as quatro... talvez o relgio tenha parado... No 
compreendo... no, no compreendo... Uma coisa dessas no pode acontecer... e est acontecendo... Por 
que no nos acordamos? Acordar... D^a do Juzo... No, isso no! Se ao menos eu pudesse refletir... 
Minha cabea... alguma coisa est acontecendo  minha cabea... vai estourar... vai rachar-se ao meio... 
uma coisa dessas no pode acontecer... Que horas so? Oh! meu Deus, apenas um quarto para as 
quatro."
"Devo manter a presena de esprito... devo manter a presena de esprito... contanto que mantenha a 
presena de esprito... - Tudo est perfeitamente claro... tudo previsto. Mas ningum deve suspeitar. Talvez 
d certo! Qual? Eis a questo... qual? Penso... sim, quer me parecer... sim: ele."
Quando o relgio bateu cinco horas, todos estremeceram.
 Algum... quer ch?  perguntou Vera. Houve um momento de silncio.
 Eu tomaria uma xcara  disse Blore. Vera levantou-se, dizendo:
 Vou faz-lo. Podem ficar todos aqui. O Juiz Wargrave ponderou suavemente:
 Acho, minha cara senhorita, que todos ns preferiramos ir assistir  preparao desse ch.
Vera encarou-o e soltou uma risada breve, um tanto histrica.
 Naturalmente! Todos preferem!
Cinco pessoas foram  cozinha. O ch foi feito e tomado por Vera e Blore. Os outros trs beberam 
usque  abrindo uma garrafa intata e usando um sifo que tiraram da embalagem ainda pregada.
O juiz murmurou com um sorriso de rptil:
 Devemos ter muito cuidado...
Voltaram para a sala. Embora fosse vero, a pea estava escura. Lombard acionou o comutador, mas 
as lmpadas no acenderam.
 Claro!  disse ele.  O motor no trabalhou hoje, Rogers no estava l para tratar disso.
Depois de breve hesitao, props:
 Acho que podemos faz-lo funcionar.
 Vi um pacote de velas na despensa  disse o juiz.   melhor us-las.
Philip Lombard saiu. Os outros quatro ficaram sentados a vigiar-se.
Philip voltou com um pacote de velas e uma pilha de pires. Cinco velas foram acesas e distribudas 
pela sala.
Faltava um quarto para as seis horas.

II

s seis e vinte, Vera sentiu que no suportaria mais continuar sentada ali. Resolveu ir ao seu quarto e 
banhar a cabea e as tmporas doloridas em gua fria.
Levantou-se e caminhou para a porta. Depois, lembrando-se, voltou e tirou uma vela do pacote. 
Acendeu-a, deixou pingar um pouco de cera num pires e prendeu a vela firmemente neste. Saiu ento da 
sala, fechando a porta atrs de si e deixando l dentro os quatro homens. Subiu a escada e caminhou pelo 
corredor at o seu quarto.
Ao abrir a porta estacou subitamente, petrificada.
Suas narinas fremiram.
O mar... O cheiro do mar em St. Tredennick.
Era isso mesmo. No podia estar enganada. Naturalmente, numa ilha sente-se o cheiro do mar, mas 
aquele era diferente. Era o cheiro da praia naquele dia, com a mar baixa e as rochas cobertas de algas 
secando ao sol.
Posso nadar at a ilha, Miss Claythorne?
Por que no posso nadar at a ilha?...
Pirralho detestvel, cheio de vontades, sempre a choramingar! Se no fosse ele, Hugo seria rico... 
poderia casar com a moa a quem amava...
Hugo...
Com toda a certeza... seguramente... Hugo estava ao seu lado? No, esperando por ela no quarto...
Vera avanou um passo. A chama da vela foi apanhada pela corrente de ar vinda da janela. Vacilou e 
apagou-se...
No escuro, ela sentiu um medo sbito...
 No sejas tola  admoestou a si mesma.  No h nenhum perigo. Eles esto l embaixo, todos 
os quatro. No h ningum no quarto. No pode haver. Ests imaginando coisas, minha menina.
Mas aquele cheiro  aquele cheiro da praia de St. Tredennick... aquilo no era imaginao. Era real.
E havia mesmo algum no quarto... Tinha ouvido um levssimo rudo  certamente ouvira alguma 
coisa...
Nesse momento, achando-se ela imvel no meio do quarto,  escuta  uma mo fria e pegajosa 
tocou-lhe a garganta... uma mo molhada, cheirando a mar...

III

Vera gritou. Gritava, gritava... lanava uivos de terror indescritvel... desesperados e doidos pedidos de 
socorro.
No ouviu os rudos l embaixo, uma cadeira derribada, uma porta que se abria, os ps dos homens 
subindo a escada a correr. S tinha conscincia do seu supremo terror.
Depois, devolvendo-lhe a sanidade, luzes bruxulearam no retngulo da porta... velas... homens a entrar 
precipitadamente no quarto.
 Que diabo de histria  esta?
 Que foi que aconteceu?
 Deus do cu, que houve?
Vera tremeu, deu um passo  frente e caiu no cho.
Percebeu, vagamente, que algum se curvava sobre ela, sentava-a e forava-a a baixar a cabea at o 
nvel dos joelhos.
Depois, a uma exclamao sbita  "Meu Deus, olhem isto!"  Vera recobrou os sentidos. Abriu os 
olhos e ergueu a cabea. Viu, ento, o que os homens estavam examinando  luz das velas.
Do teto pendia uma larga fita de alga molhada. Fora aquilo que, na escurido, lhe roara o pescoo. 
Fora aquilo que ela havia tomado por uma mo pegajosa, uma mo de afogado que voltava do reino dos 
mortos para tirar-lhe a vida!
Desatou a rir histericamente.
 Era uma alga!... Uma alga, apenas... e da  que vinha o cheiro...
Foi novamente tomada de vertigem, com sucessivos acessos de vmito. Mais uma vez, algum a 
forou a baixar a cabea at os joelhos.
Pareceram decorrer milnios. Estavam lhe oferecendo alguma coisa para beber  apertando um copo 
contra os seus lbios. Sentiu o cheiro do conhaque.
Ia beber, cheia de gratido, quando, de sbito, ressoou-lhe no crebro uma nota de advertncia, qual 
um sino de alarma. Sentou o corpo no cho e empurrou o copo para longe de si.
 De onde veio isto?  perguntou bruscamente. Respondeu-lhe a voz de Blore, que a fitou por alguns 
momentos antes de falar:
 Eu o trouxe l de baixo.
 No quero tomar isso...  gritou Vera.
Houve um momento de silncio, depois Lombard riu e disse:
 Bravos, Vera! Voc no perde o tino... mesmo que tenha quase morrido de susto. Vou buscar uma 
garrafa fechada.
Philip saiu rapidamente do quarto. Um tanto incerta, Vera disse: ;
 Estou bem agora. Vou tomar um pouco d'gua. Armstrong ajudou-a a levantar-se. Ela se dirigiu 
para a
pia, vacilando e agarrando-se ao mdico. Deixou a torneira de gua fria correr, depois encheu o copo.
 Esse conhaque no tem nada  observou Blore, ressentido.
 Como sabe?  perguntou Armstrong. Blore retrucou furioso:
 Eu no botei nada nele.  isso que est insinuando, suponho.
 No estou afirmando que voc botou alguma coisa  volveu Armstrong.  Mas podia ter feito, ou 
algum mais podia ter preparado a garrafa exatamente para uma emergncia como esta.
Lombard tornou a entrar rapidamente no quarto. Trazia uma garrafa de conhaque fechada e um saca-
rolhas. Colocou a garrafa sob o nariz de Vera.
 Est vendo, menina? Nada de logros.  Retirou a cpsula de metal, depois desarrolhou.  Por 
sorte, h uma boa previso de bebidas nesta casa. Cuidados de nosso amigo U. N. Owen.
Vera tremeu violentamente.
Armstrong segurou o copo enquanto Philip deitava o conhaque.
  melhor que beba isto, Miss Claythorne. Sofreu um choque muito grande.
Vera bebeu um pouco. A cor voltou-lhe s faces.  Bem  disse Philip Lombard, rindo  temos um 
assassinato que no ocorreu de acordo com o plano! Quase num sussurro, Vera perguntou:
 Acha... que a inteno era essa? Lombard fez que sim com a cabea.
 Esperavam que voc morresse de medo! Certas pessoas teriam morrido, no  verdade, doutor?
Armstrong respondeu em tom de dvida, sem se comprometer:
 Hum... impossvel diz-lo. Tipo jovem e sadio... sem fraqueza cardaca. Improvvel. Por outro lado...
O mdico apanhou o copo de conhaque que Blore havia trazido, mergulhou nele a ponta do dedo e 
provou cautelosamente.
 Hum... o gosto  normal  disse, sempre no mesmo tom de dvida.
Blore adiantou-se furioso.
 Se est insinuando que eu envenenei essa bebida, quebro-lhe os ossos agora mesmo!
Vera, com as faculdades reavivadas pelo conhaque, operou uma diverso perguntando:
 Onde est o juiz?
Os trs homens entreolharam-se.
 Esquisito... Pensei que ele tivesse subido conosco.
 Eu tambm...  acrescentou Blore.  Que diz o doutor, que subiu a escada atrs de mim?
 Pensei que ele me seguia...  respondeu Armstrong.  Naturalmente, tinha de ser mais vagaroso 
do que ns.  um homem de idade.
Todos tornaram a entreolhar-se.
 Isto  muito estranho...  disse Lombard.
 Devemos procur-lo!  gritou Blore.
O ex-inspetor caminhou para a porta e os outros seguiram-no, Vera por ltimo.
Enquanto desciam a escada, Armstrong disse por cima do ombro:
  possvel, naturalmente, que tenha ficado na sala de estar.
Atravessaram o hall. Armstrong chamou em voz alta:
 Wargrave, Wargrave, onde est voc?
No houve resposta. Fora o suave rudo da chuva, um silncio de morte reinava na casa.
Chegando  porta do salo, Armstrong parou petrificado. Os outros amontoaram-se a olhar por cima 
dos seus ombros.
Algum soltou um grito.
O Juiz Wargrave estava sentado na sua poltrona de espaldar alto, ao fundo da pea. Duas velas 
ardiam a cada lado. Mas o que chocou e espavoriu os espectadores foi a circunstncia de estar ele vestido 
com uma beca vermelha e uma peruca de juiz na cabea...
Armstrong fez sinal aos outros para que ficassem onde estavam. Quanto a ele, avanou para a figura 
silenciosa e de olhos escancarados. Vacilava um pouco ao caminhar, como um bbado.
Curvou-se para a frente e examinou o rosto imvel. Depois, com um movimento rpido, retirou a 
peruca, que caiu ao cho, descobrindo uma testa alta e escalvada que tinha, bem no centro, uma mancha 
redonda de onde havia escorrido alguma coisa.
O Dr. Armstrong levantou a mo inerte e procurou o pulso, depois virou-se para os outros.
Sua voz soou inexpressiva, morta, distante:
 Foi baleado...
 Meu Deus... o revlver!  exclamou Blore. Ainda na mesma voz sem vida, o mdico articulou:
 Atravessou-lhe a cabea. Instantneo. Vera abaixou-se para examinar a peruca.
 A l cinzenta de que Miss Brent tinha dado falta...
 disse ela numa voz trmula de horror.
 E a cortina vermelha que havia desaparecido do banheiro...  acrescentou Blore.
Vera sussurrou:
 Ento era para isso que as queriam... Subitamente, Philip Lombard riu  um riso agudo e forado.
 Cinco negrinhos no foro, a tomar os ares; um ali foi julgado, e ento ficam dois pares. Este  o fim 
do Sr. Wargrave, o Juiz-Verdugo. Acabou-se para ele a decretao de sentenas! Acabou-se o tempo de 
botar capelo!  a ltima vez que preside a um tribunal! No far mais sumrios de culpa, nem enviar 
inocentes para a forca! Como Edward Seton teria rido se estivesse aqui! Meu Deus, como riria ele!
Semelhante exploso, vinda de quem vinha, chocou e sobressaltou os outros.
 Ainda esta manh voc disse que o assassino era ele!
 exclamou Vera.
O rosto de Lombard mudou de expresso  aquietou-se.
 Sim, eu sei... Pois bem, estava enganado. A est mais um de ns cuja inocncia ficou provada... 
tarde demais!


CAPITULO XIV
I

Tinham levado o Juiz Wargrave para o seu quarto, deitando-o na cama.
Tornaram ento a descer e detiveram-se no hall, a entreolhar-se.
 Que fazemos agora?  perguntou Blore pesadamente Lombard respondeu com vivacidade:
 Comer alguma coisa. Precisamos comer, como sabe Mais uma vez voltaram  cozinha. Abriram 
outra lata de
lngua. Comeram maquinalmente, quase sem tomar o gosto  comida.
 Nunca mais vou comer lngua  disse Vera. Terminaram a refeio e ficaram sentados em redor da
mesa da cozinha, a olhar uns para os outros.
 Somos s quatro agora...  observou Blore.  Quem ser o prximo?
Armstrong encarou-o e disse quase maquinalmente:
 Devemos ter muito cuidado...
De sbito, calou-se. Blore sacudiu afirmativamente a cabea.
 Era o que ele dizia... e agora est morto!
 Como ter acontecido isso?  falou Armstrong. Lombard soltou uma praga.
 Uma tramia habilssima! Aquela coisa foi posta no quarto de Miss Claythorne e deu exatamente o 
resultado esperado. Todos correram l em cima, pensando que ela estava sendo assassinada. E assim... 
na confuso... algum pde apanhar o velho desprevenido.
 Como  que ningum ouviu o tiro?  perguntou Blore. Lombard abanou a cabea.
 Miss Claythorne estava gritando, o vento uivando, ns a correr de um lado para outro e a gritar 
tambm.  Fez uma pausa.  Mas essa esperteza no vai dar resultado outra vez. Agora ele ter que 
tentar outra coisa.
 Provavelmente tentar  disse Blore.
Sua voz tinha um som desagradvel. Os dois homens encararam-se.
 Somos quatro, e no sabemos qual...  disse Arms-trong.
Blore:
 Eu sei... 
Vera:
 Eu no tenho a menor dvida... 
Armstrong falou devagar:
 Parece-me que efetivamente sei... 
E Philip Lombard:
 Creio que agora fao uma idia mais ou menos exata... Mais uma vez, todos se entreolharam...
Vera levantou-se com um esforo, dizendo:
 No posso mais comigo. Tenho de ir para a cama... Estou bombardeada.
Lombard:
 Eu tambm podia ir. No adianta ficarmos aqui vigiando uns aos outros.
Blore:
 Eu no fao objeo... O doutor murmurou:
  a melhor coisa a fazer... embora duvide que algum de ns consiga dormir.
Dirigiram-se para a porta. Blore observou:
 Eu gostaria de saber onde est aquele revlver agora...

II

Subiram a escada.
O que fizeram a seguir pareceu-se um pouco com uma cena de comdia.
Cada um dos quatro pousou a mo na maaneta da porta do seu quarto. Depois, como se 
obedecessem a um sinal, cada um entrou e cerrou a porta. Ouviram-se os rudos dos ferrolhos, das 
fechaduras e de mveis arrastados.
Quatro pessoas amedrontadas barricavam-se para passar a noite.

III

Philip Lombard respirou aliviado quando acabou de calar a maaneta da porta com uma cadeira.
Dirigiu-se para a penteadeira e,  luz vacilante da vela, examinou curiosamente o seu rosto.
 Sim, no h dvida que esse negcio te marcou  disse baixinho, de si para si.
Seus dentes brancos lampejaram naquele sorriso de lobo.
Despiu-se rapidamente.
Caminhou para a cama e ps o seu relgio de pulso sobre a mesinha de cabeceira.
Depois abriu a gaveta.
Ficou a fitar, atnito, o revlver que ali se achava...
IV

Vera Claythorne estava deitada.
A vela ainda ardia ao seu lado.
E contudo, no podia decidir-se a apag-la.
Tinha medo do escuro...
Dizia e tornava a dizer a si mesma:

Ests garantida at amanh de manh. Nada aconteceu na noite passada. Nada acontecer esta 
noite. No pode acontecer. Ests fechada a chave e trancada. Ningum pode aproximar-se de ti...

De sbito veio-lhe uma idia:
"Pois claro! Posso ficar aqui! Ficar fechada aqui! A comida no tem nenhuma importncia! Posso ficar 
aqui, em toda segurana, at que venha socorro! Mesmo que demore um dia... ou at dois..."
Ficar aqui. Sim, mas era possvel ficar aqui? Hora aps hora... sem ter com quem falar, sem outra 
coisa a fazer seno pensar...
Comearia a pensar na Cornualha... em Hugo... em... no que tinha dito a Cyril.
Pirralho detestvel, choramingas, sempre a importun-la...
 Miss Claythorne, por que no posso nadar at o rochedo? Eu posso. Sei que posso.
Fora a sua voz que havia respondido?
 Pois claro, Cyril. Voc pode. Sei que voc pode.
 Posso ir, ento, Miss Claythorne?
 Bem, Cyril,  que sua me fica to nervosa... Escute aqui. Amanh voc poder nadar at o 
penedo. Eu ficarei conversando com sua me na praia para distrair a ateno dela. Depois, quando sua 
me quiser saber onde voc est, voc estar no alto do penedo, abanando para ela. Imagine s que 
surpresa!
 Oh! que idia bacana, Miss Claythorne! Vai ser o fino! Ela consentira afinal. Amanh! Hugo ia a 
Newquay. Quando ele voltasse... tudo j teria passado.
Mas se no fosse assim? Se a coisa falhasse? Cyril poderia ser salvo em tempo. E ento... ele diria: 
Miss Claythorne disse que eu podia. Bem, que tinha isso? A gente precisa arriscar alguma coisa! Se 
acontecesse o pior, ela teria de ser caradura: Como  que voc pode pregar tamanha mentira, Cyril? Est 
claro que eu nunca disse tal coisa! Sem dvida acreditariam nela. Cyril pregava petas com freqncia. Era 
uma criana mentirosa. Mas isso no tinha importncia... e, de qualquer maneira, a coisa no podia falhar. 
Vera fingiria que nadava emps do menino. Mas chegaria tarde demais. Ningum jamais suspeitaria...
Hugo teria suspeitado? Era por isso que ele a olhara com aquele ar estranho e distante?... Porventura 
Hugo sabia?...
Seria por isso que ele partira com tanta precipitao aps o inqurito?
Hugo no tinha respondido  nica carta que ela lhe escrevera...
Hugo...
Vera revirava-se na cama, sem descanso. No, no... no devia pensar em Hugo. Era demasiado 
doloroso. Aquilo estava acabado, acabado para sempre... Hugo devia ser esquecido.
Por que motivo, esta noite, sentira de sbito a presena de Hugo no seu quarto?
Vera fitava o teto, seus olhos no se despegavam do enorme gancho preto que havia no centro do 
quarto.
No tinha notado antes esse gancho.
Era nele que estava dependurada a alga.
Teve um arrepio ao lembrar-se daquele contato frio e viscoso no seu pescoo.
No gostava daquele gancho no teto. Prendia o olhar da gente, fascinava... um enorme gancho preto...

V

O ex-Inspetor Blore estava sentado na beira da cama.
Seus olhos pequenos, vermelhos e injetados, boliam na massa slida do seu rosto, atentos a tudo. 
Parecia um javali pronto para acometer.
No sentia nenhuma vontade de dormir.
A ameaa estava muito prxima agora... Seis dentre dez!
Com toda a sua sagacidade, toda a sua cautela e astcia, o velho juiz tivera o mesmo fim dos outros.
Blore bufou com uma espcie de selvagem satisfao.
Que tinha dito a velha raposa?
"Devemos ter muito cuidado..."
Velho enfatuado e hipcrita! Presidindo um tribunal e julgando-se Deus Todo-Poderoso! Tinha recebido 
o que merecia... Acabaram-se as cautelas para ele.
E agora restavam quatro. A moa, Lombard, Armstrong e ele.
Bem depressa chegaria a vez de um outro... Mas esse outro no seria William Henry Blore. Saberia 
cuidar disso.
(Mas o revlver... Que dizer do revlver? Esse era o fator inquietante... o revlver!)
Sentado na cama, de cenho franzido, os olhinhos apertados e enrugados, Blore considerava o 
problema do revlver...
No silncio, pde ouvir o relgio dar a hora l embaixo.
Meia-noite.
Relaxou um pouco a sua vigilncia e chegou mesmo a estender-se na cama. No tirou a roupa, 
contudo.
Deitado, continuou a pensar. Repassou toda a histria desde o comeo, metdica e laboriosamente, 
como costumava fazer nos seus tempos de policial. No fim de contas, o que valia mesmo era a 
meticulosidade.
A vela estava a extinguir-se. Verificou se os fsforos se achavam ao alcance da sua mo e apagou-a.
Surpreendentemente, a escurido lhe pareceu inquietadora. Era como se medos milenares houvessem 
despertado e lutassem pela supremacia dentro do seu crebro. Rostos flutuavam no ar... a cabea do juiz, 
coroada com aquela irrisria peruca de l cinza... a face morta e fria da Sra. Rogers... as feies convulsas 
e arroxeadas de Anthony Marston.
Outro rosto... plido, de culos, com um pequeno bigode cor de palha.
Um rosto que ele tinha visto... quando? No fora na ilha. No, muitssimo antes disso.
Engraado, no lhe poder dar um nome... Uma cara tola, mesmo... o sujeito parecia meio otrio.
Ora, quem ele era!
A sbita recordao causou-lhe um verdadeiro choque.
Landor!
Esquisito que tivesse esquecido completamente a fisionomia de Landor. Ainda ontem procurara 
lembrar-se da cara do sujeito e no pudera.
E agora, ali estava ela, com todos os traos ntidos e precisos, como se a tivesse visto no dia anterior.
Landor tinha uma esposa... um fiapo de mulher, com uma cara atormentada. Tinha uma filha tambm, 
uma mocinha de seus quatorze anos. Pela primeira vez, Blore perguntou-se que fim teriam levado ambas.
(O revlver. Que fim levara o revlver? Isso era muito mais importante.)
Quanto mais pensava nisso, mais intrigado ficava... No entendia aquele assunto do revlver.
Algum, na casa, se apoderara dele...
L embaixo, um relgio bateu uma pancada.
Rompeu-se o fio dos pensamentos de Blore, que sentou o corpo na cama, subitamente alerta. Tinha 
ouvido um rudo, um rudo muito leve, mais ou menos nas proximidades da porta do seu quarto.
Havia algum a andar na casa s escuras.
O suor comeou a porejar-lhe da testa. Quem era aquela criatura que se movia secreta e 
silenciosamente ao longo dos corredores? Algum que no ia fazer nada de bom, isso ele podia apostar!
Sem fazer o menor rudo, malgrado todo o peso do seu corpo, levantou-se da cama e em duas 
passadas estava  porta, escutando.
Mas o rudo no se repetiu. Contudo, Blore estava convencido de que no se enganara. Ouvira um som 
de passos diante da sua porta. Os cabelos arrepiaram-se-lhe de leve. Tornou a conhecer o medo...
Algum que se esgueirava furtivamente no meio da noite.
Ficou  escuta... mas no tornou a ouvir o rudo.
E agora uma nova tentao o assaltava. Queria, desesperadamente, sair e investigar. Se ao menos 
pudesse ver quem andava a rondar no escuro!
Mas abrir a porta seria coisa de idiota. Muito provavelmente, era por isso mesmo que o outro estava 
esperando. Era bem possvel, at, que se tivesse deixado ouvir por Blore, contando que ele sasse a 
investigar.
Blore escutava, com o corpo rgido... Agora ouvia rudos por toda parte, estalidos, farfalhadas, 
misteriosos cochichos... mas o seu crebro realista e pertinaz conhecia esses sons pelo que eram: 
criaes de sua imaginao superexcitada.
Mas, de repente, ouviu qualquer coisa que no era imaginao. Passos, muito leves, muito 
cautelosos, mas claramente perceptveis para um homem que, como ele, escutava com toda a sua 
capacidade auditiva.
Os passos avanaram de mansinho pelo corredor (tanto o quarto de Armstrong como o de Lombard 
estavam mais longe da escada que o seu). Passaram pela sua porta sem hesitao nem tropeo.
Diante disso, Blore resolveu-se.
Pretendia ver o que era! Os passos tinham positivamente deslizado pela sua porta, dirigindo-se para a 
escada. Aonde ia o sujeito?
Blore agiu com surpreendente rapidez para um homem que parecia to vagaroso e pesado. P ante 
p, voltou  cama, enfiou a caixa de fsforos no bolso, desligou o chicote da lmpada de cabeceira e 
apanhou o suporte, enrolando o fio em torno dele. Era um brao de cromo com uma pesada base de 
ebonite  uma arma til.
Atravessou silenciosamente o quarto, retirou a cadeira que calava o trinco da porta e abriu com 
precauo a fechadura e os ferrolhos. Saiu para o corredor. Percebeu um leve rudo no hall l embaixo e, 
calado s com meias, correu sobre o tapete at o patamar da escada.
Nesse momento compreendeu por que tinha ouvido com tanta nitidez todos aqueles rudos. O vento 
havia parado por completo e o cu devia estar limpo. Um luar esmaecido penetrava pela janela do patamar e 
iluminava o hall l embaixo.
Blore divisou momentaneamente um vulto que saa pela porta da frente.
Ia precipitar-se pela escada quando se deteve.
Novamente estivera a ponto de cometer uma tolice! Aquilo podia ser uma armadilha com o fim de atra-
lo para fora da casa!
Mas o que o outro homem no percebera  que, por sua vez, tinha cometido um engano, entregando-
se nas mos de Blore.
Com efeito, dos trs quartos ocupados no primeiro andar, um devia estar agora vazio! Bastava verificar 
qual!
Blore voltou rapidamente pelo corredor.
Deteve-se primeiro diante do quarto do Dr. Armstrong e bateu  porta. No houve resposta.
Esperou um pouco e depois foi ao quarto de Philip Lombard.
Ali a resposta veio imediatamente:
 Quem ?
  Blore. Acho que Armstrong no est no quarto. Espere um instante.
Dirigiu-se para a ltima porta do corredor e bateu.
 Miss Claythorne! Miss Claythorne! Respondeu-lhe a voz sobressaltada de Vera:
 Quem ? Que  que h?
 No  nada, Miss Claythorne. Espere um instante. Volto em seguida.
Correu de novo at o quarto de Lombard. Nesse momento a porta abria-se. Apareceu Lombard, 
trazendo na mo esquerda uma vela acesa. Tinha enfiado as calas por cima do pijama e sua mo direita 
estava metida no bolso deste.
 Que diabo de histria  esta?  disse em tom spero. Blore explicou rapidamente. Os olhos de 
Lombard iluminaram-se.
 Armstrong, hem? Ento  ele!  Caminhou para a porta do quarto do mdico.  Sinto muito, 
Blore, mas eu no aceito nada em confiana.
Bateu com fora na porta.
 Armstrong! Armstrong! No houve resposta.
Lombard ajoelhou-se e espiou pelo buraco da fechadura, depois inseriu cautelosamente o dedo mnimo 
no buraco.
 A chave no est na fechadura.
 Isso significa que ele fechou a porta por fora e levou a chave  disse Blore.
Philip anuiu com a cabea.
 Uma precauo bvia. Ns o apanharemos, Blore... Desta vez, ns o apanharemos! Um 
momentinho.
Lombard correu at a porta de Vera.
 Vera!
 Sim?
 Vamos sair em caa de Armstrong. Ele no est no quarto. Acontea o que acontecer, no abra a 
porta! Entendeu?
 Sim, entendi.
 Se Armstrong aparecer e disser que eu fui morto, ou que Blore foi morto, no preste ateno. 
Percebe? S abra a porta se eu e Blore viermos juntos, est ouvindo?
 Sim  disse Vera.  No sou completamente tola. Lombard foi ter com Blore, dizendo:
 E agora... a ele! A caada comeou!
 Convm ter cuidado  disse Blore.  Lembre-se de que ele tem um revlver.
Philip Lombard, que descia a escada a correr, riu de boca fechada.
 A  que voc se engana.  Abriu a porta da frente, observando:  O trinco ficou puxado... a fim de 
que ele pudesse tornar a entrar facilmente.
E prosseguiu:
 O revlver est comigo!  Tirou-o em parte do bolso enquanto falava.  Descobri que tinham 
tornado a p-lo na minha gaveta esta noite.
Blore estacou repentinamente no portal. Lombard notou que a expresso do seu rosto se demudara.
 No seja idiota, Blore. No vou atirar em voc! Volte e torne a barricar-se no seu quarto, se quiser! 
Eu vou em busca de Armstrong.
Lombard saiu para o luar. Aps um instante de hesitao, Blore seguiu-o, dizendo com os seus 
botes:
 Isto  brincar com fogo, mas afinal de contas... Afinal de contas, no era a primeira vez que lidava 
com criminosos armados. Fossem quais fossem os seus defeitos, Blore no carecia de coragem. 
Mostrassem-lhe o perigo, e ele o enfrentaria com denodo. No temia o perigo a descoberto  apenas o 
perigo indefinido e com toques de sobrenatural.

VI

Vera, deixada  espera dos resultados, levantou-se e vestiu-se.
Uma ou duas vezes relanceou os olhos para a porta. Era uma boa e slida porta. Estava aferrolhada, 
chaveada, e tinha uma cadeira de carvalho a calar-lhe a maaneta.
No podia ser arrombada, e ainda menos pelo Dr. Armstrong, que no era um homem fisicamente 
possante.
Se ela fosse o Dr. Armstrong resolvido a matar algum, usaria a astcia e no a fora.
Vera entreteve-se em refletir sobre os meios que ele poderia empregar.
Podia, como Philip havia sugerido, anunciar que um dos outros dois homens fora morto. Ou, 
possivelmente, fingir que ele prprio estava mortalmente ferido, arrastando-se a gemer at a porta de Vera.
Havia outras possibilidades. Podia avis-la de que a casa estava em chamas. Mais ainda, ele prprio 
era capaz de incendi-la... Sim, era uma possibilidade: atrair os outros dois para fora da casa e depois 
atear fogo a uma trilha de gasolina previamente preparada. E ela, como uma idiota, continuaria trancada no 
seu quarto at que fosse tarde demais.
Vera caminhou para a janela. Nada mau. Numa emergncia, poderia escapar por ali. Seria uma queda, 
sem dvida, mas havia um canteiro de jardim bem embaixo.
Sentou-se e, apanhando o seu dirio, comeou a escrever numa letra clara e fluente.
Era preciso passar o tempo.
De sbito, endireitou o corpo e prestou ateno. Tinha ouvido um som. Dir-se-ia o rudo de uma vidraa 
quebrada. E vinha do andar trreo.
Apurou o ouvido, mas o som no se repetiu.
Ouviu, ou pensou ouvir, passadas furtivas, estalidos na escada e um roar de roupa... Nada de 
definido, porm; e ela concluiu, como Blore fizera antes, que esses rudos provinham unicamente da sua 
imaginao.
Mas pouco depois ouviu sons de natureza mais concreta. Gente a caminhar l embaixo, um murmrio 
de vozes. A seguir, o som muito ntido de algum a subir a escada... portas a abrir-se e a fechar-se... ps 
que subiam at o sto. E mais rudos l em cima.
Finalmente os passos ressoaram ao longo do corredor e a voz de Lombard disse:
 Vera, voc est bem?
 Sim. Que foi que aconteceu? Blore falou:
 Deixa-nos entrar?
Vera foi at a porta, retirou a cadeira, torceu a chave e correu o ferrolho. Abriu a porta. Os dois 
homens estavam ofegantes, com os ps e a parte inferior das calas molhados.
 Que foi que aconteceu?  tornou a perguntar ela. E Lombard:
 Armstrong desapareceu...

VII

 Qu?  exclamou Vera.
 Evaporou-se completamente da ilha  disse Lombard. Blore corroborou:
 Evaporou-se... essa  a palavra. Como por um passe de mgica.
 Tolice!  fez Vera, impaciente.  Ele est escondido em alguma parte!
 No est, no!  retrucou Blore.  Digo-lhe que no h nenhum esconderijo nesta ilha.  lisa 
como a palma da mo. Alm disso, faz luar l fora. Est claro como o dia. E no se pode encontr-lo...
 Quem sabe ele voltou para casa?  sugeriu Vera.
 Pensamos nisso  volveu Blore.  Demos uma busca na casa tambm. A senhorita deve ter-nos 
ouvido. Ele no est aqui, garanto-lhe. Desapareceu... evaporou-se... sumiu-se!...
 No acredito nisso  disse Vera, incrdula.
  verdade, minha cara  contraps Lombard. E, depois de uma pausa:
 H outro pequeno detalhe, ainda. Quebraram um vidro da porta da sala de jantar... e s h trs 
negrinhos em cima da mesa.



CAPITULO XV

I

Trs pessoas comiam sentadas na cozinha.
Fora, brilhava o sol. O dia estava belssimo. A tempestade era uma coisa passada.
E, com a mudana do tempo, sobreviera uma mudana na disposio de nimo dos prisioneiros da 
ilha.
Sentiam-se agora como pessoas que acabam de acordar de um pesadelo. Havia perigo, sim, mas era 
um perigo  luz do dia. Tinha desaparecido aquela paralisante atmosfera de medo que os envolvera na 
vspera como uma mortalha, enquanto o vento uivava l fora.
 Hoje tentaremos heliografar com um espelho no ponto mais alto da ilha  disse Lombard.  
Algum rapaz esperto que ande a passear pelos rochedos da terra firme reconhecer os sinais de SOS 
quando os vir, pelo menos assim espero. Depois de escurecer, poderamos tentar uma grande fogueira... 
mas a lenha  pouca e, por outro lado, talvez pensem que se trata apenas de uma festa com cantos e 
danas.
Vera:
 Com certeza algum entender os sinais Morse, e viro tirar-nos daqui. Muito antes que seja noite.
Lombard:
  verdade que o tempo est esplndido, mas o mar ainda no acalmou. Que ondas tremendas! 
Ningum poder encostar um barco na ilha antes de amanh.
 Outra noite neste lugar!  exclamou Vera. Lombard deu de ombros.
 O remdio  enfrentar a situao. Vinte e quatro horas mais e isto ter fim, creio eu. Se durarmos 
at l, estamos salvos.
Blore pigarreou e disse:
  melhor tratarmos de entender bem em que p nos encontramos. Que aconteceu a Armstrong?
 Bem, pelo menos temos um indcio  volveu Lombard.  S restam trs negrinhos na mesa da 
sala de jantar. Pelo visto, Armstrong j no pertence a este mundo.
Vera:
 Ento, por que no encontramos o cadver? Blore:
 Sim, por qu?
Lombard abanou a cabea e respondeu:
  esquisitssimo... no h como entender isso.
 Pode ter sido jogado ao mar  aventou Blore sem muita convico.
Lombard retrucou vivamente:
 Por quem? Por voc? Por mim? Voc o viu sair pela porta da frente. Veio bater no meu quarto e 
encontrou-me l. Samos juntos para procur-lo. Quando  que eu teria tempo para matar o pobre diabo e 
arrastar o seu corpo at a gua?
 No sei  respondeu Blore.  Mas sei uma coisa.
 Que ?
 O revlver. Ele lhe pertencia. Est em seu poder agora. Nada prova que no tenha estado sempre 
em seu poder.
 Ora esta, Blore! Ns todos fomos revistados.
 Sim, voc o teria escondido antes disso. E depois tornou a apanh-lo.
 Meu bom cabea-dura, juro-lhe que ele foi reposto por algum na minha gaveta. Tive a maior 
surpresa da minha vida quando o encontrei l.
 E quer que ns acreditemos numa coisa dessas?  tornou Blore.  Por que diabo haveria 
Armstrong ou qualquer outro de devolver esse revlver?
Lombard ergueu os ombros num gesto de impotncia.
 No fao a menor idia. Isso  pura loucura. A ltima coisa que se podia esperar. Parece no ter 
nenhum sentido.
Blore concordou.
 No, no tem. Voc podia ter inventado uma histria melhor.
 O que vem a ser uma prova de que estou dizendo a verdade, no ?
Blore:
 No  assim que eu encaro a coisa. Lombard:
 Sim, isso no me admira de sua parte. Blore:
 Oua, Sr. Lombard, se  de fato um homem honesto como pretende ser...
Philip murmurou:
 Quando foi que pretendi ser um homem honesto? No, absolutamente, nunca disse tal coisa.
Blore prosseguiu, imperturbvel:
 Se est falando a verdade... s h uma coisa a fazer. Enquanto voc tiver o revlver, Miss 
Claythorne e eu estamos  sua merc. A nica coisa honesta a fazer  colocar o revlver junto com as 
outras coisas que esto fechadas... e ns dois continuaremos com as duas chaves.
Philip Lombard acendeu um cigarro, tirou uma baforada e disse:
 No seja idiota.
 No quer concordar com isso?
 De maneira nenhuma. O revlver  meu. Preciso dele para me defender, e vou ficar com ele.
 Nesse caso  disse Blore  somos forados a uma concluso.
 Que eu sou U. N. Owen? Pois pense l o que quiser. Mas vou lhe fazer uma pergunta: se  assim, 
por que no o derrubei com um tiro ontem  noite? Tive ensejo de faz-lo umas vinte vezes, pelo menos.
Blore abanou a cabea.
 No sei... francamente, no sei. Voc devia ter alguma razo para isso.
Vera, que at ento se limitara a escut-los, interveio:
 Acho que esto ambos a portar-se como um par de idiotas.
Lombard virou-se para ela.
 Que histria  essa?
 Esqueceram os versos. No vem que eles oferecem uma pista?
E recitou numa voz significativa:
 Quatro negrinhos no mar; a um tragou de vez O arenque defumado, ento ficaram trs.
 O arenque defumado...  continuou ela.  Eis a a chave do enigma. Arenque defumado1  
sinnimo de despiste. Armstrong no morreu... Tirou o negrinho de porcelana para faz-los pensar que est 
morto. Digam o que disserem... Armstrong ainda se encontra na ilha. O seu desaparecimento  apenas um 
arenque defumado que colocou na pista...
1 Red herring. O uso desta expresso em sentido figurado provm do hbito de esfregar um arenque 
defumado sobre uma pista a fim de confundir com o seu cheiro ativo o faro dos ces. (N. do T.)

Lombard sentou-se.
 Sabe de uma coisa? Voc bem que pode ter razo.
 Sim  disse Blore  mas onde est ele? Passamos revista  ilha inteira, por fora e por dentro.
Vera respondeu desdenhosamente:
 Ns todos procuramos o revlver, no foi? e no pudemos encontr-lo. Mas durante todo esse 
tempo ele esteve em alguma parte.
 H uma pequena diferena de tamanho, minha cara, entre um revlver e um homem  murmurou 
Lombard.
 No importa... Tenho certeza de que estou com a razo.
Blore murmurou:
 Isso era, de certo modo, denunciar-se, no? Mencionar um arenque defumado nos versos. Ele 
podia ter escrito a coisa de maneira diferente.
 Mas no v que ele  louco?  exclamou Vera.  Tudo isso  loucura! A idia de se guiar pelos 
versos  louca! Fantasiar o juiz, matar Rogers quando ele cortava lenha... dar um entorpecente  Sra. 
Rogers para que ela casse a dormir e no acordasse mais... arranjar uma abelha quando Miss Brent 
morreu...  como se uma horrvel criana estivesse brincando de assassinato. Tudo  feito dentro dos 
versos.
 Sim, tem razo  disse Blore. E, depois de refletir um instante, acrescentou:  Mas, pelo menos, 
no h jardim  zoolgico na ilha. Ele ter um pouco de trabalho para arranjar isso.
 Ento voc no enxerga?  exclamou Vera.  Ns somos o Zo... Ontem  noite, no nos 
portvamos mais como seres humanos. Ns somos o Zo...
II

Passaram a manh nos rochedos, revezando-se na transmisso da mensagem heliogrfica  terra 
firme.
No havia indicao de que algum os tivesse visto. Os sinais no receberam resposta. Fazia um belo 
dia, com uma ligeira bruma. L embaixo, o mar arfava em gigantescos vagalhes. Nenhum barco se 
atrevera a sair.
Tinham procedido a outra busca infrutfera na ilha. No havia traos do mdico desaparecido.
Do lugar onde agora se achavam, Vera ergueu os olhos para a casa e disse, com a voz ligeiramente 
embargada:
 A gente se sente mais segura aqui, ao ar livre... No vamos mais entrar nessa casa.
 A idia no  m  disse Lombard.  Estamos bem garantidos aqui. Ningum pode chegar at 
ns sem que o vejamos com bastante antecedncia.
 Ficaremos aqui  resolveu Vera.
 Temos de dormir em alguma parte  disse Blore.  E ento ser preciso voltar para casa.
Vera estremeceu.
 No posso suportar isso! No posso passar outra noite a!
 Fechada no seu quarto, voc estar em segurana  tornou Philip.
 Suponho que sim  murmurou Vera. Depois, espreguiando-se, acrescentou:   maravilhoso 
sentir o sol outra vez...
Consigo, pensava:
"Que estranho... sinto-me quase feliz. E contudo, suponho que esteja realmente em perigo... De certo 
modo... agora... nada parece ter importncia... pelo menos  luz do dia... Sinto-me cheia de fora... sinto 
que no posso morrer..."
Blore consultou o seu relgio de pulso.
 So duas horas. E se fssemos almoar?
 Eu no entro nessa casa  disse Vera obstinadamente.  Vou ficar aqui, ao ar livre.
 Ora, vamos, Miss Claythorne. A gente precisa manter as foras, como sabe.
 Se eu chegar a ver uma lata de lngua, vomitarei!  retrucou Vera.  No quero comida. H 
pessoas que passam dias e dias sem comer nada, quando esto de dieta.
Blore:
 Bem, mas eu preciso comer regularmente. Que diz o Sr. Lombard?
Philip:
 No acho muito apetitosa a lngua em conserva, sabe? Vou ficar aqui com Miss Claythorne.
Blore hesitou, e Vera disse:
 No h nenhum perigo. No acredito que ele me d um tiro assim que voc vire as costas, se  
isso que est receando.
Blore:
 Se acha que no h perigo, no h perigo. Mas ns fizemos o trato de nunca nos separarmos.
Philip:
 Voc  que quer ir para a toca do leo. Vou com voc, se isso lhe agrada.
Blore:
 Oh! no. Voc fica aqui. Philip riu.
 Ainda est com medo de mim, hem? Ora... eu podia descarregar o revlver em vocs dois agora 
mesmo, se quisesse.
 Sim, mas isso no estaria de acordo com o plano  retrucou Blore.   um de cada vez, e tem 
que ser feito de determinada maneira.
 Bem  disse Philip  voc parece saber tudo na ponta dos dedos.
 Naturalmente  volveu o outro   um pouco arriscado ir at essa casa sozinho...
Philip completou em voz macia:
 E por isso eu vou lhe emprestar o meu revlver? A resposta  no, no empresto! No sou to 
simptico assim, obrigado.
Blore deu de ombros e comeou a subir o forte aclive em direo  casa.
Lombard comentou tranqilamente:
 Hora de comer no Zo! Os animais so muito regulares nos seus hbitos!
 No  muito arriscado isso que ele est fazendo?  perguntou Vera com ansiedade.
 No sentido em que voc o entende... no, no acho que seja! Armstrong no est armado e, de 
qualquer maneira, Blore  duas vezes mais forte do que ele e est vigilante. Alm disso,  absolutamente 
impossvel que Armstrong esteja na casa. Sei que ele no est l!
 Mas... que outra soluo h?
 Blore  disse Philip baixinho.
 Oh! Voc pensa mesmo que...
 Escute, menina. Voc ouviu o que ele disse. Se acreditou nisso, tem de admitir que eu no posso, 
de modo algum, ter nada que ver com o desaparecimento de Armstrong. A histria contada por Blore me 
inocenta, mas no inocenta a ele! Que prova temos de que ele realmente ouviu passos e viu um homem 
descer a escada e sair pela porta da frente? Tudo isso pode ser mentira.  muito possvel que ele tenha 
liquidado Armstrong um par de horas antes.
 Como?
Lombard deu de ombros.
 Isso  o que no sabemos. Mas, se quer que lhe diga, s temos um perigo a temer... e esse perigo 
 Blore! Que sabemos a respeito desse homem? Menos que nada! A tal conversa de ser um ex-policial 
pode ser pura invencionice! Sei l quem ele  na realidade... um milionrio louco... um negociante tarado... 
um sentenciado fugido de Bradmoor. Uma coisa  certa. Ele podia ter cometido todos esses crimes.
Vera tinha empalidecido um tanto. Foi numa voz quase sem sopro que perguntou:
 E supondo-se que eles nos... apanhe?
Lombard bateu no revlver que carregava no bolso e respondeu tranqilamente:
 Tratarei de fazer com que isso no acontea. Depois, olhando com curiosidade para a moa, 
acrescentou:
 Tem uma tocante f em mim, no, Vera? Est bem certa de que no vou atirar em voc?
 A gente tem de confiar em algum...  respondeu Vera.  Mas acho que voc est enganado a 
respeito de Blore. Ainda acredito que  Armstrong.
E, virando-se subitamente para ele:
 Voc no sente... a toda hora. ,. que h algum? Algum a espreitar e a esperar?
Lombard respondeu vagarosamente:
 Isso no passa de nervos.
 Ento voc sentiu a mesma coisa?  disse Vera sofregamente.
Estremeceu e aproximou-se um pouco mais de Philip.
 Diga-me uma coisa... No acha que...  interrompeu-se e depois continuou:  Certa vez li uma 
histria... sobre dois juizes que chegaram a uma cidadezinha americana... Juizes do Supremo Tribunal. 
Eles faziam justia... Justia Absoluta. Porque... no vinham deste mundo...
Lombard ergueu as sobrancelhas.
 Visitantes celestes, hem? No, eu no acredito no sobrenatural. Esta histria  bem humana.
 s vezes... no tenho certeza...  disse Vera em voz baixa.
Lombard olhou para ela.
 Isso  a conscincia...  Aps um momento de silncio, disse num tom muito suave:  Ento 
voc afogou mesmo aquele garoto, no foi?
 Eu no! Eu no!  fez Vera com veemncia.  Voc no tem o direito de dizer isso!
Philip riu placidamente:
 Oh! sim, voc o afogou, minha boa menina. No sei como isso aconteceu. No posso imaginar. 
Provavelmente havia um homem metido na histria. Foi isso?
Uma repentina sensao de lassitude, de profundo cansao espalhou-se pelos membros de Vera, que 
respondeu numa voz sem timbre:
 Sim... havia um homem...
 Obrigado  disse Lombard baixinho.  Era s o que eu desejava saber...
Vera endireitou bruscamente o corpo, exclamando:
 Que foi isso? No foi um terremoto?
 No, no. Mas  estranho... pareceu um baque que sacudiu a terra. E pensei... Voc no ouviu 
uma espcie de grito? Eu ouvi.
Ambos olharam para a casa.
 Veio de l  disse Lombard.   melhor irmos ver.
 No, no, eu no vou.
 Como voc quiser. Eu vou.
 Est bem, vou com voc  fez Vera, desesperada. Subiram a encosta em direo  casa. O 
terrao, banhado pelo sol, tinha um ar pacfico e incuo. Hesitaram um momento ali e, em vez de entrar 
pela porta da frente, descreveram um cauteloso crculo em volta da casa.
Encontraram Blore. Estava estatelado no terrao de pedra, na face leste, com a cabea esmigalhada 
por um enorme bloco de mrmore branco.
Philip olhou para cima e perguntou:
 De quem  essa janela?
  a do meu quarto  disse Vera em voz baixa e trmula.  E isso  o relgio da minha lareira. 
Lembro-me agora. Tinha... a forma de um urso.
Repetiu, transida de horror:
 Tinha a forma de um urso...

III

Philip segurou-lhe o ombro e, numa voz soturna e premente:
 Agora temos a soluo. Armstrong est escondido em alguma parte da casa. Vou agarr-lo.
Vera aferrou-se a ele, gritando:
 No seja tolo. Agora somos ns! Vai tocar a nossa vez! Ele quer que ns o procuremos! Est 
contando com isso!
Philip estacou e disse pensativamente:
 Voc no deixa de ter sua razo.
 Pelo menos, agora voc admite que eu tinha razo!  gritou Vera.
Lombard fez que sim com a cabea.
 Sim... voc ganhou!  Armstrong, sem a menor dvida. Mas onde diabo se escondeu ele? 
Andamos pela casa inteira como um pente fino.
Vera replicou em tom premente:
 Se no o acharam ontem  noite, agora  que voc no vai ach-lo... Isso no  lgico?
 Sim, mas... murmurou Philip, relutante.
 Ele deve ter preparado um esconderijo de antemo, naturalmente... Est claro, era o que tinha de 
fazer. Algum alapo, uma dessas portas falsas como as que existem nos velhos castelos.
 Esta no  uma casa antiga desse tipo.
 Ele podia ter mandado fazer.
Philip Lombard abanou a cabea, dizendo:
 Ns medimos tudo... naquela primeira manh. Juro que no h nenhum espao secreto.
 Deve haver...
 Eu gostaria de ver isso...
 Sim, voc gostaria de ver!  gritou Vera.  E ele bem o sabe! Ele est l dentro...  sua espera.
 Eu tenho isto aqui  disse Lombard, entremostrando o revlver que levava no bolso.
 Voc disse que nada aconteceria a Blore, que ele era duas vezes mais forte do que Armstrong. 
Sim, fisicamente era; e alm disso, estava vigilante. Mas o que voc no parece compreender  que 
Armstrong est louco! E um louco tem todas as vantagens do seu lado.  duas vezes mais esperto do que 
qualquer pessoa no seu juzo normal.
Lombard tornou a pr o revlver no bolso.
 Vamos, ento  disse ele.

IV

Por fim, Philip Lombard perguntou:
 Que  que voc vai fazer quando cair a noite?
Vera no respondeu. O outro continuou em tom acusador:
 Ainda no tinha pensado nisso?
 Que  que ns podemos fazer?  respondeu a moa desamparadamente.  Oh! meu Deus, estou 
assustada...
Philip Lombard observou, pensativo:
 O tempo est magnfico. Haver luar. Precisamos encontrar um lugar... em cima dos rochedos 
mais altos, talvez. Podemos sentar-nos l e esperar pela manh. No devemos dormir... Temos de ficar 
sempre vigilantes. E se algum se aproximar de ns, eu atiro!
Fez uma pausa.
 Voc sentir frio, talvez, com essa roupa fina? Vera respondeu com um riso rouco:
 Frio? Sentiria mais frio se estivesse morta!
 Sim, isso  verdade...  disse Philip Lombard serenamente.
Vera mexia-se, inquieta.
 Acabo enlouquecendo se continuar sentada aqui. Vamos caminhar.
 Est bom.
Caminharam lentamente acima e abaixo, ao longo da linha de rochedos sobranceira ao mar. O sol 
comeava a descambar para o poente. A luz era dourada e suave. Envolvia-os num esplendor de ouro.
Vera disse com um brusco risinho nervoso:
 Pena que no possamos tomar banho...
Philip olhava para o mar l embaixo. Sbito, exclamou:
 Que  aquilo l? Est vendo... perto do penedo grande? No... um pouco mais para a direita.
Vera fitou os olhos na direo indicada e disse:
 Parece a roupa de algum!
 Um banhista, hem?  Lombard riu.  Esquisito. Suponho que sejam apenas algas.
 Vamos ver.
  roupa  disse Lombard quando chegaram mais perto.  Uma trouxa de roupa. Olhe, uma 
botina! Vamos descer por aqui.
Deixaram-se escorregar pelos rochedos abaixo. Vera deteve-se bruscamente, exclamando:
 No so roupas...  um homem...
O homem boiava entre dois penedos, atirado ali pela mar algumas horas antes.
Lombard e Vera chegaram finalmente ao lugar e inclinaram-se para ver melhor.
Uma cara roxa e disforme  uma horrenda cara de afogado...
 Meu Deus!  disse Lombard.   Armstrong...

CAPTULO XVI

I

Passaram sculos... mundos deram volta s suas rbitas... O tempo ficou imvel, parado... enquanto 
corriam os milnios...
No, foi apenas um minuto, ou nem tanto...
Duas pessoas, sobre os rochedos, olhavam para um homem morto...
Lenta, muito lentamente, Vera Claythorne e Philip Lombard ergueram a cabea e olharam-se nos 
olhos...

II

Lombard riu.
 Ento  isso. Vera? Vera respondeu:
 No h ningum nesta ilha... absolutamente ningum... exceto ns dois...
Sua voz era "um sussurro, nada mais.
 Precisamente  disse Lombard.  Agora sabemos onde estamos, no  verdade?
Vera perguntou:
 Como foi que funcionou... aquele truque do urso de mrmore?
O outro deu de ombros.
 Um passe de mgica, minha cara... e muito bem feito...
Os olhos de ambos tornaram a encontrar-se.
Vera pensou:
"Por que nunca olhei bem para o rosto dele antes? Um lobo,  o que   uma cara de lobo... Esses 
dentes horrveis..."
Lombard falou  e sua voz era um rosnido perigoso, ameaador:
 Isto  o fim, voc compreende? Chegamos agora  verdade: E  o fim...
 Compreendo...  respondeu Vera serenamente.
A moa fitou o mar. O Gen. Macarthur tinha fitado o mar... Quando?... Apenas ontem? Ou fora no dia 
anterior? Ele tambm dissera: "Isto  o fim..."
Dissera-o com aquiescncia... quase com satisfao.
Mas, em Vera, as palavras  a prpria idia  provocaram revolta. No, aquele no seria o fim.
Olhou para o morto, dizendo:
 Pobre Dr. Armstrong... Lombard fez um sorriso escarninho.
 Que  isso? Piedade feminina?
 Por que no?  disse Vera.  Voc no tem piedade nenhuma?
 No tenho piedade de voc. No espere por isso! Vera tornou a olhar para o cadver.
 Precisamos tir-lo da, lev-lo para a casa.
 Para reuni-lo s outras vtimas, suponho? Todos bem arrumadinhos... Pela parte que me toca, ele 
pode ficar onde est.
 Ao menos, ponhamo-lo fora do alcance do mar  disse Vera.
Lombard riu e respondeu:
 Seja, se assim lhe agrada.
Curvou-se e puxou o cadver. Vera inclinou-se sobre ele, ajudando-o. Puxava e arrastava com toda a 
fora que tinha. Lombard ofegava.
 No  um trabalho muito fcil.
Contudo, afinal conseguiram arrastar o corpo para alm da linha de preamar.
 Satisfeita?  perguntou Lombard, endireitando o corpo.
 Perfeitamente.
Seu tom de voz advertiu-o. Girou sobre si mesmo. Mesmo ao bater com a mo no bolso, tinha certeza 
de que o encontraria vazio.
A moa recuara um ou dois metros e fazia-lhe frente, empunhando o revlver.
 Ento era essa a razo de sua solicitude feminina!  disse Lombard.  Queria roubar-me o 
revlver!
Ela sacudiu afirmativamente a cabea. Segurava a arma com firmeza, sem trepidar. A morte estava 
agora muito prxima de Philip Lombard. Nunca, bem o sabia ele, estivera to prxima. Contudo, ainda no 
estava derrotado.
 D-me esse revlver  disse em tom imperioso. Vera riu.
 Vamos, passe-o para c  insistiu Lombard.
Seu crebro trabalhava ativamente. Qual a maneira?... qual o mtodo?... Persuadi-la, embal-la com 
boas palavras... ou um salto rpido...
Durante toda a sua vida Lombard havia escolhido o processo mais arriscado. Escolheu-o agora.
Falou vagarosamente, como quem queria argumentar com ela:
 Olhe aqui, minha querida menina, escute o que eu vou dizer...
Ento saltou  rpido como uma pantera, ou qualquer outro felino...
Automaticamente, Vera puxou o gatilho...
O corpo de Lombard estacou em pleno salto e caiu pesadamente no cho.
Vera adiantou-se prudentemente, com o revlver pronto para um novo disparo.
Mas no havia necessidade de cautela.
Philip Lombard estava morto  com o corao varado...

III

Um sentimento de alvio apossou-se de Vera  imenso, delicioso alvio.
Finalmente, estava acabado.
No havia mais medo, mais necessidade de esforar-se para dominar os seus nervos...
Estava sozinha na ilha... Sozinha com nove cadveres... Mas que importava isso? Ela estava viva... 
Ficou sentada ali... indizivelmente feliz... banhada numa paz inefvel...
Acabara-se o medo...

IV

O sol estava no ocaso quando Vera afinal se moveu. Fora imobilizada pela simples reao emocional. 
No havia lugar nela para outra coisa que no fosse a maravilhosa sensao de segurana.
Percebeu, agora, que estava com fome e com sono. Principalmente com sono. Queria atirar-se na 
cama e dormir, dormir, dormir...
Amanh, talvez, viriam salv-la... mas isso, na realidade, no tinha importncia. No se importava de 
ficar aqui, agora que estava sozinha...
Oh! bendita, bendita paz...
Ps-se em p e relanceou os olhos para a casa.
Nada mais havia que recear! Acabaram-se os terrores! Apenas uma casa normal, moderna e bem 
construda. E contudo, um pouco antes, no podia olh-la sem estremecer...
O medo... que coisa estranha era o medo!...
Bem, tudo isso havia passado agora. Ela vencera... triunfara sobre o mais mortal dos perigos. Graas 
 sua sagacidade e destreza, invertera as posies e abatera o seu pretenso matador.
Comeou a caminhar em direo  casa.
O sol ia mergulhando no mar e o cu, no poente, estava raiado de vermelho e cor de laranja. Era uma 
cena bela e pacfica...
" como se tudo isso tivesse sido um sonho...", pensou Vera.
Como estava cansada... terrivelmente cansada! Doam-lhe os membros, caam-lhe as plpebras. No 
sentir mais medo. Dormir... dormir... dormir...
Dormir em segurana, agora que estava sozinha na ilha. Um negrinho a ss  apenas um...
184
Vera sorriu para si mesma.
Entrou pela porta da frente. A casa, tambm, estava estranhamente tranqila.
Vera pensou:
"Em circunstncias ordinrias, ningum dormiria numa casa com um cadver em quase todos os 
quartos!".
Ia  cozinha arranjar alguma coisa para comer.
Hesitou um momento e decidiu-se pelo contrrio. Estava demasiado cansada...
Deteve-se  porta da sala de jantar. Ainda havia trs figurinhas de porcelana no centro da mesa.
Vera riu, dizendo:
 Vocs esto atrasados, meus queridos.
Apanhou dois deles e jogou-os pela porta envidraada. Ouviu-os quebrar-se contra o terrao de pedra. 
Guardou na mo a terceira e ltima figurinha.
 Voc vem comigo. Ns vencemos, meu querido! Vencemos!
O hall estava escuro  luz moribunda do crepsculo.
Com o negrinho seguro na mo, Vera comeou a subir a escada  vagarosamente, porque sentia de 
sbito um grande cansao nas pernas.
Um negrinho aqui est a ss, apenas um. Como era que terminava? Ah! sim. Ele ento se casou, e 
no ficou nenhum.
Casar-se... Engraado que de repente lhe viesse de novo aquela impresso de que Hugo estava na 
casa...
Impresso muito ntida. Sim, Hugo estava l em cima,  sua espera.
 No sejas tola  disse Vera a si mesma.  Ests to cansada que te pes a imaginar as coisas 
mais fantsticas...
Lentamente ia subindo os degraus...
No patamar, alguma coisa caiu da sua mo, quase sem fazer rudo n espesso tapete. No percebeu 
que deixara cair o revlver. Apenas tinha conscincia de apertar entre os dedos uma figurinha de porcelana.
Como a casa estava silenciosa! E contudo... no parecia uma casa vazia...
Hugo ali em cima,  espera dela...
Um negrinho aqui, est a ss, apenas um. Como era mesmo o ltimo verso? Falava de casar-se... ou 
seria outra coisa?
Tinha chegado  porta do seu quarto. Hugo a esperava l dentro  tinha plena certeza disso.
Abriu a porta...
Que era aquilo, a pender do gancho no teto? Uma corda com a laada pronta? E uma cadeira para 
subir em cima... uma cadeira que podia ser derrubada com um pontap...
Era aquilo o que Hugo queria...
E era isso, est claro, o que dizia o ltimo verso:
Ele ento se enforcou, e no ficou nenhum...
A figurinha de porcelana caiu-lhe da mo. Rolou desprezada e foi quebrar-se de encontro ao guarda-
fogo da lareira.
Como um autmato, Vera avanou. Este era o fim... ali, onde a mo fria e molhada (a mo de Cyril, 
naturalmente), lhe tocara no pescoo...
Voc pode ir at o penedo, Cyril...
Eis o que era assassinar... uma coisa to fcil!
Mas, depois, a gente no parava de recordar-se...
Subiu na cadeira com os olhos fixos na sua frente, como uma sonmbula... Ajustou o n em torno do 
pescoo.
Hugo estava ali para tratar de que ela fizesse o que tinha de fazer.
Vera deu um pontap na cadeira...


EPLOGO

Sir Thomas Legge, Chefe de Investigao Criminal da Scotland Yard, disse com irritao:
 Mas isso tudo  incrvel!
O Inspetor Maine acudiu respeitosamente:
 Bem o sei, senhor. O C. I. C. continuou:
 Dez pessoas mortas numa ilha, e no h ali um s vivente. Isso no faz sentido!
 Contudo, aconteceu, senhor  observou o inspetor, imperturbvel.
 Com mil diabos, Maine, algum deve t-los matado!
  justamente esse o nosso problema, senhor.
 Nada de esclarecedor no laudo mdico?
 No, senhor. Wargrave e Lombard foram baleados, o primeiro na cabea, o segundo no corao. 
Miss Brent e Marston morreram envenenados por cianeto. A Sra. Rogers morreu em conseqncia de uma 
dose excessiva de cloral. A cabea de Blore foi esmagada. Armstrong morreu afogado. Macarthur teve o 
crnio fraturado por um golpe na nuca e Vera Claythorne morreu enforcada.
 Uma coisa medonha  disse o C. I. C, arrepiado. Sir Thomas refletiu um momento e prosseguiu, 
sempre no mesmo tom de irritao:
 Como  possvel que voc no tenha conseguido extrair nada de proveitoso dessa gente de 
Sticklehaven? Que diabo, eles devem saber de alguma coisa! O Inspetor Maine deu de ombros.
  uma povoao de pescadores, gente comum e honesta. Sabem que a ilha foi comprada por um 
homem chamado Owen... e isso  mais ou menos tudo que sabem.
 Quem abasteceu a ilha e fez todos os arranjos necessrios?
 Um sujeito chamado Morris. Isaac Morris.
 E que diz ele a respeito de tudo isso?
 No pode dizer nada, senhor. Morreu. Sir Thomas franziu o sobrolho.
 Sabe-se alguma coisa a respeito desse tal Morris?
 Oh! sim. Sabemos bastante, senhor. Morris no era trigo limpo. Esteve implicado naquela vigarice 
das aes da Bennito, trs anos atrs... temos certeza disso, embora no possamos provar nada. Tambm 
andava metido no trfico de entorpecentes, mas a tampouco tnhamos provas positivas contra ele. Era um 
sujeito muito cauteloso, o Morris.
 E foi ele quem se encarregou desse negcio da ilha?
 Sim, senhor. Foi ele quem a comprou, embora deixando bem claro que o fazia em nome de um 
terceiro, no designado.
 Mas certamente se poder descobrir alguma coisa pelo exame do lado financeiro da transao?
O Inspetor Maine sorriu.
 Bem se v que o senhor no conheceu Morris! Fazia tais malabarismos com nmeros que o melhor 
contabilista do pas se via em papos de aranha para entender a sua escrita! Tivemos uma amostra disso no 
caso da Bennito. No, ele soube cobrir muito bem a pista do seu mandatrio.
O C. 1. C. suspirou, e Maine prosseguiu:
 Foi Morris quem fez todos os arranjos l em Sticklehaven. Apresentou-se como um agente do "Sr. 
Owen". E foi ele quem explicou ao povo de l que se pretendia realizar uma certa experincia... uma aposta 
a respeito de passar uma semana numa "ilha deserta"... e que no deviam dar nenhuma ateno a qualquer 
pedido de auxlio que viesse da ilha.
Sir Thomas Legge mexeu-se inquieto na cadeira e disse:
 Quer me dizer que essa gente no desconfiou de nada? Nem mesmo assim?
Maine deu de ombros.
 O senhor esquece que a Ilha do Negro pertencera anteriormente ao jovem Elmer Robson, o 
americano. Ele dava na ilha as festas mais extraordinrias. No duvido que a populao da aldeia tivesse 
arregalado os olhos com as tais festas. Mas acabaram se acostumando e comearam a achar tudo que se 
relacionava com a Ilha do Negro seria necessariamente incrvel. Pensando bem, senhor,  uma coisa 
natural.
Sir Thomas admitiu, carrancudo, que talvez fosse assim.
Maine continuou a sua exposio:
 Fred Narracott, o homem que transportou os convidados para a ilha, disse uma coisa muito 
esclarecedora. Declarou ter-se admirado ao ver a espcie de gente que levava na sua lancha. "Nada que se 
parecesse com os convidados do Sr. Elmer Robson." Acho que foi a circunstncia de serem os seus 
passageiros pessoas to tranqilas e to normais que o levou a desobedecer as ordens de Morris e ir at a 
ilha quando ouviu falar nos sinais de S. O. S.
 Quando foi ele  ilha com os outros homens?
 Os sinais foram vistos por um grupo de escoteiros na manh do dia 11. Nesse dia no havia 
possibilidade de chegar at l. Os homens saram na tarde do dia 12, logo que foi possvel encostar ali um 
barco. Todos esto certos de que ningum podia ter sado da ilha antes de eles l chegarem. O mar ficou 
muito agitado depois da tormenta.
 Algum no poderia ter nadado at a praia?
 A ilha fica mais de uma milha da costa e as ondas quebravam-se na praia com grande violncia. 
Alm disso, havia l muita gente, escoteiros e curiosos postados nos penedos a observar a ilha.
O C. I. C. suspirou e disse:
 E quanto a esse disco que voc encontrou na casa? No descobriu nada que nos pudesse ser til?
 Estive investigando isso. O disco foi fornecido por uma firma que grava coisas para teatro e efeitos 
sonoros em filmes. Foi remetido ao Sr. U. N. Owen, aos cuidados de Isaac Morris, e passava por destinar-
se  representao de uma pea indita, a ser realizada por um grupo de amadores. O original datilografado 
foi devolvido juntamente com o disco.
 E quanto ao contedo?  perguntou Legge. O Inspetor Maine respondeu gravemente:
 Vou falar disso agora, senhor.
E, depois de consertar a garganta prosseguiu:
 Investiguei essas acusaes to bem quanto me foi possvel. Comecei pelos Rogers, que foram os 
primeiros a chegar na ilha. O casal esteve a servio de uma certa Miss Brady, que morreu repentinamente. 
No consegui nada de positivo com o mdico que a assistira. Diz ele que os Rogers certamente no a 
envenenaram, nem qualquer coisa de semelhante, mas pessoalmente acha o caso esquisito... suspeita 
que a mulher morreu devido a negligncia por parte do casal. Diz que  uma dessas coisas que no se 
pode provar.
"Vem depois o Juiz Wargrave. Seu caso est perfeitamente esclarecido. Foi ele o magistrado que 
condenou Seton.
Seton, diga-se de passagem, era culpado  insofismavelmente culpado. Novos elementos surgidos 
mais tarde, depois que ele foi enforcado, provam cabalmente a sua culpa. Mas houve muitos comentrios 
na ocasio... Nove pessoas em dez julgavam Seton inocente e achavam que o sumrio do juiz tinha sido 
feroz.
"Quanto  moa, Claythorne, descobri que foi governanta de uma famlia onde ocorreu uma morte por 
afogamento. Contudo, ela no parece ter tido nada que ver com isso, pois at se portou muito bem, 
nadando para salvar a criana, e ela prpria foi arrastada pela correnteza e teve que ser salva por outros 
quando j no podia mais consigo."
 Adiante  fez o C. I. C. com um suspiro. Maine respirou fundo.
 Agora, o Dr. Armstrong. Homem muito conhecido. Tinha um consultrio em Harley Street. 
Absolutamente honesto e impecvel no exerccio da sua profisso. No h nenhuma notcia de operaes 
ilcitas ou qualquer coisa desse gnero.  certo que houve uma mulher chamada Clees, que foi operada por 
ele em 1925, em Leithmore, quando Armstrong estava adido ao hospital da localidade. Peritonite. Morreu na 
mesa de operao. Talvez ele tenha sido um pouco inbil... Ainda era novato... mas, afinal de contas, 
inabilidade no constitui crime. E, positivamente, no havia motivo para homicdio.
"Depois, temos Miss Emily Brent. A rapariga, Beatrice Taylor, era sua empregada. Ficou grvida, foi 
posta na rua pela patroa e afogou-se. No  uma histria muito bonita, mas tambm no se pode qualificar 
de crime."
 A parece estar a chave da coisa  disse Sir Thomas.  U. N. Owen escolheu casos que a lei no 
podia alcanar.
O Inspetor Maine continuou impassivelmente com a sua lista:
 O Jovem Marston era um motorista com a mania da velocidade. Teve sua licena suspensa por 
duas vezes e, na minha opinio, deviam t-la cassado definitivamente. Isso  tudo que h a seu respeito. 
John e Lucy Combes so os nomes de um casal de garotos que ele atropelou e matou perto de Cambridge. 
Alguns amigos depuseram a seu favor e o rapaz foi posto em liberdade mediante o pagamento de uma 
multa.
"No pude averiguar nada de definido a respeito do Gen. Macarthur. Boa folha de servio... esteve na 
guerra, e o mais que segue. Arthur Richmond servia sob as suas ordens na Frana, e foi morto em ao. 
No houvera qualquer atrito entre ele o general. Eram, alis, amigos ntimos. Foram cometidos alguns erros 
nessa poca... oficiais comandantes sacrificaram os seus homens sem necessidade... possivelmente 
tratou-se de um erro dessa natureza."
 Possivelmente  disse o C. I. C.
 Agora vejamos Philip Lombard. Lombard estivera metido em coisas muito complicadas no 
estrangeiro. Por uma ou duas vezes andou muito perto de cair nas malhas da lei. Tinha fama de arrojado e 
pouco escrupuloso. O tipo do sujeito capaz de cometer vrias mortes em algum lugar afastado.
"Chegamos finalmente a Blore.  Maine hesitou.  Ele era um dos nossos, naturalmente." O outro 
mexeu-se na cadeira.
 Blore no era boa coisa!
 Acha, senhor?
 Sempre achei  respondeu Legge.  Mas era bastante esperto para fazer das suas e escapar 
impune.  minha opinio que, no caso Landor, o seu testemunho foi deliberadamente falso. Isso me causou 
grande mal-estar na ocasio, mas no pude encontrar provas. Encarreguei Harris de investigar o assunto, e 
tambm ele no conseguiu descobrir nada. Mas ainda sou de opinio que havia alguma coisa a descobrir 
se tivssemos procedido com acerto. Esse homem no era honesto.
Sir Thomas fez uma pausa, depois perguntou:
 E Isaac Morris, morreu, diz voc? Quando foi isso?
 J esperava por esta pergunta, senhor. Isaac Morris morreu na noite de 8 de agosto. Tomou uma 
dose excessiva de remdio para dormir  um barbiturato, segundo estou informado. No foi possvel 
determinar se era caso de suicdio ou acidente.
Legge disse devagar:
 Quer saber o que eu penso, Maine?
 Creio que posso adivinhar, senhor.
 A morte de Harris  demasiado oportuna!  declarou Legge pesadamente.
O Inspetor Maine aprovou com a cabea.
 Esperava que o senhor dissesse isso.
O C. I. C. deu uma punhada na mesa, bradando:
 Toda essa histria  fantstica, impossvel! Dez pessoas assassinadas numa ilha que no passa 
de um rochedo nu... e ns no sabemos por quem, nem por qu, nem como.
Maine tossiu.
 Bem, no  exatamente assim, senhor. Sabemos mais ou menos por qu. Algum fantico com a 
mania de fazer justia. Seu plano era justiar pessoas que houvessem escapado  ao da lei. Escolheu 
dez indivduos... se eram ou no eram realmente culpados, isso no interessa...
Sir Thomas agitou-se na cadeira e disse vivamente:
 No interessa? Parece-me que...
No terminou a frase. Maine aguardava respeitosamente. Legge suspirou e abanou a cabea.
 Continue. Por um instante me pareceu que havia percebido alguma coisa. Que encontrara, por 
assim dizer, a chave do enigma. Mas escapou-me. Continue com o que estava dizendo.
Maine prosseguiu:
 Havia dez pessoas para serem... executadas, digamos. U. N. Owen cumpriu a sua tarefa. Depois, 
no sei como, desapareceu no ar como um fantasma.
 Um incomparvel passe de mgica  disse o C. I. C.  Mas, como sabe, Maine, tem de haver 
uma explicao.
 O senhor est pensando que, se o homem no se achava na ilha, no podia ter deixado a ilha; e, 
de acordo com o relato das partes interessadas, ele nunca esteve na ilha. Bem, ento a nica explicao  
que ele era uma das dez pessoas.
O C. I. C. assentiu com um gesto de cabea.
 Pensamos nisso, senhor  disse Maine gravemente.  Examinamos essa possibilidade. Para 
comear, no estamos completamente s escuras sobre o que aconteceu na Ilha do Negro. Vera 
Claythorne escrevia um dirio. Emily Brent tambm. O velho Wargrave tomou algumas notas  em 
linguagem forense, seca, hermtica, mas suficientemente clara. E h tambm notas de Blore. Todos esses 
relatos combinam. As mortes ocorreram na seguinte ordem: Marston, a Sra. Rogers, Macarthur, Rogers, 
Miss Brent, Wargrave. Depois da morte deste, o dirio de Vera Claythorne registra que Armstrong saiu da 
casa durante a noite e que Lombard e Blore foram atrs dele. Blore fez mais um apontamento no seu 
livrinho de bolso, apenas duas palavras: "Armstrong desapareceu."
"Pois bem, senhor: pareceu-me que, levando-se tudo em conta, podamos ter aqui uma soluo 
perfeitamente boa. Armstrong morreu afogado, lembre-se. Admitindo-se que Armstrong estava louco, que  
que o impedia de matar todos os outros e depois se suicidar atirando-se do alto do rochedo, ou talvez 
afogar-se enquanto procurava alcanar a costa a nado?
"Essa seria uma boa soluo... mas no d certo. No, senhor, no d certo. Em primeiro lugar, h o 
laudo do mdico legista. Chegou  ilha na manh de 13 de agosto e no pde dizer muita coisa que nos 
ajudasse. Tudo que pde dizer foi que as dez pessoas tinham morrido havia pelo menos trinta e seis horas, 
talvez bastante mais. Mas foi muito positivo a respeito de Armstrong. Disse que o corpo do mdico devia ter 
permanecido de oito a dez horas dentro d'gua antes de ser lanado  costa da ilha. Da se deduz que 
Armstrong deve ter-se afogado durante a noite de 10 para 11 de agosto, e vou explicar por qu. 
Localizamos o ponto em que o corpo veio dar  costa: tinha ficado entalado entre duas rochas, nas quais 
se viam fragmentos de roupa, fios de cabelo etc. O corpo deve ter sido depositado ali durante a mar alta 
do dia 11  isto , mais ou menos pelas onze horas da manh. Depois disso a tormenta diminuiu, e as 
posteriores linhas de preamar so consideravelmente mais baixas.
"O senhor poderia dizer, suponho, que Armstrong conseguiu dar cabo dos outros trs antes de nessa 
noite entrar no mar. Mas h um detalhe que no se pode passar por alto. O corpo de Armstrong foi 
arrastado acima da linha de preamar. Encontramo-lo fora do alcance de qualquer mar. E estava 
corretamente estendido no cho, muito bem arranjadinho.
"Dessa maneira, um ponto fica definitivamente estabelecido. Algum estava vivo na ilha depois que 
Armstrong morreu."
O inspetor fez uma pausa e continuou:
 E isso nos deixa com... o qu, exatamente! Eis aqui a situao na ilha pela manh do dia 11: 
Armstrong "desapareceu" (afogado). Restam-nos trs pessoas: Lombard, Blore e Vera Claythorne. 
Lombard foi morto  bala. Seu corpo estava  beira-mar, prximo ao cadver de Armstrong. Vera Claythorne 
foi encontrada enforcada no seu quarto. O corpo de Blore estava no terrao, com a cabea esmagada por 
um pesado bloco de mrmore que  razovel supor tivesse cado da janela que ficava acima.
 Que janela?  perguntou vivamente o C. I. C.
 A do quarto de Vera Claythorne. Agora, senhor, examinemos separadamente cada um desses 
casos. Primeiro, Philip Lombard. Digamos que foi ele quem deixou cair o bloco de mrmore na cabea de 
Blore, depois deu alguma droga a Vera Claythorne e enforcou-a. Finalmente, desceu at a beira do mar e 
matou-se com um tiro no corao. Mas, nesse caso, quem levou o revlver dali? Porque o revlver foi 
encontrado dentro da casa, num quarto do andar superior  o quarto de Wargrave  bem junto da porta.
 Tinha impresses digitais?  perguntou o C. I. C.
 Sim, senhor, as de Vera Claythorne.
 Mas, homem de Deus, ento...
 J sei o que quer dizer: que foi Vera Claythorne. Que ela matou Lombard, levou o revlver consigo 
para dentro, derrubou o bloco de mrmore sobre a cabea de Blore e depois... enforcou-se.
"E isso  muito plausvel... at certo ponto. No quarto dela havia uma cadeira em cujo assento, assim 
como nos sapatos da moa, foram observadas marcas de algas. Parece que ela subiu nessa cadeira, 
enfiou o lao de corda no pescoo e depois derrubou a cadeira.
"Mas acontece que a cadeira no foi encontrada cada no cho. Estava, como todas as outras 
cadeiras, corretamente colocada contra a parede. Isso foi feito depois da morte de Vera Claythorne... por 
alguma outra pessoa.
"Resta, pois, Blore; e, se o senhor me disser que, aps ter morto Lombard e induzido Vera Claythorne 
a enforcar-se, ele saiu para o terrao e derrubou sobre si mesmo um pesado bloco de mrmore atado a 
uma corda ou coisa parecida... bem, eu simplesmente no acreditarei. Ningum se suicida desse modo... 
e, o que mais , Blore no era esse tipo de homem. Ns o conhecamos bem... no era um homem a quem 
jamais se pudesse acusar de ter a mania da justia abstrata.
 De acordo  disse o C. I. C.
 Por conseguinte, senhor, devia haver algum mais na ilha. Algum que ps tudo em ordem depois 
que o negcio estava terminado. Mas onde estava ele durante todo esse tempo? E para onde foi? Os 
habitantes de Sticklehaven esto absolutamente certos de que ningum podia ter deixado a ilha antes da 
chegada do barco de salvamento. Mas, nesse caso...
Maine deteve-se.
 Nesse caso...  disse Sir Thomas. Suspirou, abanou a cabea e inclinou-se para a frente.  Mas, 
nesse caso, quem os matou?

Documento manuscrito remetido 
Scotland Yard pelo mestre da
traineira "Emma Jane"

Desde verdes anos percebi que minha natureza era um aglomerado de contradies. Tenho, para 
comear, uma imaginao incuravelmente romntica. O costume de jogar ao mar uma garrafa contendo 
algum documento importante foi dos que nunca deixaram de me fazer vibrar quando, em criana, lia 
histrias de aventuras. Ainda me faz vibrar  e  por isso que adoto agora esta linha de conduta: escrever 
minha confisso, encerr-la numa garrafa, lacrar esta ltima e lan-la s ondas. H, penso eu, uma 
probabilidade entre cem de que minha confisso seja encontrada  e ento (ou estarei a gabar-me?) um 
mistrio at agora sem soluo ser finalmente esclarecido.
Nasci com outras caractersticas alm de minha fantasia romntica. Sinto um prazer positivamente 
sdico em presenciar ou em causar a morte. Lembro-me de meus experimentos com besouros  com 
vrias pragas de jardim... Desde pequeno conheci a extraordinria volpia de matar.
Mas, ao lado desse, h um trao contraditrio  um acentuado sentimento de justia. Horroriza-me o 
fato de que uma pessoa ou um animal inocente possa sofrer ou morrer em conseqncia de um ato meu. 
Sempre tive a forte convico de que a justia deve prevalecer.
Entende-se  creio que um psiclogo entender  que com semelhante formao mental eu tenha 
adotado a profisso jurdica. Essa profisso satisfazia quase todos os meus instintos.
O crime e o castigo sempre me fascinaram. Deleito-me com a leitura de toda espcie de histria 
detetivesca ou de aventuras. Ideei, para minha satisfao particular, as mais engenhosas maneiras de 
executar um assassinato.
Quando, no devido tempo, cheguei a presidir um tribunal, esse meu outro instinto secreto teve campo 
para desenvolver-se. Ver um miservel criminoso estorcer-se no banco. dos rus, sofrendo as torturas dos 
malditos, enquanto a sua hora se aproximava cada vez mais, era para mim um prazer indescritvel. Note-se 
que eu no experimentava prazer em ver ali um homem inocente. Em duas ocasies, pelo menos, encerrei 
processos em que a inocncia do ru era palpvel, fazendo ver ao jri esse fato. Graas, entretanto,  
probidade e eficincia de nossa fora policial, a maioria dos rus que condenei por homicdio eram 
realmente culpados.
Direi aqui que esse foi o caso de Edward Seton. Sua atitude e maneiras eram enganosas, e ele 
produziu boa impresso no jri. Mas no apenas as provas, que eram claras sem serem espetaculares, 
como tambm o meu conhecimento dos criminosos em geral, mostraram-me sem qualquer sombra de 
dvida que o homem tinha efetivamente cometido o crime que lhe era imputado, o brutal assassnio de uma 
mulher idosa que depositara confiana nele.
Tenho fama de ser um juiz verdugo, mas isso  injusto. Sempre procedi de modo estritamente justo e 
escrupuloso ao fazer o sumrio de um processo.
Tudo quanto fazia era proteger o conselho de sentena contra o efeito emocional dos apelos 
comoventes feitos por alguns de nossos advogados mais emotivos. Exortava-os sempre a concentrar sua 
ateno nas provas dos autos.
Desde h alguns anos percebi que uma mudana se operava dentro de mim  um afrouxamento de 
controle, um desejo de agir em vez de julgar.
O que eu queria, em suma, era cometer eu prprio um assassinato. Reconheci nesse fenmeno o 
desejo de auto-expresso do artista! Eu era, ou podia ser, um artista no crime! Minha imaginao, 
severamente controlada pelas exigncias de minha profisso, ia armazenando secretamente uma fora 
colossal.
Eu precisava... precisava... precisava cometer um crime! E, o que  mais, no devia ser um crime 
comum! Devia ser um crime fantstico  algo de estupendo e sem precedentes! A esse respeito, creio que 
ainda tenho uma imaginao de adolescente.
Desejava qualquer coisa de teatral, impossvel!
Queria matar... Sim, queria matar...
Mas  por incongruente que isso possa parecer a alguns  era tolhido pelo meu sentimento inato de 
justia. Os inocentes no deviam sofrer.
Ento, subitamente, veio-me a idia  despertada por uma observao fortuita ouvida em palestra. 
Estava conversando com um mdico  algum clnico geral, comum e obscuro  e ele mencionou 
casualmente que devia ser grande o nmero de crimes de morte que escapavam  alada da lei.
E, como exemplo, meu interlocutor citou um caso particular: o de uma velha senhora, sua cliente, 
falecida h pouco. Disse estar convencido de que sua morte se devera  supresso de uma droga 
revigorante por certo casal que se achava a servio da referida senhora e que receberia um legado 
considervel por sua morte. Era uma coisa, explicou-me ele, que no havia nenhum jeito de provar, e 
contudo tinha plena certeza de que assim fora. E acrescentou que eram comuns os casos desse gnero  
casos de homicdio premeditado, completamente inacessveis  lei.
Isso foi o princpio de tudo. De repente, vi com toda a clareza o caminho a seguir. E resolvi cometer, 
no apenas um assassinato, mas um assassinato em grande escala.
Vieram-me  memria uns versos de minha infncia  a conhecida histria dos dez negrinhos. Esses 
versos me haviam fascinado quando eu era um pimpolho de dois anos... a inexorvel diminuio do 
nmero... o sentimento de inevitabilidade.
Comecei, secretamente, a recrutar vtimas.
No tomarei espao entrando em pormenores sobre como tal coisa foi posta em prtica. Adotei uma 
certa linha habitual de conversao, que empregava com quase todas as pessoas com quem falava  e os 
resultados que obtive foram em verdade surpreendentes. Durante o tempo que passei numa casa de sade, 
inteirei-me do caso do Dr. Armstrong: uma freira apaixonadamente anti-alcolica que me assistia, ansiosa 
por provar os males causados pela bebida, contou-me um fato ocorrido num hospital havia muitos anos, 
quando um mdico, sob a influncia do lcool, matara uma paciente de cirurgia. Uma pergunta descuidada 
sobre o hospital em que havia trabalhado a irm em apreo etc., no tardou a fornecer-me os dados 
necessrios. Descobri sem dificuldades quem era o mdico mencionado e quem a paciente.
Uma palestra entre dois velhos militares do meu clube ps-me no rastro do Gen. Macarthur. Um 
homem recm-vindo do Amazonas fez-me um resumo devastador das atividades de um certo Philip 
Lombard. A indignada esposa de um funcionrio consular britnico em Maiorca relatou-me a histria da 
puritana Emily Brent e de sua infeliz criada. Anthony Marston foi por mim escolhido entre um grande 
nmero de pessoas que haviam cometido crimes semelhantes. Seu corao empedernido e sua completa 
irresponsabilidade como motorista faziam dele, segundo pensei, um tipo perigoso para a comunidade e 
indigno de viver. O ex-Inspetor Blore apresentou-se, por assim dizer, naturalmente. Alguns colegas meus, 
discutindo o caso Landor com liberdade e vigor, levaram-me a encarar com seriedade o seu crime. O 
policial, como servo da lei, deve ser absolutamente ntegro, pois sua palavra  forosamente acreditada em 
virtude da sua profisso.
Finalmente, tive conhecimento do caso de Vera Claythorne. Foi quando eu atravessava o Atlntico. 
Certa noite, a uma hora tardia, os nicos ocupantes do salo de fumar ramos eu e um moo de boa 
aparncia, chamado Hugo Hamilton.
Hugo Hamilton sentia-se muito infeliz e, para aliviar suas mgoas, havia ingerido considervel 
quantidade de bebida. Estava na fase sentimental das confidencias alcolicas. Sem grande esperana de 
alcanar algum resultado, entabulei automaticamente a minha conversa de sempre. A reao foi 
surpreendente. Ainda hoje guardo a memria exata de suas palavras.
 O senhor tem razo  disse ele.  Um assassinato no  o que muita gente pensa: dar a algum 
um punhado de arsnico, empurr-lo do alto de um rochedo ou coisa parecida.  Inclinou-se para a frente, 
chegando o rosto ao meu, e continuou:  Conheci uma assassina... sim, senhor, conheci! E, o que  
mais, estava apaixonado por ela... Deus me perdoe, s vezes penso que ainda estou...  um inferno, digo-
lhe eu... um inferno! Acontece que ela matou mais ou menos por minha causa... E eu na mais completa 
ignorncia do que se passava na sua cabea... As mulheres so demnios... perfeitos demnios... Quem 
pensaria que uma moa como aquela... uma moa linda, alegre, direita... quem pensaria que ela fosse 
capaz de tal coisa? O senhor pensaria? Que ela levasse um garoto para o mar e o deixasse afogar-se... O 
senhor pensaria que uma mulher era capaz de tanto?
 Est certo de que ela fez isso?  perguntei.
O rapaz respondeu  e, enquanto falava, pareceu passar-lhe subitamente a embriaguez:
 To certo como de que dois e dois so quatro. Ningum jamais desconfiou disso, mas eu adivinhei 
logo que pus os olhos nela... depois, quando voltei... E ela viu que eu sabia... O que no tinha percebido 
era que eu queria muito bem quele garoto...
No disse mais. Todavia, foi-me bastante fcil encontrar a pista e reconstruir a histria.
Eu precisava de uma dcima vtima. Encontrei-a num homem chamado Morris. Era um sujeitinho 
tenebroso. Entre outras coisas, traficava com entorpecentes e era responsvel pelo vcio da filha de uns 
amigos meus, que acabou por suicidar-se aos vinte e um anos.
Durante todo esse tempo de busca o meu plano viera amadurecendo gradualmente. Estava agora 
completo, e o remate foi dado por uma entrevista que tive com um mdico de Harley Street. J mencionei 
que havia sofrido uma operao. A consulta em Harley Street revelou-me que uma segunda operao seria 
intil. O meu mdico soube dourar muito bem a plula, mas estou acostumado a descobrir a verdade que se 
oculta por baixo de uma declarao.
No disse ao mdico o que havia decidido: que no teria uma morte lenta e arrastada como fazia 
prever a natureza da enfermidade. No, minha morte havia de ocorrer em meio a um fulgor de excitao. Eu 
viveria antes de morrer.
Passemos agora ao mecanismo do crime da Ilha do Negro. Foi-me bastante fcil adquirir a ilha, 
encobrindo-me sob o nome de Morris. Ele era um tcnico nessa espcie de coisas. Catalogando as 
informaes que reunira sobre minhas futuras vtimas, pude arranjar uma isca apropriada para cada uma 
delas. Nenhum de meus planos fracassou. Todos os meus convidados chegaram  Ilha do Negro no dia 8 
de agosto. Eu estava entre eles.
J havia tomado minhas disposies quanto a Morris. O homem sofria de indigesto. Antes de deixar 
Londres, dei-lhe uma cpsula para tomar ao deitar-se, cpsula essa que, segundo lhe disse, havia 
produzido efeitos maravilhosos sobre o meu suco gstrico. Ele aceitou sem hesitar  era um tanto 
hipocondraco. Eu no tinha o menor receio de que ele deixasse notas ou documentos comprometedores. 
Isso no era do seu feitio.
A ordem das mortes na ilha fora objeto de um estudo especialmente cuidadoso. Levei em conta que, 
entre os meus hspedes, havia diferentes graus de culpa. Os menos culpados seriam os primeiros a morrer 
e no sofreriam a prolongada tenso mental e o medo reservados aos criminosos mais frios.
Anthony Marston e a Sra. Rogers morreram na mesma noite do dia 8, um instantaneamente, a outra 
durante um sono tranqilo. Eu reconhecia que Marston era um indivduo nascido sem o sentimento de 
responsabilidade moral que a maioria de ns possui. Era amoral  pago. Quanto  Sra. Rogers, no tinha 
dvida de que procedera em grande parte sob a influncia do marido.
No  preciso descrever em pormenores como morreram esses dois. A polcia no deve ter tido 
trabalho em averigu-lo. O cianeto de potssio  facilmente adquirido pelas donas de casa para matar 
vespas. Eu tinha uma certa quantidade em meu poder, e no tive dificuldade em p-lo no copo vazio de 
Marston, em meio  confuso geral causada pela recitao fonogrfica.
Posso dizer que observei atentamente as fisionomias de meus convidados durante a denncia e que 
no tive a menor dvida, graas  minha longa experincia no foro, de que todos eram culpados.
Por ocasio de recentes crises de dores fora-me receitado um soporfero  hidrato de cloral. A cada 
repetio da receita pusera de parte dois ou trs comprimidos, at acumular uma dose mortal. Quando 
Rogers trouxe um pouco de conhaque para a sua mulher, deps o copo em cima de uma mesa, e ao 
passar por essa mesa deitei a droga no conhaque. Foi fcil porque, naquela ocasio, ningum suspeitava 
ainda de nada.
O Gen. Macarthur teve uma morte indolor. Foi preciso, naturalmente, escolher com muito cuidado o 
momento de deixar o terrao, mas tudo correu s mil maravilhas.
Conforme eu tinha previsto, deu-se busca  ilha e descobriu-se que nela no havia ningum a no 
sermos ns sete. Isso criou imediatamente uma atmosfera de suspeita. De acordo com o meu plano, eu 
iria precisar dentro em pouco de um aliado. Escolhi o Dr. Armstrong para esse papel. Era um homem 
crdulo, conhecia-me de vista e de reputao, e jamais poderia conceber que um homem de minha posio 
fosse um assassino! Todas as suas suspeitas se concentravam em Lombard, e eu fingia concordar com 
ele. Dei-lhe a entender que tinha um plano graas ao qual seria talvez possvel apanhar o assassino, 
levando-o a incriminar-se por si prprio.
Embora tivessem sido revistados todos os quartos, nenhuma busca fora ainda feita em nossas 
pessoas. Mas isso no tardaria a acontecer.
Matei Rogers na manh de 10 de agosto. Ele estava tirando lascas de lenha para acender o fogo e no 
ouviu os meus passos. Encontrei a chave da sala de jantar no seu bolso, pois ele a tinha fechado na noite 
anterior.
Na confuso que se seguiu ao descobrimento do corpo de Rogers, penetrei no quarto de Lombard e 
apoderei-me do seu revlver. Sabia que ele estaria armado: eu mesmo dera instrues a Morris para que 
lhe sugerisse essa precauo ao entrevistar-se com ele.
Enquanto tomvamos caf, deitei minha ltima dose de cloral na segunda xcara que servi a Miss 
Brent. Deixamo-la na sala de jantar. Penetrei ali um pouco mais tarde  encontrei-a quase inconsciente e 
foi fcil injetar-lhe uma forte soluo de cianeto. A histria da abelha foi, realmente, um tanto infantil... Mas, 
sabem? de certo modo isso me causava prazer. Agradava-me aderir tanto quanto possvel ao texto dos 
versos.
Imediatamente aps, aconteceu o que eu j tinha previsto... creio, mesmo, que a sugesto partiu de 
mim. Todos nos submetemos a uma busca rigorosa. J havia escondido o revlver em lugar seguro e no 
tinha mais cianeto nem cloral em meu poder.
Avisei ento a Armstrong que chegara o momento de pr em prtica o nosso plano. Em resumo, 
tratava-se do seguinte: eu aparentaria ser a prxima vtima. Isso talvez pusesse o assassino fora dos eixos, 
levando-o a denunciar-se... mas, de qualquer forma, depois de passar por morto eu poderia andar pela casa 
e espreitar os passos do assassino desconhecido.
Armstrong aceitou pressurosamente a idia. Executamo-la nessa mesma tarde. Um pequeno 
emplastro de barro vermelho na testa, a cortina escarlate e a l, e estava armada a cena. A luz das velas 
era muito vacilante e incerta, e a nica pessoa que me examinaria de perto seria Armstrong.
O xito foi completo. Miss Claythorne quase deitou a casa abaixo com os seus gritos quando foi 
roada pela alga, que eu previdentemente havia pendurado no seu quarto. Todos se precipitaram escada 
acima e eu assumi a minha pose de assassinado.
Quando me encontraram, o efeito foi alm dos meus desejos. Armstrong desempenhou a sua parte 
como perfeito profissional que era. Levaram-me para cima e deitaram-me na minha cama. Ningum se 
preocupou comigo, pois todos estavam apavorados, com medo uns dos outros.
Tinha marcado um encontro com Armstrong fora da casa, s duas menos um quarto. Conduzi-o para a 
beira do rochedo, nos fundos, dizendo que dali podamos ver se algum se aproximava de ns e que no 
poderamos ser avistados da casa, porquanto os dormitrios davam para o outro lado. Ele ainda no 
alimentava a menor suspeita  e contudo devia estar prevenido, se tivesse presentes as palavras da 
historieta infantil: "a um tragou de vez o arenque defumado..." Armstrong caiu na armadilha como um 
patinho.
Foi faclimo. Soltei uma exclamao e inclinei-me sobre a beira do rochedo dizendo-lhe que olhasse l 
embaixo: aquilo no era a entrada de uma caverna? Ele se inclinou para olhar. Um rpido e vigoroso 
empurro f-lo perder o equilbrio e cair no mar, que estrugia l embaixo. Voltei para a casa. Deve ter sido 
dos meus passos o rudo que Blore ouviu. Poucos minutos depois de ter voltado ao quarto de Armstrong 
tornei a sair, desta vez fazendo um pouco de rudo a fim de que algum me ouvisse. Quando acabei de 
descer a escada ouvi abrir-se uma porta. Eles devem ter entrevisto o meu vulto quando saa pela porta da 
frente.
Decorreram alguns momentos antes que viessem no meu encalo. Dobrei simplesmente a esquina da 
casa e tornei a entrar pela porta envidraada da sala de jantar, que deixara aberta. Fechei-a e em seguida 
quebrei o vidro. Subi ento a escada e estendi-me de novo na minha cama.
Calculei que eles tornassem a revistar a casa, mas no acreditava que examinassem com ateno 
qualquer dos cadveres. Quando muito, afastariam o lenol para certificar-se de que no era Armstrong 
fingindo-se de morto. Foi isso exatamente o que ocorreu.
Esquecia-me de dizer que havia devolvido o revlver ao seu lugar, no quarto de Lombard. Talvez 
interesse a algum saber onde escondi a arma durante a busca. Havia uma grande pilha de latas de 
conserva na despensa. Abri a lata que ficava mais embaixo  continha biscoitos, se no me engano  
coloquei nela o revlver e repus a fita adesiva que a fechava.
Calculei, com acerto, que ningum pensaria em procurar a arma numa pilha de latas aparentemente 
intatas, mormente quando as latas de cima eram todas soldadas.
Quanto  cortina vermelha, eu a escondera no assento de uma das poltronas do salo, embaixo do 
forro de chintz, e a l numa almofada, aps abrir nesta um pequeno buraco.
Chegou ento o momento que eu tinha previsto: trs pessoas to assustadas umas das outras que 
tudo podia acontecer  e uma delas tinha um revlver. Fiquei a observ-las das janelas da casa. Quando 
Blore se aproximou sozinho, j eu estava com o grande bloco de mrmore preparado. Fim para Blore...
Da minha janela, vi Vera Claythorne matar Lombard.
Uma moa ousada e expedita. Sempre achei que seria uma adversria digna dele. Assim que a coisa 
aconteceu, fui preparar o palco no seu quarto de dormir.
Era um interessante experimento psicolgico. A conscincia de sua culpa, o estado de tenso 
nervosa natural numa moa que acaba de matar um homem, mais a sugesto hipntica do ambiente, 
bastariam para lev-la a suicidar-se? Parecia-me que sim. E tinha razo. Vera Claythorne enforcou-se 
diante de meus olhos, oculto como estava  sombra do guarda-roupa.
E agora chegamos  fase derradeira. Adiantei-me, apanhei a cadeira do cho e coloquei-a em p junto 
 parede. Procurei o revlver e encontrei-o no alto da escada, onde a moa o deixara cair. Tive o cuidado de 
conservar na arma as suas impresses digitais.
E agora?
Vou terminar de escrever isto. Introduzirei estas folhas de papel numa garrafa, que vedarei com lacre e 
lanarei ao mar.
Por qu?
Sim, por qu?
Foi minha ambio inventar um crime misterioso que ningum pudesse resolver. Mas nenhum artista, 
percebo-o agora, pode satisfazer-se apenas com a arte. H um anseio natural e incontestvel pela ateno 
pblica.
Tenho  confesso-o com toda a humildade  um lamentvel desejo humano de que algum venha a 
saber o quanto fui hbil e inteligente...
At aqui, presumi que o mistrio da Ilha do Negro permaneceria insolvel. Pode acontecer, 
naturalmente, que a polcia seja mais sagaz do que suponho. Existem, em suma, trs pistas. Pista nmero 
um: a polcia sabe perfeitamente que Edward Seton era culpado. Sabe, por conseguinte, que uma das 
pessoas na ilha no era um assassino em qualquer acepo da palavra, donde se segue este aparente 
paradoxo: a pessoa em questo devia logicamente ser o assassino.
A segunda pista est no stimo dstico da historieta infantil. A morte de Armstrong  relacionada com 
um "arenque defumado", que ele engoliu  ou melhor, que acabou por engoli-lo! Est claramente indicada 
uma mistificao nessa altura dos acontecimentos  e que Armstrong se deixou enganar, morrendo em 
conseqncia disso. Ter-se-ia a uma promissora linha de investigao, pois nesse momento restam 
apenas quatro pessoas na ilha, e dessas quatro sou eu, evidentemente, a nica em que ele teria 
depositado confiana.
A terceira pista  simblica: a maneira de minha morte, a marcar-me na testa. O estigma de Caim.
Pouco mais h que dizer, creio eu.
Depois de confiar a garrafa e sua mensagem ao mar, voltarei para o meu quarto e me deitarei na 
cama. Ao meu pince-nez est preso o que parece ser um cordo de seda preta, mas na realidade  um fio 
elstico. Descansarei o peso de meu corpo sobre o pince-nez e passarei o cordel em torno da maaneta da 
porta ao lado, amarrando-o, no muito solidamente, ao revlver. Eis o que acontecer, segundo penso:
Minha mo, envolta num leno, apertar o gatilho. Minha mo cair para um lado. O revlver, puxado 
pelo elstico, recuar at a porta e, batendo de encontro  maaneta, desprender-se- do elstico e cair. 
O elstico, solto, voltar ao seu lugar natural e ficar inocentemente pendurado no pince-nez sobre o qual 
repousa o peso do meu corpo. Um leno cado no assoalho no provocar nenhum comentrio.
Encontrar-me-o corretamente estendido na minha cama, morto por um tiro na testa segundo foi 
registrado pelas outras vtimas. Quando nossos corpos forem examinados, j no ser possvel determinar 
com exatido a hora da morte de cada um.
Quando o mar ficar mais calmo, viro barcos e homens da terra firme.
E encontraro dez cadveres e um problema sem soluo na Ilha do Negro.
Assinado:

                        Lawrence Wargrave
